Fórumcast #19
21 de julho de 2019, 14h46

Vaza Jato: Dallagnol queria falar do PT, mas não de Flávio Bolsonaro e Queiroz

Apesar da empolgação inicial para comentar denúncias contra deputado petista, o procurador da Lava Jato recusou convite de programa da Globo por temer ter que falar sobre o escândalo Flávio Bolsonaro/Fabrício Queiroz

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Em nova publicação da série Vaza Jato, o site The Intercept Brasil trouxe a público neste domingo (21) diálogos inéditos entre procuradores federais da Lava Jato. As conversas revelam que Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa, sugeriu aos colegas que o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, protegeria o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) nas investigações sobre o caso Queiroz para não desagradar o presidente e para garantir uma possível indicação para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).

No entanto, ao longo da matéria, fica claro que o próprio Dallagnol também se encontrou dividido entre seguir com seu discurso de combate apartidário à corrupção ou antagonizar o senador e filho do presidente.

O dilema do procurador surgiu em 21 de janeiro de 2019, quando cerca de um mês após estourar o escândalo Queiroz, Dallagnol recebeu um convite para o “Fantástico”, da Globo, para uma entrevista sobre a questão do foro privilegiado.

Em princípio, o procurador se animou com a ideia de falar sobre o possível foco da matéria: denúncias envolvendo o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS). Ele hesitou, porém, em aceitar o convite por temer cair no assunto Flávio Bolsonaro.

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Os colegas da Lava Jato concordaram que a melhor opção era rejeitar o convite do Fantástico para evitar o que chamaram de um “bola dividida Flávio Bolsonaro”.

Dallagnol16:44:44 – Pessoal, temos um pedido de entrevsita do fantástico sobre foro privilegiado. O caso central é bom, envolvendo o Paulo Pimenta, se isso for verdade rs. O risco é eles decidirem no fim focar no Flávio Bolsonaro eusarem nossas falas nesse outro contexto. De um modo ou de outro, o que temos pra falar é a mesma coisa. Além disso, algumas informações que buscam não temos (são da PGR). A questão é se é conveniente darmos entrevista para essa reportagem ou não. Eu não vejo que tenhamos nada a ganhar porque a questão do foro já tá definida. Diferente de uma matéria sobre prisão em segunda instância…

Curiosamente, em 17 de janeiro desse ano, quatro dias antes do convite do Fantástico, os assessores de imprensa de Dallagnol comentaram sobre a firmeza no posicionamento do procurador, o que “reforça o apartidarismo”. O mesmo assessor, no entanto, criticou a posição de Moro sobre o caso: “sem contar que a fala de Moro sobre Queiroz foi muito ‘neutra’. não teve firmeza, sabe? para muita gente, pareceu que Moro quis sair pela tangente”.

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O caso Queiroz não irá embora tão cedo. Pior para Sérgio Moro

Apesar de o próprio Fabrício Queiroz estar sumido, o escândalo que o conecta à família Bolsonaro – do primogênito à primeira-dama – não dá nenhum indício de ir embora tão cedo.

Não por falta de tentativa, é claro, uma vez que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli acolheu pedido da defesa de Flávio Bolsonaro e paralisou as investigações sobre o senador.

Com a decisão do ministro, suspende-se todos os inquéritos abertos, em todas as instâncias, a partir de dados compartilhados por órgãos de controle como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e a Receita Federal, sem autorização judicial prévia.

Na prática, todos os casos só poderão ser retomados ou encerrados definitivamente quando o STF se manifestar sobre a questão. O julgamento que irá analisar e debater o caso está marcado para 21 de novembro, em plenário.

Por ora parece ser uma vitória do senador e filho do presidente, mas o buraco do caso Queiroz pode ser bem mais embaixo. Segundo a Veja, que teve acesso ao documento que embasou a quebra de sigilo de Flávio Bolsonaro, o Ministério Público do Rio de Janeiro vê indícios que sugerem a prática dos crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa no gabinete do então deputado.

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Agora, mesmo que Dallagnol e outros procuradores talvez não precisem se manifestar mais a respeito do assunto, o mesmo não poderá ser dito daquele a quem realmente será cobrada uma resolução satisfatória ao caso: Sérgio Moro. Resta saber se ele o fará, e como isso será feito.

 

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