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25 de abril de 2018, 09h23

O muro de vidro de Doria que não fica em pé

A construção do muro de vidro em torno da USP está longe de ser unanimidade, tanto ambiental quanto social

Em julho do ano passado, o então prefeito João Doria (PSDB) iniciou a construção de um muro de vidro em torno da USP como uma forma de revitalizar a região da marginal e “integrar a Cidade Universitária à cidade”. Nesta terça-feira (24), no entanto, e pela terceira vez em uma semana, trechos do vidro amanheceram misteriosamente quebrados.

O trecho do muro quebrado. Foto: Reprodução Rede Globo

Longe de ser uma unanimidade, o muro da USP recebeu críticas na época do anúncio da obra, em agosto de 2017, até mesmo do então reitor da universidade Marco Antonio Zago. “A nossa gestão procurou adotar uma política inversa, derrubando os diversos muros que nos separam da sociedade e buscando uma integração com todos os seus setores – governo, empresários, movimentos sociais. Derrubar o muro da raia e expor a Universidade para aqueles que passam pela Marginal Pinheiros, simbolicamente, mostra aos paulistanos e paulistas que a USP não é algo isolado, ela é propriedade da população do Estado de São Paulo”, afirmou o reitor.

Especulações

A quebra em sequência dos vidros causou várias especulações. Alguns acreditam em pedradas, outros em colisão de pássaros e até mesmo na trepidação dos caminhões. Segundo a Prefeitura, o vidro é cinco vezes mais resistente que o vidro comum.

O texto de divulgação da USP, na época do início da construção do muro, já alertava que em caso de quebra, o vidro se fragmenta em pequenos pedaços que ficam aderidos na película. A reflexão de luz se mantém dentro das normas de similaridade dos para-brisas dos carros.

As placas de vidro também receberam adesivos com imagens para evitar a colisão das aves que voam na região. De acordo com um levantamento da American Bird Conservancy, dos Estados Unidos, mais de um bilhão de aves morrem ao colidir com janelas e grandes vidraças em ambientes urbanos todos os anos. O Brasil, por sua vez, não dispõe de dados sobre o assunto. Para a bióloga Roberta Boss, do Projeto de Conservação do Papagaio-de-cara-roxa, desenvolvido pela Sociedade de Preservação da Vida Selvagem (SPVS). “Mesmo a gente às vezes não enxerga o vidro e acaba trombando nele. As aves passam voando e vão trombar. Algumas vão morrer na hora e outras vão morrer depois, em decorrência da colisão, mas a gente não vai conseguir ver”, explica ela.

Quem paga o muro?

Dos 2,2 km do muro de alvenaria construído há 21 anos, cerca de 500 metros já foram substituídos por vidros. Cada placa é avaliada em R$ 4.000. Ao fim do projeto, terão sido colocados 1.222 vidros.

Ainda não está claro quem irá arcar com as contas de manutenção após o fim das obras, previsto ainda para este mês. Segundo a USP, essa parte do contrato ainda está em negociação —por enquanto, as trocas dos vidros são feitas pelas empresas doadoras.

Com as contas no vermelho, a universidade, portanto, corre o risco de ter que sustentar a manutenção do “presente” dado pela prefeitura.

Em vídeo divulgado pela prefeitura, as placas de vidro aparecem sustentadas por hastes de alumínio, que desapareceram na concepção atual.

Procurada, a arquiteta Jóia Bergamo, responsável pela obra, afirmou que os questionamentos sobre o projeto deveriam ser respondidos pela prefeitura.

A gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB) negou que tenha tido qualquer alteração no desenho original e que as imagens exibidas no vídeo são meramente ilustrativas.

Com informações da Folha e do Portal 44 Arquitetura

 

 


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