A crise é estética: a cafonice da fila no Dia dos Namorados – Por Henrique Rodrigues

A galera progress faz diferente. Toma um Malbec no conforto do cafofo, sem risco de engolir uma cepa viral junto com a garfada de moqueca fake. Meia e chinelão, sem impedimentos para qualquer eventual saliência incontrolável

Já tem um tempo que venho falando que a crise não é só política, constitucional e civilizacional. A crise é, sobretudo, estética.

Várias pessoas postando nas redes as filas quilométricas em frente aos restaurantes de uma rede bolsonarista famosa na noite do Dia dos Namorados. Umas aglomerações humanas semiorganizadas pelas calçadas de cidades brasileiras das mais variadas regiões.

Meu camarada, qual é o barato de levar a tchuka pra comer bobó de camarão fast food e ficar na friagem duas horas de pé?

Diz aqui pro tio: que sedução bolsonárica é essa que põe a tua cremosa pra marchar como uma recruta sôfrega durante horas, no leito carroçável, pra comer um rango meia-bomba, cheio de pressa e com a hostess berrando na porta “próóóóximo”?

A galera progress faz diferente. Toma aquele Malbec no conforto do cafofo, sem risco de engolir uma cepa viral junto com a garfada de moqueca fake. Come aquele petisco das melhores casas do ramo de forma caseira, jogando desastradamente uma pataca de molho pesto no pijama, quase em cima do mamilo (removido com uma lambida rápida e discreta, longe dos olhos da(o) conge).

Meia e chinelão, sem impedimentos para qualquer eventual saliência incontrolável. Só dar aquela escovada com Colgate Whitenning pra remover o fiapo do pastrami e o talinho do tomilho que jazem no molar superior e canino inferior, respectivamente, e o céu é o limite para a lascívia funfante.

Bichão, o casal que passa frio e inflama as varizes de pé por duas horas pra comer camarãozinho murcho do Coco Bambu já morreu.

A crise é, sim, estética… Acima de tudo.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Henrique Rodrigues

Jornalista e professor de Literatura Brasileira.

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