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16 de março de 2018, 12h21

Sete notas mentais e palpites para avançarmos na luta contra a violência

Aqueles que têm certeza de uma perspectiva mais humanista e democrática precisam se dispor ao diálogo

Por João Brant*

  1. O discurso de ódio ganhou reverberação nos últimos anos, mas não é majoritário. Não tomemos as caixas de comentários como se elas representassem o conjunto. Ali fala uma minoria raivosa.
  2. Enquanto a minoria faz barulho, há uma grande maioria da população que oscila entre o humanismo e o ódio, entre democracia e autoritarismo, entre paz e violência, com vários matizes e combinações desses valores e impulsos. É verdade que o punitivismo é marca da nossa sociedade, mas isso não faz das pessoas necessariamente odiosas. Cada um de nós carrega um tanto de humanismo dentro de si. Apostemos nisso.
  3. O discurso de ódio, pró-autoritarismo e violência sempre esteve representado na política, mas ganhou um espaço institucional mais relevante, por um conjunto de fatores, inclusive a opção de parte dos meios de comunicação de reverberar com mais força este tipo de discurso extremo. Essa linha política representa um perigo real e não deve ser desprezada, mas não adianta reagir a ela como se fosse um time de futebol adversário – desopila o fígado, mas não produz avanços.
  4. Aqueles que têm certeza de uma perspectiva mais humanista e democrática precisam se dispor a uma disputa diária de valores que tenha como foco o diálogo com o largo centro do espectro – aqueles que carregam apenas ódio e promovem a violência não devem ser interlocutores diretos. Precisamos elencar nossos melhores argumentos e evidências, disputar o sentido geral da condução desse debate, mas ter respostas claras e convincentes para cada um dos questionamentos. Não fujamos de nenhuma pergunta incômoda.
  5. O Brasil tem quase 60 mil homicídios por ano. Este valor corresponde à soma de todos homicídios dos Estados Unidos, Canadá, todos os países da Europa, Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egito, Rússia, China, Mongólia, Indonésia, Japão Austrália e Nova Zelândia. Este número não pode ser aceitável, e não impressiona que a população busque respostas mais imediatas para este problema. Precisamos conhecer os números e qualificar a interpretação deles. Os dados do Brasil mostram que as maiores vítimas são jovens, negros, de periferia, numa combinação de violência de grupos organizados, violência policial e uma cultura violenta de resolução de conflitos – tanto aqueles de caráter pessoal como aqueles que são fruto de nossa imensa desigualdade social. O racismo e o machismo são características estruturantes desta cultura, precisamos conseguir compreender isso de verdade.
  6. Precisamos construir mais inteligência coletiva sobre isso, e mostrar como o enfrentamento a esta realidade se dá com atenção e empatia a todas as vítimas de violência. Todas. Mas sabendo identificar os problemas nas dimensões que eles têm. Precisamos quebrar todos os tabus. Falar de como a guerra às drogas e o proibicionismo facilitam o crescimento da violência e da corrupção. Falar da violência da polícia e de como os autos de resistência protegem a impunidade. Falar da condição de trabalho do policial que o expõe a violência e risco de vida constante. Falar do racismo que temos introjetado em nós e de como ele permite naturalizar grande parte dos 162 homicídios que acontecem todos os dias no país (quase 7 por hora, mais de 1 a cada 10 minutos). Falar de como a nossa desigualdade econômica e naturalização de privilégios mantém e é mantida à base da violência. Assumir que a morte dos pobres hoje reverbera e importa menos, e reverter isso social e individualmente.
  7. Não atuo na área de justiça, segurança e enfrentamento à violência, mas sinto que precisamos mais troca entre aqueles que se referenciam em valores de humanismo, democracia e igualdade real entre os seres humanos. E precisamos saber que esses valores não se mantêm nem conquistam espaço socialmente sem paciência e disposição ao diálogo. Isso não significa diminuir o tom do enfrentamento, absolutamente necessário, mas não explodir pontes e não se ensimesmar nas próprias convicções.

*Militante da comunicação e da cultura, ajudou a fundar o Intervozes e trabalhou como assessor especial na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e como secretario executivo do Ministério da Cultura


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