quarta-feira, 30 set 2020
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A real sobre a realeza

cara, puxa a cadeira aí e deixa eu te falar a real.

quem colocou na tua cabeça esse desejo obsessivo pela coroa?

já parou pra pensar nisso?

foram os contos de fada?

cara…

rei, rainha…

cê acha isso legal?

cê sabe o que significa ser um rei ou uma rainha, né?

sabe, cara, você sabe.

a realeza, cara, é um lugar de ostentação, futilidade, luxo e luxúria.

mas é, antes de tudo, um lugar de privilégio!

ser um rei ou uma rainha é desejar ter não apenas uma coroa na cabeça, mas um sem número de valetes para lhe fazer as vontades à vontade.

e um gigantesco séquito de súditos bajuladores que lhe abrirão a língua rubra de um tapete e inclinarão os corpos, reverentes, sempre que você passar.

é isso mesmo que você tá desejando, cara?

se não é isso, o quê é que você deseja quando deseja ser um rei ou uma rainha?

ubuntu? rei e rainha?

romantizar o passado do continente africano não pode ser uma armadilha?

não eram sub-humanos os antepassados do continente negro, isso é certo, mas também não eram sobre-humanos.

os reinos e os impérios, foram o que os reinos e os impérios são, em qualquer parte. nem todos os africanos nasciam em famílias reais; portanto, poucos tinham acesso àquelas extravagâncias de joalheiros.

o que você quer dizer quando diz que ser um rei ou uma rainha?

parece mesmo que temos uma tara pelo trono, é o rei do futebol, a rainha das embaixadinhas, o rei do mate, a rainha dos baixinhos, o rei do camarote, a rainha da lambada, do basquete, do axé, das sapatão, da tapioca…

outro dia, um amigo me falou que o rei do império do mali, mansa musa, foi o homem mais rico de toda a história.

dizia isso cheio de júbilo e com os olhos em brilho lânguido.

o amigo falava-me de musa em sussurro, como uma bruxa que conta histórias ao redor de uma fogueira; o feiticeiro de araque tentava me levar para dentro daquele mundo mágico.

que esse ricaço andava por aí com pulsos e pescoço adornados de ouro e diamantes, suas vestes cintilavam, por onde passava, seguido por seu numeroso séquito de soldados, escravos e servos bajuladores, deixava cair migalhas de sua farta bagagem de pedras preciosas, que os miseráveis iam se agachando para apanhar, feito pombos em praças públicas.

eu perguntei: “e como viviam os súditos desse jactante marajá?”

claro que ele deu uma folclorizada, né?

meteu um conto de fadas na parada, criou um reino feliz onde todos viviam em harmonia e graça, comida em abundância, sombra e água fresca; o rio corria ao contrário, os elefantes falavam e musa, veja que maravilha, era um homem bondoso e magnânimo.

fui, então, a uma aldeia indígena e contei prum ianomami o quão interessante era a figura desse biliardário mansa musa e quão invejável era sua riqueza.

o índio continuou a lixar sua zarabatana, ele não viu o menor sentido nessa história toda.

é que o nosso bom e ingênuo selvagem, como diria rousseau, nunca havia lido um conto de fadas.

recorri em socorro ao mestre dos magros, o venerando mestre cafuna.

contei essa mesma história ao fundador do cafunismo e ele me disse, depois de pingar quatro gotas de canabidiol na língua;

“qualquer ser humano que submeta seu semelhante à servidão, para que ele tenha privilégios, é um inimigo e deve ser afastado do convívio coletivo, porque ele almeja parasitar a boa vontade da boa gente”.

agora, todas as vezes que vejo uma dessas famílias reais europeias no noticiário, sinto vontade de estrangulá-los.

sei que há muitas celebridades por aí, aproveitando da farta grana que ganharam honestamente, que vivem seu simulacro de realeza, dessa gente que tem até um valete que lhe derrama sais na banheira e afere a temperatura da água antes da surreal imersão do corpo real.

a única diferença é que o artista trabalha, ensaia, cumpre horário e agenda, se estressa, toma remédio pra dormir e vive cansado.

e nem pode sair por aí sentado em lótus numa liteira, carregado sob os ombros de quatro seres humanos iguais a ele.

quer dizer, desiguais a ele.

não me leve a mal, cara, é que eu desejo um mundo sem servidão e sem parasitas.

para quem ama a liberdade, esse lance de realeza é uma tremenda fuleiragem.

foca na essência das coisas, cara.

palavra da salvação.

Lelê Teles
Lelê Teles
Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.