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21 de abril de 2019, 10h45

O condomínio do golpe rachou porque o plano original naufragou, por Evilázio Gonzaga

A guerra que atrai a atenção do Brasil não é uma disputa entre dois ministros do STF e a Lava Jato. Forças poderosas se movimentam e podem decidir o futuro do país. Por enquanto, a esquerda somente assiste sem decidir se assume ou não uma posição

Foto: Agência Brasil

Por Evilázio Gonzaga Alves*

O golpe de 2016 deu muito errado, inclusive para a maior parte das elites brasileiras que o apoiou ou participou da articulação, para desestabilizar a democracia no Brasil.

Por preconceito político, fundamentalismo econômico ou simples ignorância, boa parte da elite nacional, composta por empresários, funcionários públicos de alta remuneração, latifundiários do agronegócio, militares, políticos de centro e da direita racional, acreditava que seria bom para o país remover a “esquerda” do poder. Com isso se aliaram aos obscuros grupos da Lava Jato e, até mesmo, a organizações criminosas, como a que é liderada por Eduardo Cunha, para remover Dilma Rousseff do poder.

Empresários com parca capacidade de compreensão estratégica da realidade, como os donos da Riachuelo, Havan ou Zema, estavam certos de que ao apoiar o golpe e o furioso ataque aos direitos dos trabalhadores, eles iriam ganhar mais dinheiro. Como se vê, foi um tiro no pé, pois a perda dos direitos provocou, como efeito colateral, a destruição do mercado interno, consequentemente o consumo caiu assustadoramente e a maioria dos empresários que apoiou o golpe lamenta dolorosos prejuízos.

Os latifundiários do agronegócio também lastimam a perda de bilionários negócios e as ameaças de que o futuro promete ser ainda mais impiedoso, por causa dos desnecessários conflitos provocados pelo atual governo com os maiores parceiros comerciais do país, como a China e a Comunidade Islâmica.

Os militares da ativa mais preparados inquietam-se com a extinção da base industrial de defesa e tecnologia; a paralisação de projetos estratégicos (como o míssil antirradar MAR-1, o projeto VANT e o plano de construção de corvetas de projeto nacional); a desnacionalização de ativos importantes (como a base de Alcântara, a Embraer e a Mectron); a abertura das fronteiras nacionais para a atuação de tropas estrangeiras (principalmente na Amazônia, que nunca antes havia sido permitido); assim como com a ameaça à quebra da hierarquia nas três forças.

Os políticos de centro e da direita racional se viram alijados do seu espaço de poder no decorrer do processo e muitos deles se apavoram com a possibilidade de se tornarem alvo da Lava Jato (vários já são).

O verdadeiro poder econômico – grupo no qual não estão incluídos Riachuelo, Havan, Zema e outros – se preocupa com a queda vertiginosa da atividade econômica. A participação do Brasil no PIB mundial caiu ao nível de 38 anos atrás.

O golpe gerou prejuízos em dinheiro e poder

A elite está perdendo poder e dinheiro (o que para eles é mais importante). Embora preconceituosos e, muitas vezes, fundamentalistas, os principais cérebros da elite brasileira não são loucos a ponto de queimarem dinheiro.

Essa parte da elite já percebe o erro cometido e que a rejeição ao bolsonarismo é apenas um sintoma de um sentimento crescente em amplos setores do condomínio do golpe.

A movimentação de Toffoli e Moraes contra a Lava Jato é um sinal do desconforto das elites contra o núcleo duro do grupo golpista, que acabou se instalando no poder, alijando os setores mais racionais.

Toffoli nem Moraes atuam sem cobertura de forças poderosas.

Sempre é bom lembrar que a primeira atitude de Toffoli, um ministro que se notabiliza por demostrar imensa covardia, foi nomear um general do exército como seu principal assessor. O ministro não faz nada sem consultar os generais e já houve ocasiões em que tomou decisões instado pelos comandantes militares, como quando impediu Lula de conceder entrevistas durante a campanha eleitoral.

Moraes, por sua vez, é uma figura alinhada com o alto comando do tucanato paulista, que inclui a Fiesp e os grandes bancos. Esse grupo tem relações íntimas com as polícias de São Paulo. O ministro careca não foi colocado no STF por seus conhecimentos jurídicos ou devido à uma biografia ilustrada. Ele está ali cumprindo uma missão.

Chama a atenção, também, o estranho silêncio de Gilmar Mendes, um dos ministros mais prolíficos. Como se sabe, Toffoli é tutelado por Gilmar.

Apesar da mídia tradicional – toda ela alinhada ou chantageada pela Lava Jato – sugerir que há críticas internas no STF ao ataque de Toffoli e Moraes contra a república de Curitiba, nenhum ministro se manifestou publicamente sobre o caso, com exceção de Marco Aurélio Mello. Pela sua trajetória oscilante, Mello já demostrou ser um franco atirador, que não participa de grupos no STF ou na sociedade.

Os que são de grupos ou estão sob chantagem, como Fachin e Barroso, nada falaram publicamente sobre o assunto.

Além disso, nenhum militar de alta patente criticou publicamente a iniciativa dos dois ministros, para enquadrar a Lava Jato.

Críticas também não vieram das lideranças partidárias do centro e da direita racional. No campo político as críticas vieram da extrema direita bolsonarista, alinhada com a Lava Jato, e da esquerda, preocupada com a liberdade de imprensa.

Empresários do verdadeiro poder econômico nacional – incluindo os latifundiários do agronegócio – tampouco se pronunciaram sobre a investigação dos ataques ao STF.

Sem Lula como fiador um acordo é inviável

A guerra, na cobertura da mídia familiar-corporativa, alinhada com a Lava Jato, ou chantageada pela “República de Curitiba”, parece restrita a dois ministros do STF e os concurseiros paranaenses. Porém, os sinais indicam que há mais forças poderosas se movimentando no subsolo.

Se a luta fosse restrita somente ao Brasil é bem possível que pudesse ser vislumbrado o óbito da Lava Jato e de seu projeto de implantação de uma república policial no Brasil. Entretanto, a turma de Curitiba conta com o poderoso respaldo do império. Não foi à toa que Moro levou Bolsonaro para uma visita à CIA – coisa inédita em se tratando de um chefe de Estado.

Todos os indícios sugerem que há forças se movimentando além do campo de visão dos simples cidadãos. Amplos setores arrependidos de sua participação no golpe já percebem que é preciso encontrar uma saída para pacificar o país e deter a sua destruição – que está custando caro para a elite brasileira.

Esses setores fizeram um acordo conspiratório nos ambientes de instituições com a Fundação Mileniun ou a Fiesp, e, agora, percebem que o projeto deu terrivelmente errado. Há a intenção de recuperar a racionalidade no poder, mas o país somente será pacificado com um novo acordo nacional. Nenhum acordo, no entanto, será viável e sólido sem a participação do centro esquerda e da esquerda – ou seja, sem ter Lula como fiador.

*Evilázio Gonzaga Alves é jornalista, publicitário, especialista em marketing, opinião pública e mídias digitais. Estudioso assíduo de história, geopolítica e estratégia militar

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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