A educação necrófila: a opressão sobre professores e alunos – Por Raphael Fagundes

Os oprimidos precisam ter formação suficiente para servir aos opressores. Precisam se tornar um “banco” onde os opressores “depositam” conhecimento necessário para se tornarem objetos produtivos

Paulo Freire mostra que os opressores têm uma tendência sádica de transformar os oprimidos em objetos, negá-los a humanização de modo que não possam ser mais do que ferramentas úteis para garantir a manutenção da estrutura social.

O oprimido não pode ser educado para ir além daquilo para que ele serve. Ele tem um limite o qual não pode ultrapassar. “Os oprimidos, como objetos, como quase “coisas”, não têm finalidades. As suas, são as finalidades que lhes prescrevem os opressores.[1] Esse procedimento dos opressores parte de uma “visão necrófila do mundo. Por isto é que o seu amor é um amor às avessas – um amor à morte e não à vida”.[2]

Os oprimidos precisam ter formação suficiente para servir aos opressores. Precisam se tornar um “banco” onde os opressores “depositam” conhecimento necessário para se tornarem objetos produtivos. Sem tal conhecimento, são desprezados.

Os oprimidos não têm que fazer do mundo um lugar melhor para si, mas para os que os oprimem. “As massas populares não têm que, autenticamente, ‘ad-mirar’ o mundo, denunciá-lo, questioná-lo, transformá-lo para a sua humanização, mas adaptar-se à realidade que serve ao dominador”.[3]

Por isso que para Theodore Schultz, teórico do capital humano, “educar significa aperfeiçoar uma pessoa, moral e mentalmente, de maneira a torná-la suscetível de escolhas individuais e sociais, e capaz de agir em consonância; significa prepará-la para uma profissão, por meio de instrução sistemática…”.[4] Para Schultz, educar é o investimento mais lucrativo de um sistema, pois produz seres produtivos e com salários maiores, ou seja, consumidores sofisticados. “As escolas podem ser consideradas empresas especializadas em ‘produzir’ instrução”.[5] Elas acomodam as pessoas à sociedade como é, sem intenção de melhorá-la, a não ser que seja para engrandecer ainda mais o opressor.

É um ponto de vista que enxerga a educação como uma ação conservadora. Hannah Arendt afirma que se não tivesse a educação o mundo estaria em constante mudança, desprezando as conquistas dos que se tornaram adultos. É necessário manter a ordem, caso contrário a sociedade entraria em colapso. “Exatamente”, explica a filósofa, que pouco sabe sobre educação, “em benefício daquilo que é novo e revolucionário em cada criança é que a educação precisa ser conservadora”.[6]

Ao observar esse projeto conservador da educação, Bourdieu e Passeron concluem que “toda ação pedagógica é objetivamente uma violência simbólica enquanto imposição, por um poder arbitrário, de um arbitrário cultural”.[7] O aluno vai à escola para aprender que o conhecimento fornecido por sua realidade, sua cultura, que todas as coisas que aprendeu com a sua comunidade etc. são inúteis perante o saber institucional. Somente este será útil para arranjar um bom emprego, que cairá em exames, que será exigido em entrevistas etc.

Assim surgem as histórias de superação. Um indivíduo conseguiu ser médico, engenheiro etc., mesmo com as diversidades, pobreza, disfunção familiar etc.

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Os poderosos precisam forjar uma falsa caridade. Afirmam fornecer educação para as pessoas subirem na vida, desde que se aprenda o que eles querem, independentemente das condições sociais.

Voltemos ao patriarca de nossa educação, ferrenho combatente contra este modelo conservador… Ser em nosso sistema “é ter como classe que tem […] Se os outros – ‘esses invejosos’ – não têm, é porque são incapazes e preguiçosos, a que juntam ainda um injustificável mal-agradecimento a seus ‘gestos generosos'”.[8]

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Hoje, a essa “tendência sádica” de desumanizar as pessoas e transformá-las em meros objetos, soma-se uma outra visão de mundo necrófila que surge em meio à pandemia de Covid-19: 40 alunos em uma sala de aula de 48 metros quadrados separados por um metro de distância para que o processo de desumanização continue a todo custo.

Na propaganda de retorno às aulas da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, uma foto mostra alunos de máscaras separados por barreiras de acrílico. Uma imagem que não condiz com uma realidade de escolas sem ventilação, excesso de contingente discente e de pressão sobre os profissionais da educação.

A prefeitura está enganando os responsáveis e a população de um modo geral. Muitos diretores não querem ter trabalho com o sistema de rodízio e preferem entupir as salas como se estivéssemos em situação normal. Os pais que têm grandes dificuldades em ficar com seus filhos, de dar assistência aos mesmos, acreditam que tudo está sendo feito de forma segura, mas não está.

Em meio à volta do aumento de casos por conta da nova variante (Delta), inclusive com o aumento de internações de crianças entre 0 e 9 anos[9], o Rio de Janeiro vem promovendo aglomerações nas escolas, antes mesmo de professores e alunos estarem vacinados.

Os professores que fazem greve pela vacina são pressionados pela direção das escolas que se recusam a reconhecer o movimento e dá falta normal na folha de ponto. Muitos professores grevistas ficaram sem receber a primeira metade do décimo terceiro salário e ainda foram descontados no salário mensal.

Paulo Freire ficaria chocado em ver como a necrofilia poderia ser duplicada nas escolas. É possível ser mais cruel do que imaginava. Não basta apenas alienar o aluno de sua realidade, obrigando-o a aprender algo que tem como objetivo esquecer o seu mundo, prometendo, no máximo, arrancá-lo dali, caso se torne um funcionário exemplar, uma máquina exemplar. É preciso, também, fazê-lo correr riscos no processo de se tornar objeto.

[1] FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Brasiliense: São Paulo, 1970, p. 47.

2 Ibidem.

3 Id., p. 123.

4 SCHULTZ, T. O valor econômico da educação. Rio de Janeiro: Zahar, 1973, p. 18.

5 Id., p. 19.

6 ARENDT, H. A crise da educação. In: _______. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 243.

7  BOURDIEU, P. e PASSERON, J-C. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. 3 ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992, p. 20.

8FREIRE, p. 46.

9 https://www.google.com/amp/s/www.cnnbrasil.com.br/amp/saude/2021/08/02/rj-vive-pior-momento-de-internacoes-para-criancas-ate-9-anos-aponta-pesquisador.


 

 

 

 

 

 

 

 

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Raphael Silva Fagundes

Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

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