“A Síntese do Lance”, de João Donato e Jards Macalé, um álbum imprescindível

Um encontro que andava prometido há décadas e que celebra sem nenhum pudor, não só a Bossa Nova, mas seus principais protagonistas

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Uma das surpresas mais agradáveis deste final de ano conturbado fica por conta do álbum “A Síntese do Lance”, feito em parceria com João Donato e Jards Macalé. Na capa, que num primeiro momento pode parecer uma piada gratuita, os dois estão nus, com as partes escondidas por folhagens. Donato, com 87 anos, de boné e Macalé, com 78, de óculos.

A explicação dada por Macalé, deixa tudo parecer óbvio: “Esse nude quer dizer despojamento. Voltamos ao princípio de tudo. Tem uma frase engraçada, a gente nasce nu e vive o resto da vida disfarçado”, brinca.

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O fato é que o álbum soa mais moderno do que nunca ao voltar à sonoridade dos tempos da Bossa Nova, final dos anos 50 começo dos 60, movimento do qual Donato foi precursor e Macalé um fiel seguidor.

A única canção feita em parceria pelos dois é “Côco Táxi”, que abre o álbum. Uma deliciosa melodia com influências caribenhas, marca registrada do som do acreano Donato. Uma das frases musicais de “Côco Táxi” nos remete diretamente a “Lugar Comum”, parceria de Donato com Gilberto Gil do início da década de 70.

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Todas as demais canções são feitas com outros parceiros como Ronaldo Bastos, Joyce, Fraga e Sette.

A composição chave, que dá nome ao álbum é “A Síntese do Lance”, um samba bem no estilo Donato, que já previa desde sempre a batida eletrobossa que virou mania mundo afora nas últimas décadas. A canção, recuperada em rascunhos do autor, é adaptada de um ponto de umbanda e denuncia a leveza de todo o disco: “É no morro sim/ Que se tira uma onda/ É sentado na pedra/ Queimando uma coisa/ Jogando uma ronda.”

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O parceiro na canção é o trombonista Marlon Sette, que também assina os arranjos do álbum e a produção musical, ao lado de Sylvio Fraga e Pepê Monnerat. Por conta disso, a sonoridade, que gira em torno do famoso piano de Donato, é repleta de metais aliados à muita percussão. O álbum é relaxado e rico musicalmente. Bom de ouvir e dançar, bom de tudo, sem frescuras.

Não à toa, orgulhosos com o resultado final, os autores afirmam que as gravações foram muito divertidas. Um encontro que andava prometido há décadas e que celebra sem nenhum pudor, não só a Bossa Nova, mas seus principais protagonistas, sobretudo João Gilberto, homenageado em “Um abraço pra João”, de Macalé e Joyce.

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“A Síntese do Lance” é um álbum imprescindível, lindo, bem gravado e executado, que transpira talento e bom-humor. Mais uma joia que se junta às belas discografias destes dois clássicos da nossa música.

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Julinho Bittencourt

Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.

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