BBB: Odeiem o Bolsonaro e não a Karol Conká

Não podemos esquecer a função primordial da crítica, que é construir, apontar caminhos e transformar e nunca para destruir reputações; se for para destruir, que seja o capitalismo e a hetero-norma

Provavelmente a cantora Karol Conká deve deixar, na noite desta terça-feira (23), a 21ª edição do Big Brother Brasil com alto índice de rejeição.


Todavia, o que começou como uma crítica em torno de algumas posturas de Conká sobre alguns participantes, resvalou para o ódio, machismo e racismo.


Esse clima de ódio criado em torno da figura de Karol Conká tem relação direta com a ação tirânica do cancelamento, uma das piores coisas, depois da direita contemporânea, criada no esgoto das redes.

Devemos receber Karol de braços abertos, mostrar os erros e deixar que ela reflita e assimile a sua postura com algumas pessoas dentro do reality e que isso tenha ressonância em sua vida aqui fora.


É preciso desconfiar de todo esse ódio canalizado para Karol Conká. Pessoas comemoram com se não houvesse amanhã quando ela foi indicada ao paredão.


Ultrapassamos todos os limites do humor, dos memes e caímos no ódio. E a Karol Conká não merece o que está sendo feito com a sua figura.


Destruir reputações com ódio é algo que cabe às milícias digitais à direita e nunca para aqueles que se consideram progressistas e, principalmente, socialistas.


Sob o socialismo, o mundo e a crítica devem funcionar de maneira horizontal e forma construtiva.


Aliás, não devemos esquecer a função da crítica: transformar, apontar caminhos e construir outra coisa, mas nunca para destruir reputações.


Se for para destruir, que seja o capitalismo e a hetero-norma, e não uma cantora de rap brasileira que já fez história com dois excelentes discos.


Canalizemos todo esse ódio contra Bolsonaro, este sim merece toda essa disposição observada nas redes e não faltam motivos: retirada dos Direitos Humanos e diversidades dos Plano nacional de materiais didáticos; destruição da Petrobras; privatização do Correios; criacionismo e negacionismo diante da pandemia.

Enfim, a lista para odiarmos Bolsonaro é interminável. Que seja ele o alvo do nosso ódio e não uma cantora negra e do rap brasileiro.


Há duas figuras que merecem o nosso repúdio dentro do reality: Rodolfo e Arthur: mentirosos, ardilosos e homofóbicos.


Não podemos esquecer que esse programa faz parte do que há de mais baixo do entretenimento da cultura de massas: manipula e busca o pior dos participantes. É possível que muitos de nós tomássemos atitudes iguais ou piores do que a da cantora Karol.


Por fim, vejam a entrevista do Manhã Fórum, conduzida por Ana Roxo, com a socióloga Silvia Viana que estudou os padrões de manipulação dos realitys e com eles representa o modo de produção capitalista na contemporaneidade.

*Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Fórum

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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