Urbanidades

05 de novembro de 2014, 14h20

Por que saímos às ruas?

Passada uma semana do segundo turno da eleição de 2014 um tema parece dominar as conversas: por que saímos às ruas no início do inverno de 2013? Os radicais de direita dirão que não foi para reeleger Dilma Rousseff. A maioria dos brasileiros dirá que não foi para eleger Aécio Neves. Os cariocas dirão que não foi para que Sergio Cabral fizesse seu sucessor e os paulistas dirão que não era para reeleger Geraldo Alckmin. Então saímos às ruas para que mesmo?

Passada uma semana do segundo turno da eleição de 2014 um tema parece dominar as conversas: por que saímos às ruas no início do inverno de 2013? Os radicais de direita dirão que não foi para reeleger Dilma Rousseff. A maioria dos brasileiros dirá que não foi para eleger Aécio Neves. Os cariocas dirão que não foi para que Sergio Cabral fizesse seu sucessor e os paulistas dirão que não era para reeleger Geraldo Alckmin. Então saímos às ruas para que mesmo?

Gastei quase o ano todo buscando respostas na biblioteca, um lugar mágico onde a sabedoria acumulada está acessível sem filtros algorítmicos da internet, este espelho mágico cínico que só responde aquilo que eu já sei. E o que eu desconfiava mas ainda não sabia era que o Brasil urbano tem uma longa tradição de protestos de rua. Saímos às ruas em 1879, 1904, 1909, 1922, 1930, 1935, 1947, 1956, 1963, 1978, 1984, 1991 e muitas, muitas outras vezes. O mito do brasileiro despolitizado e acomodado, difundido pela elite governante, não se sustenta.

Importante então é ver o que une tantas revoltas e tantos protestos, do tenentismo aos operários do ABC, da revolta da vacina no Rio ao quebra-bondes de Salvador. Lendo o máximo possível sobre todas estas revoltas percebo que o brasileiro sai às ruas quando algo ameaça os acordos sobre os quais equilibra a sua rotina. Em 1904 a prefeitura do Rio de Janeiro declarou guerra aos moradores dos cortiços sem nenhuma previsão de relocação para estas 3mil pessoas, exceto o cemitério para algumas dezenas. Em meio a uma disputa entre Light e os Guinle, a população de São Paulo ficou revoltada com o monopólio e tomou as ruas em 1909. Em 1930 foi a vez dos Soteropolitanos quebrarem dois terços da frota de bondes da cidade em protesto contra aumentos abusivos nos preços. Estas revoltas ligadas a questões de mobilidade trazem luz a um problema secular das cidades brasileiras: a dramática distância entre as oportunidades de moradia e as oportunidades de trabalho. Excludente por definição, a cidade brasileira se equilibra em um tripé duplo invertido: de um lado propriedade da terra, alguma infraestrutura e segurança pela exclusão; do outro lado posse sem propriedade, nenhuma infraestrutura e violência pela ausência do Estado. Ligando as duas pontas sempre houve um transporte precário.

Interessante perceber que os brasileiros saíram à rua em massa toda vez que alguma coluna deste tripé duplo foi ameaçada pelas transformações em curso. Na revolta da vacina foi a posse (dos cortiços e barracos) sem propriedade que levou as pessoas a se revoltarem contra a expulsão sumária (sem indenização dado que não tinham registro efetivo dos imóveis) somada à presença repressora do Estado “vacinador”. Outras tantas vezes foi a precariedade do sistema de transportes que levou as pessoas aos protestos. E algumas vezes foi a classe média quem tomou as ruas diante da ameaça de perda de algumas das suas exclusividades. Lembramos muito as defesas da família e da religião nas marchas de 1964 e nos esquecemos da defesa da propriedade, pilar fundamental deste tripé do lado mais rico.

Então, por que saímos às ruas em 2013 mesmo? Um ano e uma eleição depois é razoável perceber que as transformações induzidas pelos 12 anos de governo Lula/Dilma certamente fizeram balançar este tripé. Pelo lado dos mais ricos o aumento consistente dos salários ameaça a rotina familiar pela dificuldade de pagar pelo trabalho doméstico, antes tão barato. Uma vez que o machismo reinante impede metade da população de lavar um copo ou pôr uma pizza no forno, trata-se de uma transformação significativa e ainda pouco estudada. Ao mesmo tempo, a exclusão que antes funcionava simplesmente pela distância também ficou mais cara, basta ver o discurso preconceituoso a respeito dos novos usuários de restaurantes, shopping centers e aeroportos.

Pelo lado dos mais pobres o mesmo crescimento com distribuição de renda que encheu a geladeira de comida e a sala de eletrônicos criou uma inflação imobiliária que forçou o proletariado urbano a se mudar para mais longe. Isto com as ruas comportando o dobro de carros, mas o mesmo número de ônibus e metrô significa o triplo de tempo gasto no deslocamento entre a casa e o trabalho. Em resumo, a pluralidade de causas vistas nos protestos de 2013 tem suas raízes na diversidade das transformações socioeconômicas das últimas décadas. Some-se a isto o fato de que os governos Lula e Dilma, responsáveis por significativas mudanças na direção das políticas públicas não mudaram a forma de fazer política. O grito anticorrupção ganhou força exatamente por percebermos que o governo do PT operava com os mesmos meios, apesar dos fins serem distintos.

No calor dos protestos escrevi que nós, à esquerda, tínhamos três grandes lacunas de propostas para responder ao grito das ruas: ambientalismo, segurança e melhoria dos espaços públicos e da mobilidade urbana. Isto porque acredito que tanto a corrupção quanto a radicalização midiática (resultado da fidelização como estratégia de sobrevivência econômica) só podem ser resolvidas com um judiciário mais ágil e menos formalista.

Voltando às três grandes pautas: receio que a questão da segurança pública esteja totalmente dominada pelo discurso violento da bancada da bala e que teremos muita dificuldade em propor qualquer alternativa. Restam a questão ambiental e a questão urbana.

Se o ambientalismo foi originalmente a bandeira de Marina Silva, sua virada conservadora abriu mão desta questão, que continua flutuando no éter da política nacional. O primeiro que pegar é dono (vejam a oportunidade perdida pelo PSDB aqui). E no que tange a questão urbana, a esquerda finalmente tem na administração de Fernando Haddad em São Paulo uma proposta tão forte quanto foram os orçamentos participativos nos anos 90. Juntas, a questão urbana e a questão ambiental nos trazem a possibilidade de transformar o debate e resgatar uma agenda propositiva que tanta falta fez nos últimos meses. Lembro ainda que na periferia das metrópoles brasileiras a vulnerabilidade social e a vulnerabilidade ambiental estão sempre sobrepostas.

Espero então que o segundo governo Dilma entenda que o desafio da mobilidade e da infraestrutura não pode escolher entre uma das duas vulnerabilidades, precisa atacar ao mesmo tempo as duas. Foi por isso que os brasileiros saíram às ruas em 2013, e vão sair de novo assim que for necessário.

Foto: Tomaz Silva/ABr

Você pode fazer o jornalismo da Fórum ser cada vez melhor

A Fórum nunca foi tão lida como atualmente. Ao mesmo tempo nunca publicou tanto conteúdo original e trabalhou com tantos colaboradores e colunistas. Ou seja, nossos recordes mensais de audiência são frutos de um enorme esforço para fazer um jornalismo posicionado a favor dos direitos, da democracia e dos movimentos sociais, mas que não seja panfletário e de baixa qualidade. Prezamos nossa credibilidade. Mesmo com todo esse sucesso não estamos satisfeitos.

Queremos melhorar nossa qualidade editorial e alcançar cada vez mais gente. Para isso precisamos de um número maior de sócios, que é a forma que encontramos para bancar parte do nosso projeto. Sócios já recebem uma newsletter exclusiva todas as manhãs e em julho terão uma área exclusiva.

Fique sócio e faça parte desta caminhada para que ela se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie a Fórum