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26 de outubro de 2018, 22h42

Sob ameaça, debate “A crise da democracia” é cancelado em universidade de Santos

Luiz Sales do Nascimento, professor de Direito da UniSantos, que iria comandar a programação, responsabilizou o clima político: “Mudar a data vai dar na mesma. Eles fizeram isso agora e vão continuar fazendo, inclusive, vão se sentir mais fortalecidos, porque conseguiram cancelar o evento”

O professor Luiz Sales do Nascimento foi convidado para comandar o debate, que acabou não correndo na UniSantos – Foto: Reprodução/Facebook

Depois de receber ameaças nas redes sociais, a organização do debate “A crise da democracia – 2018”, que seria realizado neste sábado (27), às 9h30, no auditório da Faculdade de Direito da Universidade Católica de Santos (UniSantos), no litoral de São Paulo, decidiu cancelar o evento. A atitude provocou protestos dos alunos e do professor convidado para comandar o evento.

“Fui convidado pelo professor Ricardo Galvanese para participar desse debate que, por sinal, ele já fez em outras faculdades da mesma universidade, em outro campus. Eu aceitei prontamente. Como ele me disse, na quinta-feira (25), que estava com receio de não ir muita gente, porque sábado, normalmente, vão poucas pessoas na faculdade, e o evento não teve divulgação, falei, então, que iria postar no Facebook para divulgar”, explica Luiz Sales do Nascimento, professor de Direito Constitucional, de Direitos Humanos e Constitucionalização do Direito Ambiental Internacional e de Direito Comparado no programa de mestrado e doutorado da universidade.

A partir daí, segundo o professor, começaram a surgir ameaças pelas redes sociais, de pessoas com opiniões ligadas à extrema direita, com muitas críticas em relação à realização do evento. “Foi então que recebi uma ligação do professor Galvanese dizendo que o reitor estava preocupado com nossa integridade física e que achava melhor transferir o evento. Sugeriu fazer em outra data, depois da eleição. Eu falei para ele, que promoveu o evento, que me submeteria à decisão dele e que eu não queria deixar a universidade em má situação. No entanto, eu também tinha que ter uma saída honrosa. Por isso, eu coloquei o post no Facebook (veja abaixo). Você não pode recuar num momento desse”, destaca Sales.

Em relação à alteração da data, o professor ressalta que, em sua opinião, a medida não vai ter eficácia. “Mudar a data vai dar na mesma. Eles fizeram isso agora e vão continuar fazendo, inclusive, vão se sentir mais fortalecidos, porque conseguiram cancelar o evento. Eu não culpo o reitor, a direção da faculdade que, suponho, nem estava sabendo, e nem o próprio Galvanese, que está sempre disposto a promover todo tipo de debate, para levar as lutas políticas para os estudantes tomarem conhecimento. É muito mais culpa do clima político”, acrescenta Sales.

Acompanhem a postagem do professor Luiz Sales no Facebook, logo após saber do cancelamento do debate:

“PARANOIA OU MISTIFICAÇÃO – (parafraseando MONTEIRO LOBATO)
Atenção alunos, ex-alunos, e demais interessados: curvo-me à decisão dos promotores do debate sobre “A crise da democracia – 2018”, que se realizaria amanhã, às 9:30 horas, no auditório da Faculdade Católica de Direito de Santos, que resolveram cancelar o evento.
Lamento as posições paranoides e paixões ideológicas mistificadoras, que desconhecem a Ciência do Direito Constitucional.
A DEMOCRACIA É REGIME PERMANENTEMENTE EM CRISE.
E ESSA CRISE SE TRANSFORMA CONFORME AS CONJUNTURAS.
Acenam com a realização em outra data.
Estou à disposição de todos para contribuir sempre.
Afinal sou Professor de Direito Constitucional, e sempre explico aos meus alunos, que o direito fundamental de livre expressão do pensamento, em uma sociedade civilizada, serve para os interlocutores ouvirem, ponderarem, se convencerem de outra tese, ou convencerem seus interlocutores, propiciando o aperfeiçoamento da sociedade.
Em uma sociedade ainda não civilizada, ao invés da liberdade de expressão, ganham foros de legitimidade a paranoia, ou pior, a mistificação.
Obrigado a todos que, na postagem abaixo, ou “inbox”, manifestaram seu apoio”.

 


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