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14 de novembro de 2016, 16h43

Professores de Marrocos passam mal durante greve de fome pela educação

Após descumprimento do contrato de empregabilidade por parte do governo de Marrocos, professores ocuparam às ruas.

Após descumprimento do contrato de empregabilidade por parte do governo de Marrocos, professores ocuparam às ruas. Cerca de 140 passaram mal e foram para o hospital. Por Felipe Sakamoto Próxima à entrada da Praça Jemma El Fna, ponto turístico mais conhecido da cidade de Marrakesh, localizado em Marrocos, encontra-se um grupo formado por homens e mulheres de jalecos brancos que estão ocupando as laterais de um prédio próximo ao banco Post Maroc. Eles montaram uma tenda improvisada de plástico para se proteger da chuva e estão dormindo sob papelões e alguns cobertores. “      Lutamos pela integração”, gritam os professores de Sociologia,...

Após descumprimento do contrato de empregabilidade por parte do governo de Marrocos, professores ocuparam às ruas. Cerca de 140 passaram mal e foram para o hospital.

Por Felipe Sakamoto

Próxima à entrada da Praça Jemma El Fna, ponto turístico mais conhecido da cidade de Marrakesh, localizado em Marrocos, encontra-se um grupo formado por homens e mulheres de jalecos brancos que estão ocupando as laterais de um prédio próximo ao banco Post Maroc. Eles montaram uma tenda improvisada de plástico para se proteger da chuva e estão dormindo sob papelões e alguns cobertores. “      Lutamos pela integração”, gritam os professores de Sociologia, Filosofia e de outras matérias há mais de duas semanas para conseguir uma resposta do Ministério da Educação Nacional. Dos 140 professores que participavam da ocupação e foram para o hospital, 8 estão em estado de risco.

Em 2013, o governo de Marrocos, o Ministério da Educação e o setor privado assinaram um acordo e lançaram o programa de educação chamado como Programa Governamental de Formação de 10.000 de Quadros Pedagógicos (Cadres Pédagogiques, em tradução livre), ou PPG. A iniciativa iria fornecer um treinamento de um ano para 10.000 estudantes da pós-graduação e empregá-los para o setor privado. Porém, de acordo com o professor e tradutor Abdelah Belbida, não foi isso que aconteceu.

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O contrato assinado pelos professores declara que “O Chefe de Governo enfatiza a importância do treinamento para ser considerada a garantia da integração ao mercado de trabalho”, é exigido aprovação no exame de qualificação após o treinamento, e que os professores em treino receberiam uma bolsa de 1000 dirhams (moeda marroquina) até a conclusão do curso. Foram investidos 161 milhões de dirhams nos últimos três anos, de acordo com o governo marroquino. Contudo, em julho de 2015, o Ministério da Educação lançou dois decretos, o primeiro para reduzir a bolsa de treinamento pela metade, e o seguinte para separar os professores treinados dos que serão recrutados, diminuindo o número de empregos.

A partir de abril de 2016, centenas de professores do PPG saíram às ruas em Rabat, Tangêr e Fez, e agora em Marrakesh, divulgando a campanha Zero Zebel (Sem lixo, em tradução livre) que tem como objetivo conscientizar as pessoas de Marrocos sobre a condição dos professores.

“Ensinar é a profissão que cria mentes e personalidade”, conta a professora Wafaa Kourchiyne. A jovem de 22 anos tem uma estatura baixa e usa o véu para cobrir os cabelos. Seu olhar é confiante. Desde criança sonhou em ser professora. Para ela, a educação é o segredo para o desenvolvimento humano e também uma maneira de tornar o mundo melhor. A pequena vila marroquina onde vive, chamada Mnasira, não possui educação, por esse motivo que ela escolheu ser professora, para conseguir mudar essa realidade.

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A qualidade da educação também é pauta da manifestação. De acordo com a professora Fatima Lamrabel, são 144 estudantes por sala de aula e quatro alunos por cadeira. “Nós queremos que a educação seja a prioridade”, conta Wajaa. A assessoria do Ministério da Educação não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.

Uma grade separa os manifestantes do restante dos pedestres.  Wafaa afirma que os policiais dizem aos turistas que o ato não tem relação com a Conferência Mundial de Mudanças Climáticas da ONU (COP 22) para que assim não mostrem os problemas da região. Em entrevista, um policial não identificado, nesta sexta-feira, afirmou que é apenas um protesto de professores. No mesmo dia, o movimento fez cartazes em inglês para tornar o movimento mais abrangente com os dizeres “Nossa escola pública não está à venda”, “Estamos em greve até termos de volta a nossa dignidade e direitos”, dentre outras frases.

Em decisão consensual no dia 10 de novembro, o movimento iniciou a greve de fome que permanecerá por quatro dias. Nesta manhã, Fátima disse que a única forma de resistir seria dormir por todos os dias. O protesto não tinha a mesma intensidade como nos últimos três dias. Duas pessoas passaram mal e foram para o hospital. Wajaa não passou a noite com o grupo porque estava muito cansada. Eles resistem. Já haviam feito outra greve de fome por dois dias em Rabat.

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O protesto pacífico em Marrakesh não sofreu repressão policial como em Casablanca e Rabat, mas os manifestantes afirmam que os policiais destroem todas as noites suas tendas. Em 13 de agosto de 2016, a polícia atacou violentamente outra marcha na cidade de Tânger simplesmente porque os graduados do PPG queimaram cópias de seu diplomata na Praça Omam.

Wafaa afirmava que eles não sairão do lugar até o governo de Abdelilah Benkirane se pronunciar sobre a questão. Eles permanecem próximos à praça. E toda vez que uma câmera se aproxima realizam o símbolo de um V com os dedos, que no Brasil significa paz, mas para eles simboliza vitória. Luta.

O símbolo de V com os dedos simboliza vitória. Eles somente sairão de lá quando algum representante do governo dar explicações aos professores e professoras de Marrocos. O Ministro da Educação não respondeu até o fechamento desta reportagem.

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Foto: Felipe Sakamoto

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