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30 de agosto de 2019, 16h17

Dallagnol admite estratégia “fora da caixa”, relativiza deboches contra familiares de Lula e protege Bolsonaro

O procurador se defendeu das mensagens em que aparece dizendo que promoveu vazamentos, argumentando que o que foi feito não foi um "vazamento", mas um "furo de reportagem"

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em entrevista a Ricardo Senra, da BBC Brasil, o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato, comentou sobre as recentes reportagens da Vaza Jato, divulgadas pela Folha e pelo Uol em parceria com o The Intercept Brasil, que expuseram conversas de membros do Ministério Público Federal (MPF), debochando da morte de parentes de Lula e traçando uma estratégia de controle sobre os meios de comunicação.

O procurador se defendeu das mensagens em que aparece dizendo que promoveu vazamentos, argumentando que o que foi feito não foi um “vazamento”, mas um “furo de reportagem”. “As informações levianas que diziam que a Lava Jato trabalha com vazamento de informações: isso é balela, mentira, falso. A gente nunca vazou. […] Se aquela informação não é sigilosa, eu posso falar para você. Isso é um furo, não é um vazamento”, defendeu, dizendo ainda que não se lembra das mensagens.

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Quando questionado especificamente sobre a fala “meus vazamentos objetivam sempre fazer com que pensem que as investigações são inevitáveis e incentivar a colaboração”, o procurador reafirmou que não se referia à informação sigilosa e que foi feito um “giro semântico” para comprometê-lo.

“Não era algo sigiloso, era uma estratégia de investigação. E aí está o giro semântico que os caras fazem para nos atribuir vazamentos. O que existiu ali, se existiu, foi um adiantamento de estratégia de investigação, que é o que o Orlando fala (procurador Orlando Martello). De novo, posso adiantar estratégia de investigação? Posso. Não tem nada de ilegal, ilegítimo e ilícito nisso”, declarou.

Questionado sobre a legalidade desta “estratégia”, ele afirmou que “não tem nada de errado nisso” e a qualificou como “‘fora da caixa’, usada, correta e legítima” com objetivo de estimular delações. Segundo ele, esse “estímulo” não é ilegal e não retira a espontaneidade da delação.

“A colaboração deve ser voluntária, o que é diferente de espontânea. Espontânea é quando parte da própria pessoa, voluntária é quando a pessoa decide fazer por vontade própria. (O errado é) quando não existe voluntariedade. Quando existe coação. […] A gente trabalhou com estratégia, a gente nunca escondeu isso, a gente trabalhou com estratégia de comunicação, sempre buscou ser transparente, prestar informações à sociedade, buscar o apoio da sociedade”, disse.

“Círculo de intimidade”

Sem ser diretamente questionado, o procurador adentrou na questão das conversas sobre os parentes do ex-presidente Lula, em que procuradores aparecem debochando da dor de Lula com as mortes da ex-primeira dama Marisa Letícia, do neto Arthur e do irmão Vavá. Dallagnol acredita que “são conversas que você teria na mesa de casa com a família”.

“As pessoas têm que entender que essas conversas são conversas que você teria na mesa de casa com a família, são pessoas que estão trabalhando há cinco anos juntas, são amigas. São conversas que você tem com o círculo de intimidade, conversas que você fica à vontade para falar até alguma besteira, uma bobagem, para ser até certo modo irresponsável”, disse.

Apesar de admitir irresponsabilidade, ele relativizou quando questionado sobre uma “falta de humanidade” ou “falta de cuidado” dos membros do MPF. “O que eu posso falar com a maior tranquilidade é sobre as pessoas que estavam ali. Posso falar que Januário é uma pessoa super humana. Que adotou já umas três, quatro crianças que não tinham um futuro e acolher na família dele. E aí essa pessoa está sendo vilanizada. Você acha isso justo?”, tangenciou.

Família Bolsonaro protegido

Na conversa, Dalagnol evitou comentar sobre o presidente Jair Bolsonaro e seus filhos, dizendo que não queria entrar no debate político. “Não vou entrar no debate político, essa não é minha seara. A nossa atuação é técnica, é apartidária”, declarou.

Questionado sobre uma declaração de Eduardo que disse que o procurador é “financiado por ONGs de esquerda”, ele disse que preferia não comentar. “Eu não vou comentar isso. Vou deixar para cada um olhar o passado, a história da nossa atuação e tirar suas próprias conclusões”, declarou.

Confira a longa entrevista no site da BBC


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