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30 de setembro de 2018, 11h57

Riscos de uma eleição por eliminação

Para não arriscar entrar no 2º turno fragilizado, (Haddad) precisa começar desde já a articular esse pacto de distensionamento e ampliação de suas bases. Uma “Frente Ampla”, organizada no dia seguinte à votação do 1º turno. Por Keffin Gracher

Haddad. Foto: Ricardo Stuckert

Por Keffin Gracher*

Caminhamos para um cenário de segundo turno entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, sob um crescente movimento de contestação da candidatura do capitão. Esse movimento se dá tanto nas redes sociais, com #EleNão #EleNunca, como se espalham manifestações pelas mais diversas cidades do país.

Esse cenário de negação pode eleger Fernando Haddad por eliminação de seu concorrente. Ou seja, a rejeição de tudo o que representa Bolsonaro possivelmente eleja Fernando Haddad presidente. Em vez de um projeto político sendo eleito pela maioria da população, teremos a negação de um projeto elegendo outro.

É uma situação perigosa.

É preciso levar em conta que a antítese de Bolsonaro não é somente o petismo. Bolsonaro consegue reunir contra si a parcela da população que tem apreço pela democracia, pelos direitos civis, pelas liberdades, mas não necessariamente existe hoje no país uma concepção de Estado majoritariamente de centro-esquerda. O PT polariza com Bolsonaro por ser a representação mais forte desse campo democrático, mas não tem a confiança e nem a concordância com seus projetos.

Nesse cenário de polarização, ódios e paixões, o país se mantém cindido. Mesmo o PT retomando um patamar próximo aos 30% de preferência da população, vivemos um acirramento que precisará ser tratado se Fernando Haddad for eleito. E, caso ele não seja eleito, os problemas podem ser ainda piores, haja vista o desprezo pela democracia já demonstrado pela chapa do PSL.

Bolsonaro já afirma não reconhecer resultado diferente da sua eleição para presidente – o tucano Aécio Neves fez escola – e isso significa que, após o segundo turno, podemos vir a ter novamente a desestabilização política vivida em 2014, estopim que gerou a maior parte da crise que vivemos nos últimos quatro anos.

Caso se confirme um cenário como esse, muitos serão os desafios de Fernando Haddad: ele precisará, por exemplo, construir um consenso no PT para a direção partidária não tornar-se um problema para seu governo com a defesa pública de posições sectárias. Terá ainda de reunir e conquistar a legitimidade de liderar o campo progressista brasileiro, atraindo para composição do governo e construindo uma base parlamentar sólida com partidos que rivalizaram nessas eleições.

Haddad precisará também reconstruir seu programa de governo, aceitando novas propostas, ora defendidas por outros partidos também progressistas, para só assim ter condições de se voltar à sociedade brasileira e propor um pacto de distensionamento, com o qual ele consiga convencer mais da metade da população de que seu programa é amplo e tirará o país do atoleiro em que se encontra.

Sem engrossar suas fileiras no Congresso e na composição do governo, sem ganhar a confiança de uma maior parcela da população – que pode tê-lo escolhido nas urnas por eliminação, mas não lhe devota confiança – Fernando Haddad estará em situação semelhante a que Dilma esteve em 2014 e não teve habilidade política para sair.

Já é hora de Haddad se mostrar estadista e apresentar novas propostas para a conjuntura que o país enfrenta. Temos novos desafios, reafirmar os programas exitosos nos governos Lula e Dilma não é suficiente para atrair os eleitores que precisará para reunificar o país em entorno de um projeto.

Haddad precisa ganhar mais musculatura política antes do 1º turno. Para não arriscar entrar no 2º turno fragilizado, precisa começar desde já a articular esse pacto de distensionamento e ampliação de suas bases. Uma “Frente Ampla”, organizada no dia seguinte à votação do 1º turno.

Vale a máxima que vem ganhando força nas redes: é hora de Andrade ser mais Haddad.

 

*Keffin Gracher é jornalista e cientista social. Há 12 anos coordena projetos de comunicação digital, com foco em governos e campanhas eleitorais.

No governo da presidenta Dilma Rousseff foi diretor de Internet, responsável pela presença digital do Governo Federal.


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