Raphael Silva Fagundes

30 de abril de 2020, 23h21

A história do ato de lavar as mãos

Curiosamente, ao longo da história, a prática não estava relacionada com a saúde. Leia na coluna de Raphael Fagundes

Criança lava as mãos em ação do Unicef para conter o coronavírus na África (Foto: Unicef)

O ato de lavar as mãos com sabão tornou-se extremamente recomendável no combate ao Covid-19, já que se trata de um vírus da família dos coronavírus, que são formados basicamente de RNA —material genético “primo” do DNA, porém com apenas uma fita— e uma cápsula de revestimento feita de proteínas e lipídios —nome técnico para gordura.

Mas, curiosamente, ao longo da história, o ato de lavar as mãos não estava relacionado à saúde.

De acordo com Katherine Ashenburg, podemos encontrar na Odisséia de Homero alguns hábitos do cotidiano da Grécia Antiga. No século VIII a. C., um grego precisava se banhar antes de partir para a viagem, e “quando chegasse à casa de seu destino, fosse ela de pessoas estranhas ou de amigos, a etiqueta exigia que, antes de mais nada, lhe fosse oferecida água para lavar as mãos e então um banho”.[1]

Em Roma, Ovídio dizia que era necessário ter uma boa aparência ao se apresentar para outros homens, seria, então, imprescindível manter “as unhas aparadas e limpas”. Sêneca, por sua vez, afirmava que os trabalhadores agrícolas lavavam os braços e pernas todos os dias, mas tomavam banho apenas uma vez por semana. Além disso, provavelmente lavava-se as mãos após as refeições, independente da classe social, já que não se fazia uso de talheres.

Contudo, cabe lembrar, que não havia sabão. Os egípcios o usavam, um utensílio que continha gordura animal e óleos vegetais. Mas em Roma, untava-se a pele com óleo e depois se raspava para tirar a sujeira e o suor. O suor, a sujeira e o óleo raspado do corpo de um gladiador famoso eram vendidos a seus fãs em pequenos frascos de vidro.[2]

Na Idade Média, poucas mudanças ocorreram. Era uma sociedade das aparências, portanto, mais uma vez, o ato de lavar as mãos nada tinha que ver com a saúde. A lavagem das mãos e do rosto, servia para “manter o asseio do que se vê, eliminar a sujeira das partes visíveis”.[3] De acordo com o historiador Georges Vigarello, o objetivo de lavar as mãos era “a decência, antes de ser a higiene”. Alguns diziam até que “o comportamento contrário não seria ‘honesto'”. Além de ser um ato de hospitalidade, como entre os gregos antigos, oferecer água para lavar as mãos era um sinal de polidez e de amizade.

Mas a revolução na higiene só aconteceria no século XIX. Ignaz Semmelweis trabalhava no Hospital Geral de Viena, onde havia uma divisão social das maternidades. Uma ala para atender bem, com médicos e estudantes de medicina, e outra ala para a classe trabalhadora, que recebia o cuidado de parteiras. Mas, por alguma razão, as taxas de mortalidade por febre puerperal (na qual as novas mães morrem após o parto), eram muito baixas na ala da classe trabalhadora. Semmelweis observou que os médicos e seus alunos alternavam entre suas pesquisas com cadáveres e o parto. Recomendou então que os médicos lavassem as mãos se quisessem fazer partos e dissecar cadáveres na mesma tarde. Ridicularizaram Semmelweis e o demitiram.[4]

Mas o médico havia descoberto que um agente infeccioso microscópico era transmitido dos cadáveres para as mães. Seria os primórdios da teoria dos germes. Antes, acreditava-se nos miasmas, ou seja, que doenças como cólera e febre tifóide eram transmitidas pelo cheiro. Somente com cientistas como Robert Koch foi possível identificar as bactérias através do manuseio do mais moderno microscópio da época inventado por Carl Zeiss.[5]

A partir de então a prática de lavar as mãos adquiriu um sentido relacionado à saúde. Lógico que ainda hoje, mãos sujas ainda representam desleixo com a aparência. Contudo, deixamos de apertar as mãos encardidas de uma pessoa também por motivos de higiene. Hoje, chegamos ao álcool gel 70%, que todos o usam, todavia, menos para deixar as mãos limpas do que para matar os germes causadores de moléstias, como o próprio coronavírus.


[1] ASHENBURG, K. Passando a limpo: o banho da Roma antiga até hoje. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008, p. 19.

[2] Id., p. 39.

[3] VIGARELLO, G. O limpo e o sujo: uma história da higiene corporal. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 50.

[4] JOHNSON, S. Como chegamos até aqui: a história das inovações que fizeram a vida moderna possível. Rio de Janeiro: Zahar, 2014, p. 118.

[5] Id., p. 122.


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