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29 de julho de 2019, 07h21

Saiba como a divulgação da delação de Palocci por Moro ajudou Bolsonaro nas eleições 2018

"Então, parabéns ao Palocci", declarou Jair Bolsonaro em entrevista à TV Record antes do primeiro turno das eleições, quando foi divulgada a delação premiada do ex-ministro de Lula e Dilma por Sérgio Moro

Palocci, Bolsonaro e Moro (Montagem)

Em nova reportagem da Vaza Jato, a delação sem provas do ex-ministro Antonio Palocci é colocada em dúvida por procuradores do MPF, que citam que o ex-juiz federal Sérgio Moro apenas a aceitou com o objetivo de atrapalhar a candidatura de Fernando Haddad (PT) e o que ele classifica como “ormeta petista”, usando termo relacionado à máfia italiana. Na época, o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) comemorou muito a notícia e ainda nomearia Moro como ministro.

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“Então, parabéns ao Palocci. Quem não erra como ser humano? E ele tenta logicamente diminuir o dano ocasionado em todo o Brasil com suas ações”, declarou Jair Bolsonaro em entrevista à TV Record dois dias antes da votação do primeiro turno das eleições de 2018 – realizada durante o debate da TV Globo, que o então candidato optou por não participar.

Logo que foi lançada, a delação foi considerada pelo atual presidente com uma “bomba atômica” em cima do PT. Em despacho, Sérgio Moro, que fechou acordo com Palocci apesar do MPF não acreditar nas denúncias feitas por ele por falta de provas, deu publicidade ao conteúdo por  “não vislumbrar riscos às investigações”.

Muitos dos apoiadores do atual presidente comemoraram a publicação do material como uma “bala de prata” bolsonarista, e em alguns veículos ligados ao então candidato davam conta de que a delação implodia a candidatura de Haddad e garatia a vitória do ex-capitão em primeiro turno. O membro do PSL esteve perto de arrematar logo de cara, com 46% dos votos.

À época, o PT denunciou a atitude de Moro por “mais uma interferência arbitrária e ilegal no processo de eleições, ao dar publicidade às mentiras de Antônio Palocci, que não tem credibilidade nem moral para falar sobre o PT”. Apesar disso, a delação ganhou grande destaque e atrapalhou os planos do partido em crescer para cima de Jair Bolsonaro, que nomeou Sérgio Moro como ministro da Justiça cerca de um mês após o segundo turno garantir-lhe a vitória.

“Eu tenho pena do Palocci porque um homem da qualidade política dele não tinha o direito de jogar a vida fora como ele jogou. Tenho um profundo respeito pela mãe do Palocci, que é fundadora do PT, que carrega barro até hoje pelo PT lá em Ribeirão Preto. Mas lamentavelmente eu tenho pena do Palocci”, foi o que disse Lula sobre o ex-ministro em sua primeira entrevista na prisão, publicada em abril de 2019.

Uso eleitoral
Moro divulgou a delação de Palocci no dia 1º de outubro, uma semana após o comentário reproduzido por Paulo Roberto Galvão no Telegram e uma semana antes do primeiro turno das eleições presidenciais.

No dia 1º, o assunto ocupou quase nove minutos do Jornal Nacional, da TV Globo. A reportagem citou duas vezes a ligação do ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli com a campanha do então candidato presidencial do PT, Fernando Haddad, que aparecia em segundo lugar na corrida eleitoral, bem atrás do favorito, Jair Bolsonaro (PSL).

Nos dias seguintes, a delação de Palocci foi noticiada com destaque pela Folha e por outros jornais e ganhou visibilidade na propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

Os dois últimos programas da campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) mencionaram as acusações do ex-ministro, dizendo que ele havia mostrado por que era preciso impedir a volta do PT ao poder.

Colhendo os frutos
Em sua defesa no Conselho Nacional de Justiça, 15 dias depois de divulgar a delação, Moro afirmou que a delação de Palocci incluía “outros depoimentos, alguns mais contundentes” e acrescentou que aguardara a apresentação das provas de Palocci à polícia para evitar que a “divulgação prematura” da delação prejudicasse as investigações.

Um mês depois de apresentar essas explicações, Moro abandonou a magistratura para ser ministro da Justiça e Segurança Pública no governo Bolsonaro. Duas semanas depois, o TRF-4 soltou Palocci, que estava preso em Curitiba havia dois anos, e determinou seu recolhimento em prisão domiciliar, monitorado por tornozeleira eletrônica.


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