Afinal, o que quer o Lula?

Lula foi enfático ao dizer que o manifesto, em momento algum, usou as expressões “Fora Bolsonaro” ou não ao “fascismo”, ao contrário do desejo de 70% da população.

“Não é difícil o governo sustentar as pessoas em casa mais um, dois meses; é muito menos do que o Guedes gastará com os banqueiros (Lula, 31/05/2020) ”.

Uma vez mais a mídia deu voz ao ex-presidente Lula; dessa vez, para difundir a sua crítica à adesão de alguns militantes do PT ao manifesto Estamos Juntos.

Em regra, a imprensa destacou a frase “não tenho mais idade para ser ‘maria vai com as outras’”, associando-a à “rancor”, “disputa política” e “mesquinhez”.

Como poucas pessoas leram de fato o manifesto e, menos ainda, escutaram os trinta minutos de fala do Lula, o ex-presidente passou a imagem de empecilho à unidade para derrubar Bolsonaro, pois só estaria satisfeito se tal queda se desse sob seu comando.

Mas, não foi esta a fala de Lula.

O ex-presidente foi enfático ao dizer que o manifesto, em momento algum, usou as expressões “Fora Bolsonaro” ou não ao “fascismo”, ao contrário do desejo de 70% da população.

Para Lula, “o que eles estão tentando é apenas reeducar o Bolsonaro”. E não seria exatamente isto que quer dizer esta passagem do Estamos Juntos:

Somos a maioria e exigimos que nossos representantes e lideranças políticas exerçam com afinco e dignidade seu papel diante da devastadora crise sanitária, política e econômica que atravessa o país.

Lula também apontou que o manifesto não apenas não quer o “Fora Bolsonaro”, como também não quer “reeducar o Guedes”. É um manifesto em defesa da democracia, que não implica em derrubar Bolsonaro, e menos ainda em garantir direitos para a classe trabalhadora: 

“Como aconteceu no movimento Diretas Já, é hora de deixar de lado velhas disputas em busca do bem comum. Defender a lei, a ordem, a política, a ética, as famílias, o voto, a ciência, a verdade, o respeito e a valorização da diversidade, a liberdade de imprensa, a importância da arte, a preservação do meio ambiente e a responsabilidade na economia”.

Mas, se a proposta for de unidade da esquerda, direita e centro como teria ocorrido nas Diretas Já, realmente podemos unificar: basta que tenhamos eleições antecipadas, livres, com a participação de Lula, o mais rápido possível.

O golpe de 2016 foi um ataque do capital sobre o trabalho. Foi uma condição para aprovar a Emenda Constitucional 95, a reforma trabalhista e a previdenciária. A eleição de Bolsonaro, por sua vez, não foi um acaso ou acidente; foi a única saída eleitoral possível para manter os fundamentos do golpe: ante a pequenez de Alckmin e Meirelles, o ataque do capital sobre o trabalho só foi possível com a chegada da extrema-direita ao governo central.

Se Bolsonaro não é um raio em céu azul, então não há como tirá-lo sem defender, também, a retomada dos direitos das classes trabalhadoras. E Lula percebeu que os signatários do manifesto querem, em verdade, é que os trabalhadores continuem sem voz, sem direitos, nem manifesto, fora da foto. Nós defendemos que a classe trabalhadora esteja na foto, tenha seu programa político autônomo  e seja protagonista da luta por seus direitos, por liberdade e soberania.

“Eu só quero dizer para o PT o seguinte: o PT não tem idade para outra vez entrar enganado numa disputa. Nós sabemos por que queremos o impeachment do Bolsonaro: porque nós queremos que este país seja governado para os interesses dos trabalhadores brasileiros” (Lula, 31/05/2020).

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Daniel Valença

Professor do Programa de Pós-graduação em Direito da UFERSA, doutor em Direito pela UFPB, coordenador do Grupo de Estudos em Direito Crítico, Marxismo e América Latina (Gedic). Vice-presidente do PT/RN.

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