Raphael Silva Fagundes

23 de março de 2019, 18h01

A prisão de Temer prova que a corrupção vem desde a ditadura, mas por que puni-la agora?

Raphael Fagundes afirma: “Sabemos que no fim das contas, sem a mobilização popular, o trabalhador será prejudicado e a corrupção não acabará”

Foto: Reprodução/TV Globo

A teoria de vigiar e punir de Foucault é extremamente prática. Nós acordamos e vemos no noticiário as teses do filósofo francês sendo comprovadas de forma tão exata que põe em xeque a fajuta separação entre ciências humanas e ciências exatas.

Não temos mais um carrasco que corta a cabeça do desgraçado condenado à morte, muito menos uma guilhotina. A exibição do corpo dilacerado foi substituída pela ausência do mesmo, que intacto é removido do alcance do olhar civil.

Contudo, a mídia faz o favor de nos lembrar que ele existe. Assim a economia da punição, ou melhor, a lógica do poder apresenta-se foucaultianamente. Os jornais anunciam que Temer ou Sérgio Cabral comeram pão com manteiga e café com leite no café da manhã. “Pezão chegou à unidade no fim da tarde e teve direito à refeição noturna: arroz ou macarrão, feijão, farinha, uma carne, legumes, salada, sobremesa e refresco”, diz o g1. Por que a mídia nos dá essa informação? Para deixar claro que ele não tem mais acesso aos seus bens.

Jornalistas ressaltam que Temer não tem mais o creme de avelã da marca Nutella que tanto gosta. O cidadão ao ouvir isto pensa, “agora vai sentir na pele o que é sofrer”, embora, curiosamente, o que o presidiário come seja o mesmo que ele, ou, talvez, aquele coma até melhor.

Foucault mostra que a nova economia punitiva inaugurada pela modernidade substituiu as dores físicas pela vergonha. A pena deve agir sobre as paixões do condenado, “ele sentirá o que é perder a livre disposição de seus bens, de sua honra, de seu tempo e de seu corpo”. (1)

Isso veio ao mesmo tempo em que a burguesia assume o poder e quando as ilegalidades cometidas ao corpo caem proporcionalmente em relação às ilegalidades cometidas aos bens. A criminalidade moderna é muito mais contra a propriedade que contra a vida da pessoa. A lógica da punição é fruto do que se impõe como meio de produção.

Outra questão é: se Temer é líder de uma organização criminosa que atua há 40 anos, comprova-se que na ditadura militar existia corrupção, inclusive gerenciada por militares, como o fiel escudeiro do golpista, o coronel Lima. Ou seja, os militares não são confiáveis, como quer nos fazer acreditar a direita que assumiu o poder.

Mas por que se resolveu punir agora? Acredito que há um jogo de ilegalidades bem diferente daquele demonstrado por Foucault ao longo do século XVII. À medida em que as reformas buscam aproximar o trabalho formal do informal – um tipo de trabalho sem direitos garantidos que, portanto, se olharmos do ponto de vista do trabalho e não do capital, é ilegal -, reprime-se a ilegalidade que foi sempre permitida. Um jogo recíproco.

Por exemplo. A Lava Jato pune a ilegalidade tradicional, a que vem desde a ditadura militar que envolve corporações e políticos, o que, por sua vez, afeta os grupos aliados a Rodrigo Maia. Em represália, o presidente da Câmara dos Deputados começa a se distanciar da ilegalidade contra o trabalho, representada claramente na reforma da Previdência, que é, por seu turno, defendida pelas forças que estão por trás da Lava Jato. Nem Rodrigo Maia é a favor do trabalhador, nem a Lava Jato quer acabar com a corrupção, trata-se apenas de um jogo recíproco de ilegalidades, um jogo de interesses.

Sabemos que no fim das contas, sem a mobilização popular, o trabalhador será prejudicado e a corrupção não acabará. E a exibição dos corpos que se tornaram invisíveis, mas que vendem muita notícia, tem um papel chave para esconder esse jogo nefasto.

(1)FOUCAULT, M. Vigiar e punir. 42 ed. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 105.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum