Primeira prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão quer secretariado com paridade de gênero

Eleita pelo PT, Margarida rompe um ciclo de 170 anos de homens brancos à frente da gestão da cidade mineira e diz que não pode errar: "a sociedade não perdoa mulheres nem o PT"

Primeira mulher eleita para a Prefeitura de Juiz de Fora (MG) pelo Partido dos Trabalhadores, Margarida Salomão diz que não tem o direito de errar. “Tenho muito pouco espaço para errar, porque sou a primeira mulher prefeita e sou a primeira governante do PT na cidade. E como a sociedade brasileira tem dificuldade de perdoar as mulheres e nunca perdoa o PT, sei que estou destinada a acertar”, explica. “Vamos trabalhar muito para fazer uma gestão muito positiva para a cidade e à democracia brasileira.” Ela foi entrevistada nesta terça-feira (1º) no programa Fórum Onze e Meia, exibido no canal da Revista Fórum no Youtube.

Margarida Salomão foi eleita no último domingo com 144.529 votos (54,98%), segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Seu concorrente no segundo turno, Wilson Rezato (PSB), teve 118.349 votos (45,02%). “Interrompo uma sequência de 170 anos de homens brancos que governam o nosso município. É uma grande responsabilidade. E outra é inaugurar um ciclo de gestão do Partido dos Trabalhadores, que sempre foi extremamente bem votado em Juiz de Fora, sempre elegemos deputados federais.”

Margarida é uma das sete prefeitas eleitas nas 57 cidades que tiveram segundo turno. Entre as capitais, apenas uma terá uma mulher na prefeitura em 2021: Cinthia Ribeiro (PSDB) em Palmas. Consciente da necessidade de ampliar a representatividade feminina na política, Margarida promete um secretariado com paridade de gênero. “Estamos trabalhando para nomear um secretariado com mesmo número de secretárias e secretários, com grande presença importante da população negra no primeiro escalão”, diz, brincando que haverá uma cota para os homens.

Segundo Margarida, 42% da população da cidade se diz negra ou parda. “Uma das formas de reconstruir a democracia no Brasil é pela representação, é preciso que o povo se veja no governo, para que ele venha a confiar na esfera pública outra vez.”

Margarida em 2017 (Foto: Divulgação/Facebook/jfmargarida)

“Diálogo com a sociedade”

Quinta maior cidade de Minas Gerais, Juiz de Fora tem cerca de 570 mil habitantes e foi uma das quatro em que o PT conseguiu eleger um candidato no segundo turno. De acordo com Margarida, o município acaba atendendo a região da Zona da Mata mineira com quase 2 milhões de pessoas e uma área do estado do Rio de Janeiro. São pessoas que utilizam o sistema de saúde da cidade e vão estudar em suas universidades.  

A prefeita eleita reconhece que 2021 não será um ano fácil para os governantes, em meio à pandemia e recorde de desemprego. “A situação é muito grave em termos nacionais, temos uma crise sem precedentes, com várias dimensões”, comenta. E lembra ainda que há uma crise política, com falta de lideranças com expressão e potencial de mobilização.

Este ano foi a quarta vez que Margarida disputou a prefeitura da cidade, em todas foi para o segundo turno e tem uma longa trajetória na vida política. Hoje com 70 anos, ela foi professora universitária, formou-se em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com mestrado em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutorado pela Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos. Foi reitora da UFJF por dois mandatos consecutivos, entre 1998 e 2006. Foi secretária municipal de Administração e de Governo da Prefeitura de Juiz de Fora entre os anos 1983 e 1988. É deputada federal pelo PT desde janeiro de 2013, sendo reeleita em 2018.

Para ela, a vitória ter vindo somente este ano se deu por conta do acerto no diálogo. “Nessa campanha consegui acertar o tom com a cidade, porque debati os problemas presentes com uma perspectiva de futuro. O passado nosso, petista, nos legitima e nos autoriza a fazer a disputa de futuro. Temos que encantar as pessoas com um novo programa e o PT tem, inclusive, um programa fantástico de reconstrução do Brasil. Ou conseguimos trazer isso para o diálogo com a sociedade ou vamos ficar falando sozinhos.”

Margarida compara ainda a disputa deste ano com a de 2016, segundo ela, naquele ano, pós-impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o antipetismo estava muito presente. Hoje o cenário mudou. “Estou assumindo esse desafio sem subestimar o seu tamanho, mas assumindo com muita esperança. Tivemos uma votação expressiva, estou lidando com a cidade de uma forma a curar feridas, a polarização como vem sendo praticada no Brasil é inimiga da democracia, um elemento definidor da democracia é a capacidade de mediar, de dialogar, queremos um espaço público mais civilizado”, finaliza.  

Assista (a partir do minuto 19):

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Dri Delorenzo

Jornalista, especializada em Meio Ambiente e Sociedade (FESPSP) e mestre em Comunicação Digital pela UFABC. É editora executiva da Revista Fórum.