Diante do avanço do golpismo, o caminho é mobilização nas ruas – Por Raimundo Bonfim

Para defender a vida e o nosso povo da política de extermínio de Bolsonaro, estamos unidos nesta caminhada de luta e resistência com o objetivo de derrubar este governo que só tem levado fome, miséria, desemprego e morte às famílias

Com a insatisfação crescente no país, novamente o presidente Jair Bolsonaro aposta na desestabilização e no golpe. As recentes ameaças ao processo eleitoral, em uma tentativa aberta de deslegitimar a já frágil democracia brasileira, são novas demonstrações da tática bolsonarista: avançar no autoritarismo para refrear as investigações contra os muitos casos de corrupção em quase três anos de governo, ocultar sua responsabilidade nas mortes de mais de quase 560 mil brasileiros/as e no caos econômico, e deslocar a agenda do debate público para sua própria figura.

A falácia do voto impresso tem dois objetivos. O primeiro é retomar o controle da agenda política, ou seja, deslocar o debate público daquilo que realmente importa (controle da pandemia, geração de emprego e renda, políticas públicas para efetivação de direitos, dentre outros), para um tema em que Bolsonaro tenha protagonismo. O segundo é se reafirmar como “antissistema” e semear o terreno golpista, lançando dúvidas sobre o processo eleitoral e pavimentando algum apoio social para seu projeto golpista de perpetuação no poder. Bolsonaro sabe que o retrocesso ao sistema de voto impresso é inadmissível, por diversos motivos, como a maior possibilidade de quebra de sigilo do voto (o que favorece a atuação das milícias e a compra de votos) e de fraudes na apuração. No entanto, cai como uma luva na estratégia golpista, pois dá consecução a uma agenda ininterrupta de ataques à democracia e acúmulo de forças para o projeto autoritário de país.

Isso tudo se dá em meio à pressão das ruas pela abertura do processo de impeachment na Câmara dos Deputados, por crimes cometidos contra a democracia, incentivo a aglomerações e descumprimento de medidas de prevenção à Covid-19, corrupção na compra das vacinas, entre inúmeros outros. O país se depara constantemente com ameaças vindas de integrantes das Forças Armadas, que prometeram uma reação “mais dura”, caso a CPI da Covid investigue os casos de corrupção praticados por militares que estão no governo.

Tivemos recentemente entre os temas da CPI da Covid-19 a revelação de que houve irregularidades nas transações que envolveram a compra das vacinas Covaxin e AstraZeneca, o que colocou no centro das atenções justamente o Ministério da Saúde, comandado pelo general da ativa, Eduardo Pazuello, à época das negociatas. Apesar dos fatos gravíssimos que indicam a existência de esquemas de corrupção na compra de vacinas, diante de uma pandemia que já matou mais de quase 560 mil brasileiros, os militares mandaram seu recado. Mas a mensagem não nos pegou de surpresa. Estamos alertas, pois sabemos que a democracia em nosso país, com os duros golpes que tem sofrido com a tutela militar, está sob ameaça constante. Não nos intimidarão. Generais, voltem para os quartéis!

Sabemos bem o que uma reação “mais dura” dos militares pode significar, mas não vamos aceitar e nem admitir que se pratique qualquer violência contra a democracia, ainda que ela tenha sido subtraída nos últimos anos. E em relação à instituição Forças Armadas, o que se assiste é a sua transformação em um partido militar aliado e alinhado com a política genocida e corrupta do presidente Jair Bolsonaro. Mas a proteção das fronteiras brasileiras, que é responsabilidade das Forças Armadas, fica em último plano. Há tempos, neste período sombrio em que vivemos, a politização das Forças Armadas e a militarização da política são componentes da concretização do golpe que teve início em 2016, com tomada do poder por parte da burguesia, com Michel Temer, prisão ilegal de Lula, e a fraude que elegeu Jair Bolsonaro.

A cada ação desastrosa e criminosa de Bolsonaro diante de fatos que levam seu governo para o atoleiro da corrupção, aparece o desespero de um presidente autoritário e fascista. Não fossem a tutela dos militares, o apoio da burguesia e do centrão na base das emendas e cargos no governo, o processo do impeachment já teria sido instalado. Com o aumento da rejeição e a possibilidade de uma derrota eleitoral em 2022, Bolsonaro ataca o processo de votação via urna eletrônica. Isso não passa de uma jogada para tirar o foco da catástrofe econômica, social, política e sanitária que é o governo.

De todas as formas, Bolsonaro e seus apoiadores tentam garantir mais tempo de poder tanto para o próprio presidente, quanto para os deputados que formam a sua base de sustentação, em troca de benesses que lhes são concedidas. Uma troca suja que concorda em fechar os olhos para os crimes do presidente, como tem feito o deputado Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, responsável por instalar o processo de impeachment e que não o faz, colaborando para que mais vidas sejam perdidas diariamente no nosso país. Trata-se de uma omissão criminosa.

E Lira vai além, ao articular na Câmara a aprovação da proposta de semipresidencialismo no nosso país, mostra o desespero de quem vê Bolsonaro perder popularidade e aumentar sua rejeição, pesquisa após pesquisa. É o desassossego de quem vê o ex-presidente Lula sendo inocentado de todas as acusações que lhe foram feitas, uma a uma, ao mesmo tempo em que dispara em popularidade, intenção de votos e credibilidade. Como sabe que será difícil reverter a vitória das forças democráticas, representadas por Lula, o presidente da Câmara tenta se antecipar a uma acachapante derrota da extrema-direita, e propõe diminuir as atribuições do próximo presidente do país, mediante aprovação do semipresidencialismo. Lira caminha contra a via das prioridades, que é a instalação do processo de impeachment do presidente. Com Bolsonaro no poder não teremos chances de retomar o crescimento e desenvolvimento econômico, gerar emprego e renda, combater a fome e a desigualdade social. Derrubar Bolsonaro e todo o seu governo é a prioridades das manifestações de ruas.

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A indignação contra o descaso e irresponsabilidade do governo Bolsonaro em todas as áreas sociais, sobretudo na Saúde, tem levado milhares de pessoas às grandes manifestações no Brasil e no exterior, na Campanha Fora Bolsonaro. Os protestos têm sido cada vez maiores, e o caminho para refrear o golpismo é torná-los ainda maiores, transformando os milhares em milhões. É chegado o momento de uma insurreição popular pelo fim do governo Bolsonaro.  

Para defender a vida e o nosso povo da política de extermínio de Bolsonaro, estamos unidos nesta caminhada de luta e resistência com o objetivo de derrubar este governo que só tem levado fome, miséria, desemprego e morte às famílias do nosso país. É hora de conclamar o povo, os movimentos populares, organizações sociais e forças políticas comprometidos com um projeto democrático e popular para o país para ampliarmos nossa presença nas ruas em defesa da continuidade das investigações da CPI da Covid-19, com indiciamento dos responsáveis pelas milhares de mortes, além de cobrar a resposta da Câmara dos Deputados aos mais de cem pedidos de impeachment de Bolsonaro, que seguem sem análise.

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O 7 de setembro está chegando e devemos novamente construir um grande dia de resistência e luta por vacina para todos, auxílio emergencial de 600 reais até o fim da pandemia, e Fora, Bolsonaro. É uma data emblemática, pois todos os anos realizamos o Grito dos/as Excluídos/as para defender a soberania nacional e popular. Somente com a ampliação de nossa presença nas ruas vamos refrear o golpismo e recolocar na ordem do dia uma nova agenda política, de efetivação de direitos e ampliação da democracia. Por isso, desde já devemos estar engajados/as na construção da maior jornada de lutas até agora realizada. Vamos à luta, pelo Fora, Bolsonaro!

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Raimundo Bonfim

Raimundo Bonfim é advogado, coordenador nacional da Central de Movimentos Populares (CMP) e membro da coordenação nacional da Frente Brasil Popular (FBP). Iniciou a militância nos movimentos populares em 1986, na Favela Heliópolis, a maior de São Paulo

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