Queiroga diz que suspendeu contrato da Covaxin “por compliance” e apanha nas redes

Argumentos do ministro da Saúde para explicar suspensão do contrato para a compra de vacina sob suspeitas de corrupção não convenceram políticos e internautas

O Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, “apanhou” nas redes sociais, no início da noite desta terça-feira (29), por tentar explicar a decisão de suspender o contrato para a compra da vacina Covaxin, desenvolvida pela Bharat Biotech, que carrega inúmeros indícios de corrupção, conforme tem sido revelado pela CPI do Genocídio no Senado.

Segundo Queiroga, a suspensão do contrato de compra do imunizante foi uma sugestão da Controladoria-Geral da União (CGU) e que se dá “por compliance”.

“Pela análise preliminar da CGU, não há irregularidades no contrato, mas, por compliance, o @minsaude optou por suspender o contrato para uma análise mais aprofundada”, escreveu em suas redes sociais.

“Compliance” é um termo de origem inglesa que se usa no meio empresarial no sentido de “cumprir” ou “estar em conformidade” com determinadas regras. Se “por compliance” o contrato do governo brasileiro para a compra da vacina indiana foi suspenso, isso indicaria que o próprio governo admite que há irregularidades.

Tanto é que a explicação de Queiroga não convenceu usuários das redes sociais. Praticamente todos os comentários de resposta à postagem do ministro são no sentido de desmontar seus “argumentos”. “Se não há irregularidades, por que suspendeu?”, questionou um internauta, em meio a inúmeras outras reações parecidas.

“Compliance = estar de acordo com as leis e normas. Estar de acordo com as leis e normas = regular. Não estar de acordo com as leis e normas = irregular. Então, o que o Queiroga disse foi: não há irregularidades, mas, pq há irregularidades, vamos suspender o contrato”, explicou outro usuário do Twitter.

Confira.

 Suspensão em meio às suspeitas de corrupção

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O Ministério da Saúde decidiu suspender a compra da vacina Covaxin, desenvolvida pela Bharat Biotech, em razão dos indícios de corrupção apontados pela CPI do Genocídio nos contratos firmados pelo governo Jair Bolsonaro com a Precisa Medicamentos. Segundo o deputado Luis Miranda (DEM-DF) e Luis Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde, o líder do governo, Ricardo Barros (PP-PR) estaria envolvido.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, revelou à jornalista Rachel Vargas, da CNN Brasil, a decisão de interromper o contrato. “Não é mais oportuno importar as vacinas neste momento”, afirmou.

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Denúncias apontam que o contrato entre o Ministério da Saúde e a empresa Precisa, representante do imunizante indiano no Brasil, previa a compra superfaturada do produto. A vacina era a mais cara entre as que o país realizou empenho de compra.

Os indícios de corrupção são inúmeros e o contrato de R$1,6 bilhão com a Precisa é alvo de investigação do Ministério Público Federal (MPF). A negociata envolveria ainda uma empresa de fachada, a Madison Biotech, offshore localizada em Singapura.

Jair Bolsonaro, no início do ano, aprovou a compra do imunizante a um preço 1.000% maior que o inicialmente anunciado pelo fabricante. Um telegrama da embaixada brasileira em Nova Délhi mostra que, quando lançada, a vacina produzida pelo laboratório indiano Bharat Biotech custava 100 rúpias ou cerca de 1,34 dólares a dose. Em fevereiro desse ano, sob pressão de Bolsonaro, a Precisa Medicamentos fechou a compra para o Ministério da Saúde pelo valor de 15 dólares a unidade. Ao mesmo tempo, o governo federal rejeitou a compra da vacina da Pfizer a 10 dólares alegando preço muito alto.

Confissão de culpa

O vice-presidente da CPI do Genocídio, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), usou as redes sociais para se manifestar diante da informação de que o governo de Jair Bolsonaro decidiu suspender a compra da vacina Covaxin, em razão de indícios de corrupção.

“Se não tinha nada de errado, por que irão suspender? Isso só tem um nome: confissão!”, afirmou Randolfe.

O deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP) resumiu em uma frase sua avaliação da medida tomada pelo governo: “Suspendeu porque fedeu”.

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Ivan Longo

Jornalista, editor de Política, desde 2014 na revista Fórum. Formado pela Faculdade Cásper Líbero (SP). Twitter @ivanlongo_

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