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31 de julho de 2018, 16h07

Vinícius Wu: Bolsonaro no Roda Viva, segundo seus próprios eleitores

“Chamar Bolsonaro de burro e olhar com desprezo e arrogância seus seguidores não contribuem em nada para a reflexão sobre o futuro da política no país”, diz historiador

Foto: Reprodução/TV Cultura

Por Vinícius Wu*

A participação de Bolsonaro no programa Roda Viva movimentou o debate público sobre as eleições na noite da última segunda-feira (30). Enquanto parte da intelectualidade progressista se divertia nas redes sociais com os escorregões e a confusa argumentação do capitão, a maioria de seus potenciais eleitores alternava momentos de entusiasmo, solidariedade (diante dos “ataques” que seu candidato recebeu dos entrevistadores) e certa preocupação frente à sua dificuldade em apresentar propostas. Pelo menos, foi esta a impressão que pude recolher ao acompanhar o debate por meio de diferentes grupos de WhatsApp formados por apoiadores do candidato do PSL.

Nos grupos de discussão que acompanhei, a principal interpretação foi a de que Bolsonaro, novamente, era vítima dos “ataques” que a esquerda e a imprensa costumam fazer ao candidato. Segundo esta interpretação, “jornalistas tendenciosos” se esforçam para desestabiliza-lo e tirar proveito de eventuais “erros” que o “mito” venha a cometer em entrevistas ou debates. A ideia da vitimização, portanto, encontrou bastante eco entre os simpatizantes que acompanharam a entrevista. Outro ponto importante foi a percepção de que os entrevistadores “não deixaram Bolsonaro apresentar suas ideias”. Sim, ao contrário do que o mundo ilustrado acredita, seus eleitores não chegaram à conclusão de que Bolsonaro é um idiota sem propostas e sem noção do que vai fazer na Presidência. O que muitos viram, na verdade, foi uma interdição proposital

do debate, patrocinada pela “imprensa”. Alguns participantes dos grupos que acompanhei até chegaram a reconhecer certa fragilidade em sua argumentação e manifestaram preocupação quanto a isso, mas não ao ponto de mudarem seu voto. Para estes, o fato de não ter tanto preparo é compensado por sua “atitude”. E o que Brasil precisa, neste momento, para eles é exatamente “atitude”. Ou seja, a maioria do eleitorado potencial de Bolsonaro não está preocupada com seu programa de governo e suas ideias, mas com sua performance. Seu apoio não está vinculado ao que ele defende, mas ao que representa. O debate parece ter mostrado, mais uma vez, que este aspecto é fundamental para se compreender o comportamento desta parcela do eleitorado.

Parte da intelectualidade progressista prefere fingir que Bolsonaro não existe, apesar de estarmos a poucos meses das eleições. Sua principal resposta aos elevados percentuais de intenção de voto em Bolsonaro é a mera desqualificação. Não busca entender o fenômeno por trás do personagem e tende a desconsiderar, inclusive, a proximidade entre parte do eleitorado de Bolsonaro e do próprio Lula, atestado por diferentes institutos de pesquisa. Como não tem contato com os mais pobres e sua realidade social, esta parcela da intelectualidade prefere acreditar que Bolsonaro “vai derreter” e não chegará ao segundo turno em hipótese alguma. E para isso se baseia em um misto de apego aos resultados eleitorais anteriores, desprezo às pesquisas mais recentes e fé.

Bolsonaro, claro, pode perder fôlego com o início da campanha eleitoral e não ir ao segundo turno. Óbvio que esta é uma possibilidade. Ocorre é que mesmo que venha a “derreter”, Bolsonaro já terá influenciado fortemente estas eleições. Trata-se, sim, de um fenômeno político novo e interessa refletir se veio pra ficar ou não, se vai manter-se vivo após 2018, se pode vir a encontrar um novo e mais consistente líder. Chamar Bolsonaro de burro e olhar com desprezo e arrogância seus seguidores não contribui em nada para a reflexão sobre o futuro da política no país.

*Vinícius Wu é bacharel em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

 


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