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28 de março de 2019, 06h00

Professor investigado por Ronnie Lessa por ser desafeto de Flávio Bolsonaro denuncia perseguição

Pedro Mara teve de deixar o Rio de Janeiro por um protocolo de segurança, mas, mesmo assim, a Secretaria de Educação abriu processo administrativo para exonerá-lo

Foto: Arquivo Pessoal

“É mentirosa a tese que abandonei o cargo.” A indignação foi a primeira reação de Pedro Mara, professor de sociologia, doutorando na Universidade Federal do Rio de Janeiro e diretor do CIEP 210, escola da periferia de Belford Roxo, no Rio de Janeiro, ao saber que a Secretaria de Educação do estado abriu processo de exoneração por abandono de emprego.

A decisão foi tomada, apesar de Pedro viver uma situação atípica. O professor foi investigado por Ronnie Lessa, acusado de matar Marielle Franco e Anderson Gomes e, por uma questão de segurança pessoal, foi obrigado a deixar o Rio.

“Encarei com tristeza, mas não com surpresa. Não é de hoje que a Secretaria de Educação não me quer diretor de escola. Em outros momentos, já houve tentativas de golpe para não deixar eu assumir, processos da família Bolsonaro. Toda a secretaria sabe que meu nome estava no inquérito do assassino da vereadora Marielle”, conta, em entrevista à Fórum.

Pedro revela que o órgão foi notificado pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), pela Comissão de Educação da Alerj, pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que assumiu o comando jurídico do seu processo. Todos alertaram a secretaria que ele precisava deixar o estado por uma questão de segurança. Mesmo assim, houve a abertura de processo administrativo por abandono de cargo. “Eu não abandonei, fui forçado a sair do estado”, resume.

Não é a primeira vez que Pedro passa por essa situação. A primeira foi em julho de 2017, quando ele foi perseguido pelo então deputado estadual Flávio Bolsonaro, que havia solicitado investigação na Secretaria de Educação e no Ministério Público para expulsar Pedro da direção do Ciep, por suposta apologia à maconha. Em seguida, Ronnie Lessa passou a investigar sua vida, o que consta no relatório do caso Marielle.

“Acho que sei por que isso acontece: sou contra fechamento de turma, sou contra fechamento de escola, sou contra sala de aula superlotada, sou absolutamente contra turma descoberta de professor e sempre me posicionei publicamente para denunciar essas arbitrariedades. Então, não me surpreende que as pessoas que destroem a educação pública não me queiram por ali”, ressalta.

Ao tomar conhecimento do processo de exoneração, Pedro teve de interromper o protocolo de segurança que estava estabelecido. “Precisei pegar um voo e voltar imediatamente para o Rio de Janeiro, um voo caríssimo, que eu nem tinha condições de financeiras de arcar, mas precisei voltar para poder organizar a defesa do processo”.

Providências

O professor acrescenta que está se preparando legalmente para se defender. “Nós vamos, obviamente, tomar todas as providências cabíveis, vamos judicializar o caso, se for necessário. Não vamos aceitar, porque é uma tentativa de coação, de constrangimento, de desestabilizar o servidor, que, na verdade, já passa por uma situação emocional que não é das melhores. Não queira imaginar como é saber que você está numa lista de um profissional do crime, como foi o caso do Ronnie Lessa, ter de sair do seu estado, abandonar a família, amigos, pessoas que dão apoio emocional, ter de ir para um lugar distante”, desabafa.

Diante da situação, Pedro questiona: “Para que a gente tem uma Secretaria de Educação que, ao invés de proteger seus servidores, é a primeira a atacar? Quem precisa de inimigos lá fora quando a própria secretaria é inimiga dos que defendem a educação pública?”.

Posicionamento

Em resposta, a secretário de Educação do estado do Rio, Pedro Fernandes Neto, se posicionou: “Ele vai sofrer o processo que qualquer profissional da rede sofre quando completa dez dias de folga. Ele vai ter a oportunidade de apresentar a defesa dele como qualquer outro servidor da pasta. Não receberá nenhum tratamento diferenciado. Passará pelo trâmite normal pelo qual todos os profissionais da secretaria passam”.

Em 1998, o então terceiro-sargento da Polícia Militar, Ronnie Lessa, recebeu uma moção de congratulações, aplausos e de louvor na Alerj. A homenagem foi do ex-deputado Pedro Fernandes Filho, já falecido, que era avô de Pedro Fernandes Neto, atualmente secretário de Educação do governado de Wilson Witzel.

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