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01 de março de 2018, 09h43

Senha pra confirmar que Paulo Preto cobrava propina por Aloysio Nunes foi a pauta da reunião

Souza teria dito que, se os pontos tratados por Aloysio fossem exatamente os que ele listara, era sinal de que ele representava a cúpula do governo paulista naquela época. Foi o que ocorreu

Um delator da OAS, Carlos Henrique Barbosa Lemos, conta que houve uma reunião no Palácio dos Bandeirantes, com Aloysio Nunes e outros integrantes do governo, para checar se de fato o engenheiro Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, representava Serra e o seu chefe da Casa Civil —havia uma desconfiança de que ele embolsava o que dizia ser dinheiro para futuras campanhas.

Lemos afirma que Souza passou aos executivos qual seria a agenda do encontro, ponto por ponto. Souza teria dito que, se os pontos tratados por Aloysio fossem exatamente os que ele listara, era sinal de que ele representava a cúpula do governo paulista naquela época.

Foi exatamente o que ocorreu, segundo o executivo da OAS. Após a reunião, disse, cessaram as dúvidas sobre quem Souza representava.

Paulo Preto pode virar recordista em menções em delações. Ele já foi citado por sete delatores da Lava Jato (da Odebrecht, Andrade Gutierrez e pelo operador Adir Assad), e aparece em depoimentos de outros três executivos da OAS e da Queiroz Galvão que negociam acordo com procuradores.

Todos acusam Souza, de ter cobrado propina na obra do Rodoanel, realizada na gestão do tucano José Serra (2007-2010). Documentos enviados de autoridades suíças apontam que Souza teve uma conta naquele país com R$ 113 milhões.

Os depoimentos dos dez executivos fazem parte do inquérito da Polícia Federal que tramita no Supremo Tribunal, do qual a Folha obteve cópia. Diferentemente do que ocorre em dezenas de delações, nas quais incongruências e variações na narrativa são comuns, os relatos sobre Souza são similares.

O que os executivos contam é que Souza, diretor de engenharia da Dersa no governo Serra, pediu a dez empreiteiras que fizeram o trecho sul do Rodoanel um suborno equivalente a 0,75% de tudo que elas recebessem. Como a obra custou R$ 3,5 bilhões em valores da época que foi inaugurada, em abril de 2010, a propina de 0,75% seria de R$ 26,3 milhões.

Souza, segundo delatores, comunicou os empreiteiros que Serra exigia uma redução de custo de 4% no valor da obra, contratada em abril de 2006 por R$ 2,59 bilhões, o que implicou em queda de R$ 103,5 milhões no preço.

O contrato foi preparado na gestão de Geraldo Alckmin (PSDB), mas foi assinado quando Claudio Lembo (então PFL) assumiu o governo porque Alckmin deixara o cargo para concorrer à Presidência.

Houve, no entanto, uma contrapartida ao preço menor, segundo os delatores: o governo permitiu que as empreiteiras obtivessem ganhos com a mudança do regime de contratação da obra.

O contrato inicial previa o pagamento por preço unitário, ou seja, por quilômetro de asfalto ou tonelada de pedra brita. Após o desconto de 4%, o regime foi mudado para preço global.

O senador tucano Aloysio Nunes, que foi chefe da Casa Civil no governo Serra, diz que isso ocorreu para evitar que as empreiteiras pedissem a inclusão de aditivos, que elevariam o preço final da obra.

Delatores apontam outro motivo. A alteração beneficiou as empreiteiras, segundo Roberto Cumplido, que cuidou do Rodoanel na Odebrecht e é um dos 78 delatores da empresa.

O advogado de Paulo Vieira de Souza, Daniel Bialski, diz que as declarações dos delatores são mentirosas porque seu cliente foi duro com as empreiteiras.

“Eles queriam aumentar o preço da obra com aditivo, e o Paulo denunciou isso ao Ministério Público”, afirma.

José Serra afirma que “nunca autorizou, direta ou indiretamente, qualquer negociação ilegal em seu governo”. Segundo ele, a mudança de regime de contratação do Rodoanel resultou em economia para o estado. Serra também afirma que foi o PSDB quem cuidou de arrecadações de campanha.

Segundo depoimento que prestou ao delegado da Polícia Federal Luis Flavio Zampronha, a Odebrecht conseguiu ganhar entre R$ 60 milhões e R$ 70 milhões com a nova forma de contratação.

Isso ocorreu, ainda de acordo com o executivo, porque “o consórcio já havia estudado a obra e sabia da possibilidade de obter melhorias de produtividade”.

Na visão de delatores da Odebrecht, Souza era extremamente agressivo quando negociava os subornos com os consórcios. Quando pediu a propina de 0,75%, ele teria dito a Cumplido que, se consórcio formado por Odebrecht e a Constran não pagassem, o Dersa, empresa do governo paulista que cuidou da obra, romperia o contrato.

Outro delator da Odebrecht, Benedicto Junior, disse em depoimento à PF que, diante da ameaça, mandou pagar imediatamente a propina.

Com informações da Folha

 


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