Fórum Educação
29 de outubro de 2018, 18h16

Negros, mulheres, militantes e LGBTs dizem como pretendem resistir ao governo Bolsonaro

Segundo representantes dos segmentos perseguidos pelas ideias do militar, é preciso reagir aos retrocessos e dar amor para aqueles que também estão ameaçados

Bolsonaro e o comício onde propôs fuzilar "a petralhada" (Foto: Reprodução)

Com sua trajetória baseada em propagar o ódio a diversos segmentos sociais, Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito presidente do Brasil no domingo (28). Um dia depois de sua vitória nas urnas, a reportagem da Fórum conversou com representantes de pessoas LGBTs, negros, mulheres, militantes e bolsistas de projetos de inclusão social criados pelo PT. O objetivo era saber o que eles estão sentindo e como irão fazer para se proteger de possívels atos de violência.

Alexandre Putti é produtor de eventos, jornalista e gay. Segundo ele, o Brasil já é um país LGBTfóbico em sua essência, mas a tendência durante o novo governo será criminalizar as pessoas LGBTs. “As pessoas são LGBTfóbicas, mas elas estavam escondidas dentro do armário”, afirma. De acordo com Putti, quando o presidente é alguém declaradamente preconceituoso, as pessoas que pensam como ele “saem da casinha”.

“O Bolsonaro deixou de ser uma pessoa e se tornou uma ideia. E essa ideia é muito preocupante para a nossa comunidade. Eu não acho que ele vai criar uma lei para extermínio de LGBTs, mas a ideia dele ganhou muita força. O problema não é só o Bolsonaro em si e, sim, a ideia que ele representa”, explica, dizendo que a violência contra a população sempre atingiu mais as pessoas trans. Porém, todas as outras siglas precisam se unir para ajudar a combater o ódio.

“Essa violência que sempre aconteceu com elas atingiu a todos. Eu vejo esse momento com a necessidade de se fazer isso: ir pra rua lutar, fazer manifestações, se organizar. Infelizmente, a gente se organiza só quando está um caos”, diz Putti.

Agora, ele ressalta que é preciso que os campos progressistas voltem a fazer trabalho de base. Segundo ele, esse espaço que antes era ocupado pelas militâncias foi preenchido pelas igrejas evangélicas, que influenciaram nessa visão preconceituosa. Putti diz que está organizando pequenos coletivos para dialogar com as pessoas. Porém, neste momento, ele afirma que é preciso não deixar os amigos sozinhos.

“Lutamos tanto, tantas pessoas que já morreram para chegar até aqui, onde a gente possa expressar nosso orgulho. A gente não pode deixar que as ,pessoas voltem para o armário” acrescentou, dizendo que não irá deixar de fazer resistência contra o futuro presidente. “Quando um projeto de Bolsonaro atingir negativamente uma minoria é preciso que todas as outras se unam para mostrar solidariedade às outras”.

De acordo com uma estudante do curso de direito da Faculdade de Mogi das Cruzes, que é bolsista do Prouni (Programa Universidade Para Todos), desde o primeiro turno o clima na universidade é de medo. A jovem, que não quis se identificar por questões de segurança, afirma que na semana passada, suásticas foram desenhadas nos banheiros do curso.

Agora, as ameaças, que antes eram veladas e em forma de piadas, estão ficando cada vez mais ousadas. A frase “2019 UMC sem bolsista comunista” foi escrita em uma porta de um curso de humanas. “É medonho. Tá bem hostil. A gente sente na pele, tem medo. Eu estou fazendo a minha resistência. Eu falo abertamente, ponho minha cara pra bater. Mas eu não envolvo meus amigos. É meio assustador”, afirma a estudante.

Esse medo não atinge a todos. Alguns estão tristes. Isso é o que diz a jornalista Jéssica Balbino. Segundo ela, o sentimento vem “porque estamos perdendo o pouco que conquistamos” durante muitos anos de luta. “Isso me deixa triste, mas não com medo. Sou mulher, periférica, gorda. Descendente de imigrantes e de negros. Para mim, a resistência acontece todos os dias”, afirmou.

De acordo com ela, o Brasil ainda não sabe o que é democracia. “Em 518 anos de história tivemos 388 anos de escravidão, duas ditaduras, dois impeachments e uma história marcada por golpes. Agora, elegeram um presidente que ‘autoriza’ os piores horrores, desde tripudiar sobre a dor de pessoas torturadas na ditadura, até exaltar o primeiro coronel condenado pelo crime de tortura em rede nacional”, afirmou.

“Tivemos um respiro democrático e alguns poucos anos em que nossa vida foi menos miserável. Retrocedemos e resistimos. Pra me proteger eu faço o que sempre fiz: resisto e luto”, disse ela. Para Jéssica, sua existência já é uma revolução. “Não querem que pessoas como eu existam, mas eu sou marrenta e sigo existindo. Não vamos retroceder. Vamos lutar. Não temos outra opção. Nunca tivemos”, constatou.

Selvageria

O ator Sidney Santiago Kuanza, intérprete, diretor e militante do Movimento Negro Brasileiro, também escolheu a resistência. Para ele, a candidatura do presidente eleito abriu um precedente para a selvageria. “Pessoas como eu, que fazem parte da população negra, da militância negra que reconhecem o racismo como a maior das armas que estrutura as desigualdades e a violência, que acreditam nas coisas que acredito, estão desamparadas”, afirmou.

Segundo ele, as instituições não conseguem fornecer proteção para pessoas como ele. Porém, ele diz que é preciso que as minorias tenham amor para que seja possível resistir. “O que pode nos proteger é o afeto mútuo dentro das nossas redes de atuação. E o não silenciamento. Silenciar significa morrer duplamente neste contexto que está dado”, diz.

Para ele, é importante continuar denunciando situações arbitrárias e de violência. Além disso, Santiago acredita que é preciso sensibilizar o restante da população para as demandas das minorias. Segundo ele, o governo Bolsonaro não vai reconhecer “as demandas específicas como demandas legítimas e que foram construídas historicamente”.

Coação

A diretora de cena e operadora de câmera Vanessa Dziudzik também está acuada. “Após toda essa intolerância da atual situação política do nosso País, me sinto coagida por não poder ser quem eu sou sem que as pessoas me taxem de sapatão, lésbica ou qualquer outro nome que se achem no direito de falar”, diz.

Segundo ela, um dia antes das eleições, foi participar de um campeonato de futebol. No caminho para o local e durante a disputa, ela afirma que teve que lidar com o preconceito. “Ao pegar o metrô, quatro homens mexeram comigo me chamando de moça. Ao responder positivamente, na inocência, eles começaram a rir. Perguntei se eles não tinham o que fazer. Daí eles ficaram bravos e disseram que só queriam confirmar se era moça mesmo ou machinho”, relembra.

“Disse que eles precisavam me respeitar e que, independentemente do que eles achavam, respeito era bem-vindo. Daí eles disseram: ‘se coloca no seu lugar. Bolsonaro vai ganhar e vai acabar com essa sua raça’. Não respondi, entrei no vagão com muito medo e decepcionada com o que tinha acontecido”, desabafa. Depois, no jogo, ela afirma que teve que sofrer com piadas vindas do árbitro do jogo que, no final, a ameaçou dizendo que ela não sabia quem ele era e o que poderia fazer com ela.

“Tudo isso por conta de quem eu sou, do sexo da pessoa com que me casei, do que quero e tenho como ideologia para minha vida. Não me sinto segura em nenhum momento. Sofro represália no metrô, com as pessoas me olhando torto por conta do meu corte de cabelo ou da roupa que visto. Não me sinto segura nem em andar de mãos dadas com minha esposa na rua”, afirma.

De acordo com Vanessa, ela e sua esposa têm pensado muito sobre a situação do Brasil. Elas, provavelmente, irão sair do País. “Planejamos ter filhos, mas para isso precisamos de um lugar seguro. Ou, pelo menos, um lugar onde somos aceitas sem ninguém julgar”, diz.


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