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20 de março de 2019, 06h03

Viagem de vira-latas: a submissão de Bolsonaro aos EUA em 12 falas e situações

Durante a visita a Washington, a comitiva brasileira liderada por Jair Bolsonaro protagonizou situações vexatórias enquanto se orgulhava de “acordos” que não trazem benefício algum para o Brasil. Confira

Reprodução

Ignorado pelo principal jornal dos Estados Unidos, o The New York Times, e destaque em outros veículos da imprensa local, como a Fox News, por suas supostas ligações com a milícia, o presidente Jair Bolsonaro mais parecia em sua viagem à terra do Tio Sam uma criança que vai à Disneylandia do que um chefe de Estado em uma visita oficial.

Acompanhado do filho Eduardo Bolsonaro, de ministros como Sérgio Moro, Paulo Guedes e Ernesto Araújo (que sequer se comportou como um chanceler e foi invisibilizado), o capitão da reserva não poupou elogios à “América”, como se o nome do nosso continente fosse uma exclusividade dos norte-americanos, se deslumbrou com protocolos comuns em visitas como essas e, acima de tudo, entregou de mão beijada a soberania nacional sem exigir qualquer tipo de contrapartida, em um gesto claro de submissão.

De visita “surpresa” à CIA, passando pelo uso de coturnos para se encontrar com Donald Trump, elogios desnecessários e até boné copiado do presidente norte-americano, a comitiva brasileira nos EUA traduziu de forma fiel o famoso “complexo de vira-latas” que acomete tantos brasileiros.

Confira, em 16 falas e situações.

Presentinho do Sul: base para lançar foguetes

Na segunda-feira (18), primeiro dia de Jair Bolsonaro em Washington, o presidente assinou um “acordo” que permite o uso comercial, por parte dos Estados Unidos, do centro de lançamento de Alcântara, no Maranhão.

Para especialistas, a liberação do uso da base aos norte-americanos afeta diretamente a soberania nacional. Em entrevista à Fórum, o governador do Maranhão, Flávio Dino, criticou a medida.

Bolsonaro, em troca, não pediu nada. Esse foi um dos primeiros presentes do mandatário brasileiro à Donald Trump logo que iniciou sua visita.

Chegou chegando.

Minha casa é sua, mas a sua não é minha

O presentinho de Alcântara veio com mais um bônus: no mesmo dia, Bolsonaro assinou um decreto para isentar cidadãos norte-americanos, japoneses, canadenses e australianos para entrar no Brasil.

De mão beijada, Bolsonaro concedeu o benefício aos EUA sem nem ao menos tentar pedir nada em troca para Trump. Se limitou a dizer que a medida alavancaria o turismo brasileiro. Enquanto isso, brasileiros seguem sendo humilhados em tentativas de viagem aos EUA, que cada vez mais tem dificultado a entrada de imigrantes, mesmo turistas, e muitos amargam em situação irregular no país.

Viva a América!

Americans are great, brazilians a shame

No domingo (18), o deputado federal Eduardo Bolsonaro, que assumiu um papel de  chanceler no lugar de Ernesto Araújo e chegou aos EUA antes mesmo do pai, disse em um evento, já sabendo do decreto que liberaria os estadunidenses de visto para entrar no Brasil, que brasileiros “ilegais” no país de Trump são uma “vergonha” – “shame”, em inglês.

“Quantos americanos vão vir morar ilegalmente no Brasil, aproveitar essa brecha para entrar aqui como turista e passar a viver ilegalmente? Agora vamos fazer a pergunta contrária: se os EUA permitirem que o brasileiro entre lá sem visto, quantos brasileiros vão para os Estados Unidos se passando por turistas e vão passar a viver ilegalmente aqui? (…) Um brasileiro ilegalmente fora do país é problema do Brasil, isso é vergonha nossa, para a gente”, afirmou.

Em suma, Eduardo Bolsonaro defende que norte-americanos possam circular livremente no Brasil.

O contrário, não.

Papai, eu quero o boné dele

Por falar em “great” (em português, “ótimo”) e “shame” (em português, “vergonha”), o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, mostrou toda sua performance como vassalo dos norte-americanos ao circular por Washington com um boné inspirado naquele que Donald Trump usa.

Ao invés de “Make America Great Again”, o de Edu dizia “Make Brazil Great Again”.

What a shame.

Deslumbramento de principiante

No domingo (17), logo depois de desembarcar em Washington, Bolsonaro fez questão de mostrar seu deslumbramento por ter ficado hospedado na Blair House, um anexo da Casa Branca.

“Nos hospedaremos na Blair House. É uma honraria concedida a pouquíssimos Chefes de Estado”, disse, adicionando ainda que agradece o governo norte-americano pelo “carinho que nos está sendo dado”.

Pelo visto ninguém avisou Bolsonaro que a Blair House funciona como hotel oficial de chefes de Estado no país de Trump. Lula, Dilma e FHC já ficaram hospedados por lá.

Apaixonados e subservientes

Na segunda-feira (18), no discurso que marcou a assinatura do acordo que praticamente entrega a Base de Alcântara, no Maranhão, para os Estados Unidos, Paulo Guedes, o “superministro da Economia”, fez declarações de amor aos norte-americanos.

“O presidente ama a América e eu amo a América (…) Eu estudei aqui. Amo a Disney, Coca-Cola, jeans”, disse.

Na verdade, nem era preciso tanto, já que, no mesmo discurso, demonstrou toda sua paixão ao oferecer riquezas brasileiras.

“Estamos abertos para negócios. Se vocês forem lá podem comprar várias coisas, podem comprar imóveis. Nós estamos vendendo. Sexta-feira passada nós vendemos 12 aeroportos. Daqui três a quatro meses nós vamos vender petróleo, o pré-sal. Estamos abertos para investimentos privados”.

Aí é para casar!

Súplicas. Mas, se não der, tudo bem

Já nesta terça-feira (19), Guedes, o apaixonado, praticamente implorou para que Donald Trump deixasse o Brasil entrar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). A paixão é tão grande, no entanto, que, caso os EUA recusem, “tudo bem”.

“Por favor, deixem-nos entrar na OCDE. Os EUA são a única barreira para isso. Mas se não der, tudo bem, sem problema. Vamos em frente”.

Vamos…

Malditos imigrantes

Na noite de segunda-feira (18), em entrevista à Fox News, emissora conhecida por sua linha editorial inclinada à extrema-direita, Bolsonaro saiu em defesa da política migratória encampada por Trump como se ele fizesse parte do governo norte-americano.

Ele chegou a defender a construção de um muro entre os EUA e o México, que em nada envolve o Brasil e, seguindo seu filho, o do boné, ainda disparou: “Imigrantes, em sua maioria, não têm boas intenções”.

Alguém precisa avisar o presidente que ele faz parte de uma família, como tantas outras, de imigrantes italianos que vieram ao Brasil para tentar uma vida nova.

Ou será a família Bolsonaro má intencionada?

Visita “secreta” à agência de espionagem

O ex-juiz Sérgio Moro, naturalmente, não passou despercebido na viagem de vira-latas. Um dos precursores da escola norte-americana do lawfare no Brasil, o ministro da Justiça fez uma visita “secreta” à CIA, uma das maiores agências de inteligência do mundo, acompanhado de Bolsonaro.

O conteúdo do encontro com os agentes secretos não foi revelado. Mas o fato é que nunca um ministro brasileiro pisou no prédio da agência norte-americana. Agência essa que é especialista em espionar outros governos.

“Essa passagem pela CIA é mais uma evidência do despreparo e deslumbramento de integrantes do governo brasileiro. Soa como paixão por coisas hollywoodianas”, disse o jornalista Kennedy Alencar.

Teria Moro ido à CIA para ficar a par de sua próxima missão?

Dados from Brazil, com carinho

O ex-juiz de Curitiba não parou por aí. Com seu inglês invejável, Moro almoçou com representantes do FBI para firmar mais um daqueles “acordos”: uma parceria que prevê trocas de informações biométricas dos cidadãos de ambos os países entre os norte-americanos e a Polícia Federal Brasileira.

Ou seja: o FBI terá acesso à base de dados da Polícia Federal.

Grande dia!

Olha, eu sou militar!

Se desta vez Jair Bolsonaro não prestou continência à bandeira norte-americana, ele encontrou um jeito, ao longo da viagem, de mostrar seu lado militar.

No encontro desta terça-feira (19) com Donald Trump, o capitão da reserva decidiu investir em um look inusitado: terno e coturno.

Será que o Trump reparou?

Intercontinental

Ao finalizar sua viagem, Bolsonaro brindou os brasileiros, no Twitter, com mais uma aula de submissão.

“Deixamos a América com a sensação de dever cumprido”.

Estaria o presidente saindo dos Estados Unidos para ir à África ou à Europa? Não, ele retornou ao Brasil que, diga-se de passagem, também fica na América.

Taoquei?


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