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06 de agosto de 2018, 14h11

PCdoB nos tempos de coléra, por Renata Mielli

O PCdoB tomou uma decisão difícil. Muitos alardeiam como corajosa, outros como covarde. Não é nem uma coisa nem outra. É uma decisão política difícil, num quadro político complexo

(Foto: Roque de Sá/Agência Senado)

Por Renata Mielli*

Nem o silêncio dos que calam, nem o falatório das vastas palavras e imagens de alegria. Há momentos que exigem reflexão. Exigem o recolhimento da mudez para uma manifestação mais serena.

Vivemos sob um golpe, para alguns talvez essa palavra perdeu o sentido, se esvaziou no seu significado político e histórico.

Sofremos um golpe e tudo o que se sucedeu após aquela farsesca sessão de 17 de abril de 2016 da Câmara dos Deputados é ainda continuidade dele.

Não superamos o golpe, o golpe enquanto rompimento democrático, enquanto violência institucional contra todo um campo político e que realinhou o país no contexto internacional.

Um golpe que, como todo processo ilegítimo, precisa construir suas bases de legitimidade. E a este serviço está a santíssima trindade do poder político de fato – a mídia, o judiciário e a elite econômica que com seu dinheiro compra de forma direta e indireta (financiamento privado de campanha) a maioria dos assentos no Congresso Nacional.

Os golpes de novo tipo, onde o adversário não é um opressor único — como eram as forças armadas no caso da ditadura militar — são mais turvos. E essa turbidez dificulta uma análise mais acurada da situação, e quando se erra na avaliação da conjuntura, o que se projeta para o futuro é uma imagem borrada, sem nitidez. Cada cabeça uma sentença sobre o que está acontecendo e o que se deve fazer. E daí, as táticas são diversas e perde-se, no momento mais importante, a coesão indispensável para enfrentar o golpe.

Mas isso é parte do golpe, desorganizar a resistência, fragilizar o opositor, colocar o adversário discutindo e batendo cabeça entre si para que ele encontre o caminho livre para seguir e se legitimar a ferro e a fogo.

Os golpes são tempos de profunda cólera. Eles nascem da intolerância, do ódio de classe, da guerra ideológica. A cólera contamina todos. A vacina para essa doença social é a firmeza de princípios, ideológica. Firmeza que não nos leva inevitavelmente a acertos, mas que busca posicionar da melhor forma do campo e que é nosso fator de unidade.

E para que servem os partidos políticos em tempos de cólera? Sim, esses partidos e essa política, tão criminalizados cotidianamente, tão abominados à esquerda e à direita. Para que eles servem em tempos de redes sociais, de comunicação instantânea, de “organização linear”, de muitos que batem orgulhosamente a mão no peito para dizer que participam de um movimento horizontal, para já se posicionar ao lado dos que rechaçam a organização e a hierarquia?

Para organizar as pessoas. Não há jogo que se ganhe onde cada pessoa do time haja a seu bel prazer. Podemos discordar da tática, mas temos que marchar unidos.

Desde janeiro, considero a tática adotada pelo PT equivocada e irresponsável. A discordância com a tática não é desagregadora, não é fratricida, é apenas discordância. Isso já foi dito publicamente por mim e por muitos amigos e amigas, do PCdoB, do próprio PT, pessoas de outros partidos e que não têm partidos, enfim, pessoas companheiras e companheiros de luta.

É essa discordância tática que me fez defender e apoiar a candidatura da Manuela D’Ávila. Não é uma questão de amizade — já que a conheço há muitos anos, não é uma questão de corporativismo ou exclusivismo partidário — como militante do PCdoB, desde 1988, claro que adoraria votar 65, mas isso nunca esteve no comando das minhas opiniões. Tampouco defendia a candidatura da Manu para provar para o mundo que não somos um “puxadinho do PT” — como todos adoram dizer e com esse carimbo nos diminuir.

Depois de 30 anos de militância, sei do tamanho, sei dos méritos, sei dos limites que um partido como o nosso, ideológico, com disciplina partidária — apesar de meio frouxa nesses tempos —tem. Lutamos, como sempre fizemos, porque isso é do DNA dos comunistas, pela unidade das forças de esquerda. Na verdade, lutávamos por algo maior, pela unidade do campo democrático e popular – portanto por uma frente que fosse muito mais ampla do que uma frente de esquerda.

Não traçamos de forma matemática e sem qualquer mediação uma linha que dividiu o Brasil entre golpistas e não golpistas. Pelo contrário, compreendemos que muitos setores sociais importantes que apoiaram o golpe naquele momento deveriam compor essa frente. Dividir o adversário e cooptar seus aliados lembram?

Mas essa aliança não foi possível, por toda a turbidez do momento, pela falta de nitidez em torno dos passos a serem dados. E isso é péssimo, mas é da vida e da política.

Em tempos de cólera, a tendência desagregadora é enorme. E o PCdoB tomou uma decisão difícil. Muitos alardeiam como corajosa, outros como covarde. Não é nem uma coisa nem outra. É uma decisão política difícil, num quadro político complexo, onde não há um fator único determinando as decisões, mas sim dezenas. Uma decisão que tem o peso de uma história, de um partido que pensa além de sua própria barriga e olha mais para fora do que para dentro.

Considero a tática do PT errada e agora sigo ao lado dela. Me sinto como num precipício, tenho que dizer. Não posso dormir num dia e acordar no outro e mudar toda a minha avaliação do quadro político.

Mas percebam, acho errada, mas agora sigo ao lado dela. Porque é para isso que deveriam servir os partidos. É para, de forma coletiva, com muito diálogo e discussão definir os caminhos. Está óbvio que em momentos mais simples, a nitidez e unidade em torno dos caminhos são mais fáceis de se construir. Em períodos de grande complexidade, como os que estamos passando, é muito mais difícil. E maior o tamanho, maior a responsabilidade. Isso vale para todas as esferas da vida.

Só lamento profundamente assistir ao desfecho dessa novela como se estivesse assistindo ao final da copa do mundo. Uns comemorando de um lado, porque “venceu sua opinião”, ou porque acha que foi mais esperto. Outros lamentando como se tivessem sido derrotados.

Eu não me sinto nem vitoriosa nem derrotada. Me sinto apenas mais sinceramente preocupada, mais sinceramente pessimista, diante da batalha que está por vir. E isso não se deve a decisão do PCdoB, mas ao resultado final de um processo de tentativa de unidade que fracassou.

“Estou preso à vida e olho meus companheiros

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças

Entre eles, considero a enorme realidade

O presente é tão grande, não nos afastemos

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”.

Carlos Drummond de Andrade.

*Renata Mielli é coordenadora nacional do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e membro do Comitê Central do PCdoB


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