Apanhado do Cinema 2020 – por Cesar Castanha

Confira um seleção do Milos Morpha do que rolou em 2020 no cinema, um ano atípico, mas de produções incríveis.

Pela décima vez, aproveito o início do ano para produzir um artigo rememorando trabalhos queridos do cinema e da televisão do ano anterior. Esse dito “ano anterior”, no entanto, nunca foi tão atípico quanto foi 2020. Não acho que haja necessidade de repetir o que já é de amplo conhecimento sobre as dificuldades de existência que encontramos no ano que passou e que ainda estamos enfrentando. Já não acredito tanto, também, em uma possibilidade de reencantamento a partir dessas obras (como já defendi muitas delas em listas anteriores diante das duras transformações políticas de outros anos). Ainda assim, esses filmes, séries e demais produtos foram realizados. Essas obras são fruto do trabalho de artistas engajados com a criação fílmica e televisiva. É no intuito até de uma responsabilidade de reconhecer esses trabalhos que busco descrevê-los com essas listas. Há menos links encaminhando os leitores a outros textos e críticas (meus e de outras autorias) sobre os filmes mencionados desta vez, mas ainda há alguns, e, como sempre, eu sugiro que eles sejam seguidos.

Filme (longa-metragem):

  1. Vitalina Varela
  2. Na cabine de exibição
  3. La Gomera
  4. Isto não é um enterro, é uma ressurreição
  5. First cow
  6. A vastidão da noite
  7. Nomadland
  8. Wolfwalkers
  9. A metamorfose dos pássaros
  10. Monsoon

Direção:

  1. Pedro Costa (Vitalina Varela)
  2. Grace Passô (República)
  3. Corneliu Porumboiu (La Gomera)
  4. Kelly Reichardt (First cow)
  5. Chloe Zhao (Nomadland)

“O cinema de Costa é amplamente reconhecido como um cinema de construção dos espaços-comuns, condicionados não apenas por quem filma (nessa posição de diretor-autor), mas pelos sujeitos filmados, que criam também as suas condições de aparição. Para exemplificar a partir de um momento em que isso foi, pra mim, muito presente, penso na postura de Vitalina Varela no plano de onde foi tirada a principal imagem de divulgação do filme. Vitalina está sentada na cama, seu torso está inclinado diagonalmente para a frente e para a esquerda, mas seus braços, que impulsionam esse gesto do torso, estão para trás, à direita, tocando a cama. A sua cabeça, porém, não está inclinada, dirige-se firmemente para a frente, e seu rosto está franzido também para a frente. Vitalina sustenta, com essa postura, um monólogo para o marido falecido. Não se trata de fazer uma leitura psicologizante do gesto da atriz-personagem – de dizer, por exemplo, o que significa o seu corpo se erguer para frente e se segurar para trás –, mas de entender como a ação dela define os parâmetros da forma fílmica, inclusive da constituição do plano, definido por essa postura firmemente estática, mas em permanente ação”, trecho de texto meu sobre o filme publicado aqui.

Atriz:

  1. Vitalina Varela (Vitalina Varela)
  2. Kate Lyn Shell (She dies tomorrow)
  3. Frances McDormand (Nomadland)
  4. Alfre Woodard (Clemency)
  5. Julia Garner (A Assistente)

Com seu chapéu de apoiador de Donald Trump, Delroy Lindo traz para Destacamento Blood um dos personagens mais complexos das tessituras políticas do cinema de Spike Lee. Em dois filmes diferentes, Mogul Mowgli e O som do silêncio, Riz Ahmed interpreta um artista que é levado a refazer a relação do seu corpo com a sua arte. Mads Mikkelsen incorpora, em Druk, uma crise de responsabilidade masculina contemporânea. As passagens por um espaço familiar a que se retorna fazem de Henry Golding, em Monsoon, um espectador participativo do pertencimento. E, enfim, Kelvin Harrison Jr. joga com as diferentes e contraditórias modulações do que significa ser “americano” em Luce.

Ator:

  1. Delroy Lindo (Destacamento Blood)
  2. Riz Ahmed (Mogul Mowgli e O som do silêncio)
  3. Mads Mikkelsen (Druk)
  4. Henry Golding (Monsoon)
  5. Kelvin Harrison Jr. (Luce)

O neto da personagem de Youn Yuh-jung, em Minari, olha para ela e declara que ela não parece uma avó, talvez revelando, nessa fala, as nuances do trabalho da atriz, de um afeto presente, mas ainda não completamente assimilado a essa nova paisagem. É um trabalho não muito distante, do que é realizado por Hiam Abbass na série Ramy. Ambas são mulheres que transitam entre engajamentos em diferentes padrões culturais e que localizam esses trânsitos nos seus processos de envelhecimento. Curiosamente, outra atuação destacada nessa lista também se refere a reengajamentos culturais: a sátira de Maria Bakalova que, em Borat: fita de cinema seguinte, inteligente e energicamente, expõe ao ridículo as pretensões moralistas, assimilacionistas e autoritárias da cultura trumpista.

Atriz coadjuvante:

  1. Youn Yuh-jung (Minari)
  2. Hiam Abbass (Ramy)
  3. Maria Bakalova (Borat: fita de cinema seguinte)
  4. Octavia Spencer (Luce)
  5. Charin Alvarez (Saint Frances)

O personagem de Bill Murray, em On the rocks, não quer uma filha que não sabe assobiar. Esse trabalho sereno, apaixonado e levemente melancólico de Murray me pegou de surpresa. Em suas afirmações categóricas, ele se insere em cena com carisma de um showman em um espetáculo de um homem só, mas isso não é uma crítica aos seus parceiros de cena. Pelo contrário, Murray coloca essa personalidade magnífica sempre aberta para interações carinhosas com os outros atores em cena.

Ator coadjuvante:

  1. Bill Murray (On the rocks)
  2. Laith Nakli (Ramy)
  3. Eli Goree (Uma noite em Miami…)
  4. Amr Waked (Ramy)
  5. Michael Benjamin Washington (The boys in the band)

Elenco:

  1. Ramy
  2. Saint Frances
  3. Luce
  4. Minari
  5. Nomadland

Roteiro:

  1. La Gomera
  2. Possessor
  3. First cow
  4. A vastidão da noite
  5. Monsoon

Montagem:

  1. Na cabine de exibição
  2. Meu pretzel mexicano
  3. O som do silêncio
  4. A vastidão da noite
  5. La Gomera

O quadro restrito e frequentemente escuro de Vitalina Varela favorece as nuances dos personagens e espaços filmados no que a fotografia se sujeita a criação de gestos cênicos dos atores e às texturas do lugar. O interesse paisagístico dos filmes de Kelly Reichardt ganha novos contornos em First cow: um aspecto pitoresco enganoso que acena para a história da representação pictórica da natureza nos EUA. Já Isto não é um enterro, é uma ressurreição trabalha para tornar sensível, a partir das suas qualidades pictóricas, a habitação de uma terra de que é preciso se despedir.

Direção de fotografia:

  1. Vitalina Varela
  2. First cow
  3. Isto não é um enterro, é uma ressurreição
  4. A metamorfose dos pássaros
  5. Nomadland

A música de The midnight gospel nos insere em um mundo que está derretendo lentamente, suas cores se diluem de um objeto para outro, e suas sonoridades são difusas. Em A metamorfose dos pássaros, a trilha materializa a textura das memórias: inconstantes, duvidosas e encantadoras. Um estudo sobre a reinterpretação de músicas clássicas e as negociações performáticas implicadas nelas, conduz o musical de lentidão indiano The disciple. Já em Minari, Emile Mosseri, um compositor acostumado a fabricar sentimentos nostálgicos, como fez em The last black man in San Francisco, no ano anterior, revela aqui uma paisagem sonora para uma infância reimaginada no interior do Arkansas.

Trilha sonora:

  1. The midnight gospel
  2. A metamorfose dos pássaros
  3. The disciple
  4. Minari
  5. Nunca, raramente, às vezes, sempre

Na série animada anterior de Loren Bouchard, Bob’s Burguer, ainda no ar, a música e o liricismo já assumiam um papel plural: satírico, sensível e de ampliação do universo constituído. Em Central Park, ele se engaja ainda mais com as possibilidades narrativas e estéticas das canções ao assumir o gênero musical. “Momma’s got this” é uma showtune como há alguns anos não vemos nas comédias musicais da Broadway, e “Weirdos make great superheroes” é uma afirmação de personalidade para os personagens e para a própria série.

Canção:

  1. “Momma’s got this” (Central Park)
  2. “Weirdos make great superheroes (Central Park)
  3. “Dreams wash away” (The midnight gospel)
  4. “Canção para fingir” (A metamorfose dos pássaros)
  5. “Poverty porn” (The forty-year-old-version)

“Um bom episódio da clássica série Além da imaginação (1959-1964) não é necessariamente magnífico. No sentido de que os eventos que ocorrem nele não precisam ser transformadores, épicos que refletem brilhantemente nossa forma de vida. Isso A vastidão da noite, em sua autoevidente homenagem à série, entende muito bem. A conquista do filme, dirigido por Andrew Patterson, é análoga a de sua maior referência: compreender que há uma conexão entre testar as maneiras como existimos e experimentar com as formas da audiovisualidade. Aqui, compreende-se que os corpos só são possíveis como constituídos pelas tecnologias que os colocam em cena. Gosto particularmente da ênfase dada pelo filme a vozes que não são puras, orgânicas, mas que são projetadas como vozes técnicas, atravessadas por interferências e ruídos que ativam a sensação de que outras existências, fora da natureza, são possíveis. E é assim que o filme reconhece na própria forma da audiovisualidade esse lugar além dos imperativos naturalistas, a ‘zona crepuscular’ sempre prometida na abertura da série em que se inspira”, texto meu publicado em artigo no Cineplayers.

Trabalho de som:

  1. A vastidão da noite
  2. The disciple
  3. O som do silêncio
  4. Lovers rock
  5. O homem invisível

Série ou minissérie:

  1. Insecure (quarta temporada)
  2. Ramy (segunda temporada)
  3. The midnight gospel (primeira temporada)
  4. Mrs. America
  5. Better things (quarta temporada)

República é um exercício de criação que encontra um projeto de ficção-científica. Grace Passô faz aqui o que talvez seja o filme central da experiência do cinema em isolamento. Não se trata de um filme autorreflexivo sobre o gesto de criar diante do arquivo e nada mais, como Mati Diop faz em In my room, mas de um passo adiante nos termos da criação em condições de pandemia: uma apropriação do onírico, um desmantelamento dos dispositivos fílmicos e a busca por aquele ponto em que o fingimento da atuação e do cinema encontra a mais rigorosa expressão de fantasia. Nesses poucos minutos de filme, o mundo pode ou não existir, o Brasil é meramente um sonho, e o cinema é uma ferramenta complexa, ainda que frágil, de constituição diegética.

Curta ou média-metragem:

  1. República (dir. Grace Passô)
  2. Chão de rua (dir. Tomás von der Osten)
  3. This is an address (dir. Sasha Wortzel)
  4. World of tomorrow episode three: the absent destinations of David Prime (dir. Don Hertzfeldt)
  5. Strasbourg 1518 (dir. Jonathan Glazer)

Em 2020, testemunhamos uma profusão particularmente grande de bons documentários. Aqui, destaco Na cabine de exibição, visto durante o festival Olhar de cinema. Este filme articula de maneira muito original questões imensamente pertinentes sobre a difusão e o acesso a arquivos audiovisuais que expõem atos de opressão e uso violento do poder. É original porque descobre, no seu processo, maneiras de interação com esse arquivo que não o rejeitam, mas confrontam os potenciais idealizados das imagens como índices que permitem um acesso à realidade. Acho que ainda vamos discutir bastante este filme e as suas descobertas.

Documentário:

  1. Na cabine de exibição
  2. Meu pretzel mexicano
  3. Time
  4. Oroslan
  5. Responsabilidade empresarial

Wolfwalkers não é sua lição de vida pronta para o consumo. Os valores do filme são articulados de maneira muito mais complexa do que o que se costuma fazer. Com forte sotaque irlandês (literalmente, para os que escolherem assistir na dublagem em inglês), o longa relata processos de migração, crise econômica e dinâmicas de trabalho e de sujeição a autoridades nacionais, religiosas e econômicas. Por isso, por mais que a história busque e encontre alguns valores universais (no sentido de valores que são reapropriados em diferentes culturas de diferentes maneiras), ela está muito ancorada nas circunstâncias históricas e políticas daquele espaço”, trecho de texto meu publicado no Cineplayers.

Animação:

  1. Wolfwalkers
  2. The midnight gospel
  3. Central Park
  4. World of tomorrow episode three: the absent destinations of David Prime
  5. A casa lobo

Direção de arte:

  1. Wolfwalkers
  2. A casa lobo
  3. First cow
  4. A metamorfose dos pássaros
  5. Ammonite

Cenografia:

  1. A casa lobo
  2. Meu coração só irá bater quando você pedir
  3. Minari
  4. She dies tomorrow
  5. La Gomera

Os melhores momentos de Lovers rock, o segundo filme da série Small Axe, são quando os personagens estão completamente mergulhados na festa, dançando junto às músicas, dublando-as com os seus movimentos. Nesses momentos preciosos de dança e movimento rítmico, seus figurinos agem como tecidos que mobilizam uma sensibilidade que nos conecta, como espectadores, às músicas, aos corpos que dançam e a uma sensação de comunidade. Um bom trabalho de figurino não é aquele que se atenta a preciosismos de ambientação de época e que expõe as qualidades de estilistas dos profissionais, mas aquele que consegue contribuir com a textura do filme, vinculando-se a sua temporalidade e transformando o tecido formal, audiovisual, da obra.

Figurino:

  1. Lovers rock
  2. Isto não é um enterro, é uma ressurreição
  3. A pastora e as sete canções
  4. Miss Marx
  5. A vastidão da noite

Videoclipe:

  1. “Step Into My Life” – Jessie Ware (dir. Madison Shelpuk)
  2. “How You Like That” (Dance Version) – Blackpink
  3. “Cut Me” – Moses Sumney (dir. Moses Sumney)

Menção honrosa para este apanhado:

Em razão da importância de se dirigir um olhar de pesquisa rigoroso para o arquivo histórico hollywoodiano especialmente no ano em que perdemos Olivia de Havilland, um dos últimos vínculos de memória viva com o período clássico, e também da importância de se fazer uma revisão desse arquivo tendo como ênfase a história das mulheres e mulheres de cor, faço uma menção honrosa para o trabalho incansável empreendido por Isabel Custódio em seu canal Be kind rewind no YouTube.

Listas anteriores:

Apanhado do Cinema 2019

Apanhado do Cinema 2018

Apanhado do Cinema 2017

Apanhado do Cinema 2016

Apanhado do Cinema 2015

Apanhado do Cinema 2014

Apanhado do Cinema 2013

Apanhado do Cinema 2012

Apanhado do Cinema 2011

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Cesar Castanha

Do encanto com os créditos de abertura de "Alice no País das Maravilhas", visto religiosamente sempre que exibido nas tardes de sábado pelo SBT, veio a paixão pelo cinema como experiência estética, transformadora e expressão de uma ideia, uma história ou do próprio experimento. Por amar o cinema para além dos padrões de qualidade impostos a ele pela mídia, por outras instituições e até por uma crítica datada, veio o meu amor por conversar sobre cinema, aderi-lo, defendê-lo, apropriar-me dele. O Milos Morpha é uma conversa sobre cinema. Aqui, o texto nunca é certo e definitivo. O cinema não é uma fórmula para que cada cineasta se aproxime da solução mais correta, é um conjunto de experiências artísticas que já dura mais de 100 anos, é dessa forma que criticamente percebemos e experimentamos o cinema no Milos Morpha.

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