Yuri Martins Fontes

29 de novembro de 2019, 17h59

América Latina se levanta: gato escaldado tem medo de água fria

Yuri Martins Fontes: “No Brasil – gigante do atraso –, um estúpido Bolsonaro, acuado, escancara seu pavor frente a Lula (só parcialmente) livre, num momento em que até os golpistas já não o suportam mais”

Manifestação no Chile - Foto: Reprodução/Twitter

A América Latina fervilha entre golpes, resistência e contragolpes. Momento chave a ser observado, analisado e vivido – na práxis das ruas. Entre idas e vindas, o saldo geral soa positivo: duas das suas potências regionais, México e Argentina, começam a se reerguer.

No Brasil da eterna lentidão, pouco a pouco começam a ser barrados alguns dos tantos abusos de um Judiciário criminoso e associado a grandes interesses comerciais dos EUA (por quê, ou por quanto, um dia saberemos ao certo).

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No xadrez político da América

Passados alguns breves anos desde o reinício do golpismo na América, governantes neofascistas (fantoches do capital) ou neoliberais declarados já começam a tremer.

O autoritário Piñera se queima no Chile em chamas; uma greve geral traz o caos e trava a Colômbia comandada pelo paramilitarismo de Duque e Uribe (e as Farc retomam as armas, ao lado do ELN); os bolivianos em massa vão às ruas em recusa do golpismo de seu Oriente petroleiro e racista; os paraguaios reagem também lentos ao golpe de alguns anos atrás (um dos primeiros desse novo ciclo), mas com um interessante movimento armado que ganha dimensão até em terras brasileiras.

Neoliberais mais empertigados, como Macri, já voltaram para o chuveiro mais cedo, após um parco mandato, enquanto, do outro lado da moeda, Nicolás Maduro resiste; e no México, ainda que com o atraso de mais de uma década (com série de eleições fraudadas), o reformismo chega finalmente ao poder com Obrero.

Por aqui, no Brasil – gigante do atraso –, um estúpido Bolsonaro, acuado, escancara seu pavor frente a Lula (só parcialmente) livre, num momento em que até os golpistas – industriais, militares, latifundiários e grande imprensa – já não o suportam mais e se arrepiam a cada frase pueril e daninha que sai de sua boca fétida; de fato, um elemento irracional já percebido como prejudicial até mesmo aos interesses divinos do “mercado”, e que deve ser logo peça fora do jogo.

Multidões tomam as ruas, greves reprimidas a fogo e sangue, ameaças de novas guerras civis: eis o resultado de alguns anos da nova tentativa das nações imperiais aliadas (o dito G7), e de nossas corruptas elites internas (a eles associadas) de fazer os povos da América se curvarem mais uma vez ao neoliberalismo, aproveitando-se da crise econômica mundial para frear os projetos reformistas, recolocando nossas nações dependentes de volta em seus lugares de apêndices da economia estadunidense-europeia.

Mas gato escaldado já tem medo de água fria, diz a sabedoria popular.

Aos povos que se esqueceram de lembrar: o contexto da história

No final dos anos 1970 e durante os 1980, o neoliberalismo se apresentou como a roupagem nova do velho lobo capitalista em crise – em nome da manutenção da taxa de lucros do capital (que declinava). Foi assim adotado por mais de uma década pelos povos servis de grande parte da periferia do sistema, como o Brasil, a Argentina.

Estes povos, cansados da violência crua, “direta”, dos ditadores militares, aceitaram o “novo regime” – vendido como “mal menor” por patifes antinacionalistas: caso do vendilhão de templos Fernando Henrique Cardoso (ser eternamente moribundo, que ainda em sua quase-vida escreveu o próprio epitáfio: “esqueçam o que escrevi)”.

Pouco tempo depois, contudo, já em meados dos 1990, o cenário começaria a mudar. A população já dava mostras de descontentamento, espremida em suas condições mínimas de sobrevivência. Deste esgotamento humano resultaram crises sociais e econômicas que abalaram a “governabilidade” reacionária: a crise do México (cujo efeito Tequila contamina a economia global); a quebra do Real brasileiro (com impactante desvalorização monetária, inflação e aumento da, até então jamais enfrentada, miséria); e por fim, o ponto simbolicamente mais alto – a dissolução das instituições na Argentina, que derruba quatro ou cinco presidentes safados, apodrecidos no prazo de dias.

O neoliberalismo cansado de velho

Em 2008, estoura a primeira crise econômica mundial começada no seio do centro do sistema (o sistema de finanças dos EUA), desde a Quebra de 1929. Não se tratava de uma marola – atenção, Lula! –, mas sim de uma “crise estrutural” (da própria “lógica interna” capitalista), disparada pela situação instável de um sistema cada vez mais automatizado e que, portanto, precisa de cada vez menos humanos trabalhando para si.

Resultado: desemprego em massa, exclusão social como fenômeno não mais “cíclico” (reversível), mas “estrutural” – pois conforme cresce a incontornável “automatização”, dá-se em paralelo a exclusão em massa de trabalhadores do sistema produtivo. Processo que não tem solução dentro desse modelo produtivo altamente exploratório.

Na América Latina reformista dos anos 2000, que se reerguia a passos largos (após duas décadas socioeconomicamente perdidas, 1980 e 1990), os efeitos da crise capitalista tardariam alguns anos para nos afetar. Mas por volta de 2012 começam a chegar com fúria.

Com a depressão da economia, chegam também os golpes conservadores, apoiados pela inteligência bélica “híbrida” dos EUA-UE, atuando mediante: propaganda, patrocínio de milícias fascistas para desestabilização, sanções econômicas e, quando preciso, armas.

Após dez anos de respiro, a nova crise desgastou rapidamente o equilíbrio ainda tênue de nossas sociedades, no momento em que começava a se concretizar uma grande parceria estratégica entre as maiores nações semiperiféricas: os BRICS.

A reação dos donos do mundo frente à organização dos subalternos

Decerto que os donos do mundo não iriam tolerar um novo ator geopolítico – com poder para certas cartadas, já que, embora pobres, os BRICS são “nucleares”! –, no seu jogo viciado do poder global (até então completamente dominado pelos EUA e seus sócios europeus-ocidentais).

A aliança do eixo norte-atlântico, que perdura há quase um século, mostraria novamente suas garras: agindo na concretude do poder de destruição direta (física) da OTAN, mas também operando com surpreendente efetividade através de ações indiretas, mais discretas (socioeconômicas, culturais), através do caixa aberto do bilionário G7.

Com o aprofundamento da (nova) crise latino-americana, a degradar os governos reformistas de centro-esquerda ora no poder, e com o artifício da publicidade martelada diariamente nas desempregadas tevês do país, o descontentamento social toma conta do espírito popular. Sentimento que é logo aproveitado pelas classes dominantes, através de seus porta-vozes da mídia corporativa.

Unidos em torno de projetos pessoais e antinacional, os grandes industriais e latifundiários, a casta dos juízes e parlamentares fisiológicos e os altos-generais entreguistas (o resto de farda que sobrou da extirpação ideológica que a ditadura impôs aos militares nacionalistas), concluem enfim seus renovados golpes: coloridos de “democráticos”, ou não.

Em alguns casos, perdem o pouco da vergonha que lhes restava na cara e admitem se prestar ao ridículo: caso do nosso governo pateta, miliciano, doentio a ponto de assustar até golpistas de primeira (veja-se o STF do Toffoli, o Parlamento do Maia, o Partido da Imprensa Golpista da Miriam Leitão…).

Globalização e o olhar crítico da comunidade internacional

Com a irracionalidade geral novamente a governar a América Latina, os olhos do mundo – ou dos donos do mundo – mudam da água pro vinho: de apoiadores de massacres e golpes, diante do caos instaurado, estes governos fortes (sobretudo os europeus, tidos como mais “humanos”), voltam a clamar por uma mínima racionalidade.

Ocorre que em épocas de globalização, apesar da ameaça autoritária, estamos sob a mira da cada vez mais influente “comunidade internacional” (para o bem e para o mal). Dito sem eufemismos: as potências ocidentais, que se floreiam como detentoras de “valores humanos”, após apoiarem a barbárie, acabam responsabilizadas por sua própria opinião pública, popular, sendo assim obrigadas a criticar nossas tragédias periféricas (em grande parte por eles motivadas).

O caso da queima da Amazônia foi o divisor de águas que fez a Europa olhar pra desgraça que ajudou a fomentar por aqui.

As instituições do centro global sabem bem da destruição que se avizinha com o continuado desgoverno capitalista – é o que o mostram até mesmo editoriais dos gurus da direita “internacional” (The Economist, The New York Times, BBC, El País ou Le Monde).

A falaciosa “comunidade internacional”

A função da “comunidade internacional” é sobretudo manter o “status quo” do capital, mas, na medida do possível, prefere fazê-lo sem recorrer a criminosos explícitos (caso dos fascistas assumidos). Assim, se por um lado (o viés mercadológico) a tal “comunidade” dificulta a ascensão de governos nacional-reformistas (veja-se a oposição virulenta dos grandes jornais gringos-europeus contra o chavismo, o kirchnerismo e mesmo o lulismo); por outro, tem que mostrar serviço para suas próprias populações de opinião pública mais “afeita” aos direitos humanos – moderando (ainda que de modo pedante, eurocêntrico) as práticas excessivamente trogloditas de governos periféricos como o nosso.

[Veja-se o recente asilo político oferecido pela França ao guerrilheiro marxista Ricardo Palma Salamanca, envolvido, ao que lhe acusam, no fuzilamento de Jaime Guzmán (católico fundamentalista que foi assessor jurídico e assassino na ditadura pulha de Pinochet). Um claro aceno “civilizatório” contra as torturas da violenta polícia chilena, sob o atual mando do magnata Sebastián Piñera].

Crise e colapso do capitalismo

É certo dizer que o capitalismo “necessariamente declina”, dada a crise estrutural que, como mencionado, faz com que a taxa de lucro tenda a diminuir (devido à automação industrial e à própria capacidade de se obter recursos da natureza, que dá mostras de esgotamento).

Mas isto não significa adivinhar prazos para o tal “colapso” – já aventado por tantos marxistas e não marxistas –, nem crer ingenuamente que o regime vindouro será um sistema mais justo, ou socialista.

Sem a atuação popular massiva, sem as organizações tradicionais de trabalhadores unidas com os cada vez mais protagonistas movimentos sociais dos campos e das cidades, pode ocorrer todo o contrário. Podemos ingressar em uma época de controle absoluto: espécie de neoescravagismo do trabalho submetido a autômatas, como o tal grande irmão da ficção científica mais obscura.

***

Mas para um lutador social, nestes tempos de retrocesso humano, a esperança objetiva de que essa fase de declínio do capital abra uma fresta histórica traz um sentimento de motivação.

A utopia real na possibilidade de construção de uma nova sociedade é decisiva – e ela cresce dentro de cada espírito, mesmo dos mais céticos ou acomodados, quando vemos as ruas tomadas pela população descontente.

Bolsonaro em breve voltará para as valas do esgoto de onde nunca deveria ter saído. Mas e então? Como seu lugar de poder voltará a ser ocupado, numa época de vacas magras em que a “aliança” de igual para igual entre trabalhadores e classes dominantes se mostrou uma armadilha inviável?

Se outrora o modo lulista funcionou e foi em grande medida necessário ao caminhar da nação – que voltou a ter forças para alguns primeiros passos –, agora uma “aliança” não pode se dar nos mesmos moldes subalternos da “Carta aos Brasileiros”. Mas, para tanto, há que se tomar as ruas.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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