Fórumcast #20
16 de novembro de 2018, 12h15

Ronald Sorriso: A piscina do Juramento explica muita coisa

A nossa sociedade precisa pensar no tanto que se nega ao povo para que ele aceite a submissão ao Crime Organizado para, a partir daí, tomar ações efetivas e inteligentes que deem conta de combater o Poder e a influência dos criminosos sobre as comunidades

Foto: Reprodução/Facebook

Por Ronald Sorriso*

Sempre foi dito, e é verdade, que a ausência do Poder Público é o que possibilita a existência do Poder Paralelo nas Favelas e Periferias. O crime organizado oferta todo o tipo de assistência em troca do silêncio dos moradores aos seus atos ilícitos. E tudo isso vai da oferta de remédios à possibilidade de lazer. Em todo o Rio de Janeiro existem campinhos e quadras que são mantidos pelo tráfico, enquanto as quadras poliesportivas das praças estão destroçadas.

Como se sabe, as praias banháveis ficam nas regiões nobres do Rio, longe da maior parte da população, que têm um acesso débil a elas através do serviço público de transportes. E mesmo quando essas pessoas têm algum acesso, as suas linhas são precárias e marginalizadas, como a 474. Quem não lembra do esquadrão de playboys de academia que lincharam jovens que desciam dessa linha em Copacabana, 1 ou 2 anos atrás?

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O governo do estado, durante os governos de Garotinho e Rosinha, criou dois piscinões à beira da Baía de Guanabara, onde as águas sujas impedem o banho de mar: Ramos, no subúrbio da Leopoldina, Zona Norte do Rio, e Praia das Pedrinhas, em São Gonçalo, ambas celebradíssimas nas suas inaugurações. Ramos ainda funciona, administrada pela Prefeitura do Rio, sem o mesmo glamour dos tempos do falecido Dicró e sucateada. Já São Gonçalo, está fechada e caindo aos pedaços, visto que a prefeitura municipal alega não ter condições de manter o espaço. É aí que entra o Poder Paralelo.

Diante das dificuldades do Poder Público de ofertar o direito ao lazer para os moradores do subúrbio, a solução que o Poder Paralelo encontrou no Juramento foi a de construir uma piscina numa das praças da comunidade. Uma medida bastante popular em uma cidade que costuma fazer mais de 40°C durante o verão, convenhamos.

Quando as UPPs foram instaladas, uma das medidas adotadas pelos comandantes, autorizados pela Resolução 013 do Governo do Estado, para impor “ordem” nos locais foi a de proibir a realização de bailes funk ou qualquer outro evento nas ruas das favelas ocupadas. É sabido que o funk é a principal expressão cultural destas comunidades. Nomes como Nego do Borel, Anitta e Ludmila, que fazem bastante sucesso em todo o mundo, começaram se apresentando nestes eventos. E sob a alegação da influência do tráfico, o Poder Público se eximiu de disputar essa cultura e, como o colonizador faz com um colonizado, vetou a realização dos bailes, comprometendo a credibilidade das UPPs junto aos moradores.

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A catarse criada na mídia e nas redes sociais, em especial por aqueles que defendem valores tidos conservadores, pela descoberta da piscina do Juramento reflete questões que vão desde a negação do direito ao lazer para os pobres, incentivando a destruição do referido equipamento, até mesmo o preconceito e a ignorância de considerar todos os que frequentam aquele espaço enquanto criminosos, cúmplices dos traficantes. A nossa sociedade precisa pensar no tanto que se nega ao povo para que ele aceite a submissão ao Crime Organizado para, a partir daí, tomar ações efetivas e inteligentes que deem conta de combater o Poder e a influência dos criminosos sobre as comunidades.

*Ronald Sorriso é Secretário Nacional da Juventude do PT

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