Valerio Arcary

24 de junho de 2019, 17h56

Qual é a régua para fazer uma avaliação da relação social de forças?

Valerio Arcary: “Ainda que na defensiva desde 2016, a classe trabalhadora não foi esmagada, não ocorreu uma derrota histórica”

Foto: Nelson Jr./ ASICS/TSE

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A gente tropeça sempre nas pedras pequenas, porque as grandes a gente logo enxerga (Sabedoria popular japonesa)

A esquerda brasileira está dividida sobre qual deve ser a melhor tática para enfrentar o governo Bolsonaro. São três as posições em disputa. A esquerda moderada defende a tática quietista. A ultra-esquerda defende a tática da ofensiva permanente. A esquerda radical defende a tática do desgaste, ou seja, a frente única defensiva.

Essas posições não têm influência equivalente, evidentemente. Mas, na luta de ideias, a força política não é a única que conta. A força dos argumentos deve ser, também, considerada. A força dos argumentos deve repousar no estudo exaustivo da realidade. Se a maioria da esquerda abraçar uma tática errada, essa escolha terá consequências graves.

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As avaliações de conjuntura distintas expressam diferentes interesses e pressões sociais, a localização de espaço tática, o ambiente ideológico, as rivalidades estratégicas e até as ambições políticas.

As três táticas fazem, igualmente, parte do repertório histórico da esquerda marxista. Nenhuma delas é errada em si. Uma tática quietista diante de um governo desmoralizado é uma capitulação. Uma tática de ofensiva diante de um governo forte é um suicídio.

A tática política é uma arte. A avaliação da realidade é ciência. Cada uma das três táticas repousa em uma avaliação da conjuntura. Mas as três não podem estar, ao mesmo tempo, certas. Ou as forças sociais e políticas que sustentam Bolsonaro desde as eleições estão, essencialmente, intactas, ou se debilitaram tanto, que é possível uma campanha de massas pelo “Fora Bolsonaro”; finalmente, a hipótese intermediária: o governo se enfraqueceu, mas ainda estamos na defensiva.

Qual é a régua para fazermos a análise da relação social de forças? Quais são as variáveis que devemos considerar e qual é o peso relativo da interação dos diferentes fatores, os objetivos e os subjetivos?

Estamos, portanto, diante de uma questão de método. Análises de conjuntura têm como objetivo descobrir qual é o melhor caminho a seguir. Analisar é separar partes de um todo para atribuir sentido à sequência de acontecimentos, aparentemente, caóticos. A análise deve considerar a evolução da situação econômico-social. Essa dimensão do exercício de interpretação da realidade remete à infraestrutura da sociedade.

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Mas uma análise marxista tem como centro o estudo da luta social, ou seja, as posições respectivas das classes sociais em luta, ou a estrutura da sociedade, para identificar quem obteve vantagens relativas de força, no contexto investigado. O objetivo é identificar qual é, em cada conjuntura, a oscilação da relação social de forças.

Nessa pesquisa a análise deve avaliar as ações e reações das organizações que representam os interesses em conflito. Em primeiro lugar, precisa ponderar as iniciativas do governo – e as divisões que existam no seu interior – e suas relações com as outras instituições do Estado, assim como as reações das diferentes organizações que fazem oposição ao governo, ou seja, a luta política na superestrutura.

Das conclusões da análise resultam caracterizações. Em função delas se decide a política, ou linha geral. Deve haver coerência entre análise, caracterização e política. Não faz sentido afirmar caracterizações que não estejam, solidamente, construídas a partir de análises pacientes e rigorosas dos acontecimentos. Não é tampouco sério defender políticas que não estejam fundamentadas em caracterizações demonstradas.

Nos últimos trinta dias aconteceu uma mudança favorável na conjuntura política, ainda que nos marcos de uma situação mais geral que permaneceu reacionária. Esta avaliação obedece a um modelo teórico no qual o balanço da interação entre as condições objetivas e subjetivas, hierarquiza a dinâmica sobre a estrutura. A dinâmica é uma tendência. Ela enfrenta freios, obstáculos, limites, contratendências.

Na avaliação da relação social de forças, em cada nação, devemos considerar os fatores mais estruturais, duráveis, constantes, de longa duração, que explicam o contexto da luta de classes. Por exemplo, o grau de urbanização e industrialização, o peso social dos trabalhadores sobre o conjunto da sociedade, o padrão de desigualdade social, a gravidade das condições de opressão, a importância das diferenças regionais, o nível médio de escolaridade, o número de votos dos partidos de esquerda, o número de filiados nos sindicatos, o alcance da mídia de esquerda, o aumento do desemprego e da pobreza etc.

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Mas, também, variáveis objetivas mais conjunturais como a quantidade e a composição social da participação nos atos de oposição, a extensão nacional maior dos atos, o número de trabalhadores que pararam no dia nacional de greve etc. São fatores como estes que definem as condições objetivas da luta. Uns são mais estruturais, outros mais conjunturais. O mais importante, no entanto, é ter o sentido da perspectiva ao avaliar as posições respectivas das três classes mais importantes:

(a)Os mais estruturais remetem à história da etapa aberta com o fim da ditadura: uma imensa desigualdade social, absurdamente, contrastante com a renda per capita; um lugar intermediário no mercado mundial, híbrido de semicolônia e submetrópole regional, em contradição com uma inserção dependente no sistema internacional de Estados; a preservação intacta do aparelho repressivo de um Estado repressivo no país mais negro do mundo fora da África; a estabilização do regime democrático-eleitoral em forma presidencialista; e a posição respectiva das três classes mais importantes: uma burguesia muito pequena, mas muito rica; uma gigantesca classe trabalhadora muito jovem e concentrada, e uma classe média em decadência;

(b)A estagnação econômica não foi superada, o que aumenta o perigo de instabilidade social: não saímos da longa recessão dos últimos cinco anos, e o primeiro trimestre foi de contração, comparativamente, a 2018, sem que tenha se elevado o investimento estrangeiro, mas sem que o governo tenha perdido o apoio da classe dominante.

(c)A unidade e o peso político da burguesia brasileira aumentaram depois da acumulação de vitórias que veem, desde 2015/16, da capacidade demonstrada de mobilizar a maioria da classe média, derrubar o governo Dilma Rousseff, aprovar a Lei de Teto dos Gastos, a Lei das Terceirizações e a Reforma Trabalhista. Aumentou a angústia burguesa diante do acidente histórico que foi a eleição de Bolsonaro, e o mal-estar com suas iniciativas mais esdrúxulas (flexibilização do Estatuto do Desarmamento, entre outras), mas um balanço político do mandato se decidirá em função das circunstâncias da aprovação ou não da reforma de Previdência;

(d)A classe média girou à direita depois de 2014 e, amplos setores, deslocaram-se para a extrema direita em 2018. Esta dinâmica não foi invertida, por enquanto, mas há sinalização, pelos atritos dos seis primeiros meses, de deslocamentos subterrâneos, em função das pautas reacionárias mais irritativas;

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(e)Bolsonaro viveu seus primeiros seis meses sob forte pressão burguesa exigindo um enquadramento nos limites do regime. As recentes mudanças ministeriais, e o apoio da presidência aos atos da extrema direita em 26 de maio e 30 de junho indicam o perigo de uma reação bonapartista. A unidade granítica da classe dominante no apoio à reforma da Previdência favorece o governo, mas não ilude a instabilidade interna da coalizão de extrema direita. Existem contradições entre as quatro alas do governo (a militar, a financeira, a judicial e a bolsonarista, embora esta última, ideologicamente, neofascista, seja a hegemônica). Existem conflitos entre o governo e os partidos que detêm domínio no Congresso Nacional, e fazem, historicamente, a representação institucional burguesa. Existem, por último, mas não menos importante, tensões entre o governo e o STF. Entretanto, o governo ainda se beneficia de uma expectativa majoritária no povo, e apoio intenso de um terço da população.

Isto posto há uma diferença entre a situação social da classe, e a posição política da classe trabalhadora, e das forças sociais aliadas: a juventude, o movimento negro, de mulheres, LGBT, ambientalista, cultural. Ainda que na defensiva desde 2016, a classe trabalhadora não foi esmagada, não ocorreu uma derrota histórica. A derrota eleitoral de 2019 foi devastadora. Mas a derrota não abriu uma etapa de desmoralização de prazo indefinido.

A posição que a classe ocupa está sempre em movimento e remete aos fatores subjetivos: (a) qual é o grau de exasperação dos trabalhadores, da juventude, dos movimentos populares? (b) qual é o nível de atividade sindical e política a que estão dispostos? (c) qual é o estado de ânimo, o humor, a disposição de luta, o nível de confiança? (d) qual é o grau de resposta às iniciativas da oposição? (e) qual é o grau de confiança que têm nas diferentes direções da oposição?

Estes elementos subjetivos evoluíram, positivamente, nos últimos seis meses. Por isso foi possível realizar três grandes mobilizações no último mês, nos dias 15 e 30 de maio e na greve nacional de 14 de junho.

Elas estabeleceram o signo de uma nova conjuntura.

Mas ainda não saímos da defensiva.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.