Tomaz Amorim

crítica cultural e literatura

30 de julho de 2019, 06h14

Bolsonaro: a paródia como plano de governo

Tomaz Amorim propõe uma leitura estética do governo Bolsonaro como um governo sem essência, que parodia governos populares anteriores e governa como se fosse oposição, enquanto seu programa de governo de fato permanece escondido

Foto: Allan Santos/PR

“A vinda do Anticristo parodia a benção da promessa messiânica, como o III Reich parodia o Socialismo”.
(Walter Benjamin)

Da campanha eleitoral até seu sétimo mês de governo, não há plano positivo no governo Bolsonaro. (O mercado e seu pau mandado, Paulo Guedes, sem dúvida, agem, mas por conta própria, quase que apesar do governo Bolsonaro). Suas declarações mais enfáticas apontam para o contrário: seu governo é (uma) negação. Suas principais propostas, como as manchetes de jornais não cansam de mostrar, são desmontar, acabar, restringir, congelar, limitar, fechar etc. Seu objetivo pessoal é desfazer o que foi feito nos 14 anos de governos petistas. Retirado tudo, o que fica depois? O que ele traz, cria, inaugura, abre, movimenta? Ainda não se sabe.

Sua obsessão com Lula reforça a impressão de que seu plano governo não tem essência, é mero reflexo distorcido. Em Israel, em uma de suas primeiras viagens internacionais oficiais, cercado de novos aliados, sua obsessão era só uma: que sua árvore cresça mais que a do Lula. (Aqui estamos perto de outro tema desse governo: a falência do falo). Sua presença pública, seus esforços populistas são uma tentativa rude de repetir o populismo lulista. Tudo parece mera negação, inversão chucra, paródia sem requinte do que ele imagina que os governos petistas foram.

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Mas nem esse esforço bolsonarista de repetir a aparência com sinal trocado é original. Como a epígrafe de Walter Benjamin lembra, o Nacional Socialismo era já uma paródia do Socialismo, tanto em certo sentido estético (a tentativa de imitar a grandeza soviética em suas marchas públicas, seu cinema etc), quanto em práticas e discursos políticos (o foco no trabalhador e no trabalho, na importância da união sob uma única bandeira e, sobretudo, na busca por um inimigo comum). Que tudo isso tenha sido uma farsa, a história mostra. O Terceiro Reich afagava o trabalhador com uma mão, ao mesmo tempo em que perseguia sindicalistas e favorecia industriários com a outra.

O ressurgimento dos movimentos de extrema direita segue o mesmo padrão. A tática é utilizar a justa insatisfação dos trabalhadores e da classe média, provocada pela desigualdade social galopante em todo o mundo, e, parodiando as formas de organização e discurso da esquerda e dos movimentos progressistas, direcionar sua revolta a outro inimigo (judeus, mulheres, negros, imigrantes etc – todos menos o patrão, menos os banqueiros, menos quem, de fato, produz o problema). As linguagens parodiadas são diversas.

Do ponto de vista da linguagem, não há caso mais flagrante do que o surgimento do Movimento Brasil Livre (MBL). A sigla, o nome, como se sabe, é uma paródia descarada de outro movimento. Aquele popularizado em “Junho de 2013”, quando tudo parecia novamente aberto, quando o sonho parecia ter voltado às ruas na forma da criatividade política do Movimento Passe Livre (MPL), quando a sociedade, impulsionada pela juventude, ousava pensar outras formas de representação e prática política. De Jesus a Genésio. Das gigantescas assembleias descentralizadas ao “movimento apolítico” do hoje deputado federal Kim Kataguiri.

Do ponto de vista do vídeo, a estética de movimentos autonomistas radicais, com suas salas sem iluminação ou câmeras profissionais dos estúdios de televisão, é imitada nos pronunciamentos de Bolsonaro, calculadamente precários, com a bandeira nacional pendurada com fita crepe. Tudo grita: somos diferentes! Não somos como a mídia tradicional, você pode confiar na gente! Enquanto isso, como se sabe, caminhões de dinheiro são transportados para a Rede Record e o SBT pelos bons serviços prestados de propaganda.

Este procedimento vai se repetindo, com maior ou menor grau de diferença. Olavo de Carvalho é a paródia de intelectual anarquista. MC Reaça é a paródia de um funkeiro. Os robôs nas redes sociais são paródia de militância virtual, que abalou o mundo durante a Primavera Árabe. Não se trata de mobilizar temas, formas e uma tradição cultural legitimamente da direita. (Gente que reivindica, com mais ou menos mérito, esta tradição, como Marco Antonio Villa, Luis Felipe Pondé e Reinaldo Azevedo já se deram conta disso). Não há mais pensamento, nem mesmo de direita, apenas repetição invertida, deformação especular. De José Guilherme Merquior a Carluxo Bolsonaro.

Essa ausência de substância, de plano e programa positivos, a agressividade contra imprensa e adversários (e aliados!), a memória constante dos governos do PT que já não governam o país há quase três anos, produzem a impressão bizarra de que o governo Bolsonaro é de oposição. Bolsonaro governa como se fosse de oposição. Culpando as mazelas sociais e econômicas que são de sua estrita responsabilidade aos outros, ao “governo”. É uma paródia de governo.

Não se pode mais, no entanto, tomar essa bizarrice com ingenuidade. O fenômeno do bobo coroado rei não é nacional. Os três patetas do Ocidente, Donald Trump, Jair Bolsonaro e Boris Johnson, se utilizam da paródia porque não podem expressar a agenda real. Seu plano de governo é a paródia, mas não seu programa e seu projeto de poder. (Não fosse o caso, já teriam sido tirados de cena há tempos, como foi, por exemplo, Tiririca). Esse projeto, apesar de suas doses diárias de psicopatia familiar, não é pessoal. Se fosse, a máquina necessária para sua eleição não teria ficado em pé. Bolsonaro distrai com sua paródia de bufão, de bobo da corte, enquanto Paulo Guedes governa.

E isso porque o homem branco de boa aparência e boa formação universitária não funcionava mais como administrador do Estado. O eleitor em contexto de crise permanente, com perda acumulada de poder aquisitivo, não se convencia mais com Tony Blair ou Fernando Henrique Cardoso. Por outro lado, o populismo de esquerda não entregava as reformas (melhor dizer, terraplanagem, terra arrasada, destruição do Estado de bem-estar social) na velocidade esperada pelos bilionários. Ao mesmo tempo, sem desejar ou conseguir transformar o trabalhador em força política administradora da vida pública, ou seja, tendo fracassado em sua tarefa histórica, esta esquerda, que no Brasil recebeu o nome de Partido dos Trabalhadores, foi tirada de cena. (Para lembrar de outra citação atribuída a Walter Benjamin: “Cada ressurgimento do fascismo dá testemunho de uma revolução fracassada”).

Em seu lugar, um sósia invertido, uma paródia, o bobo coroado rei enquanto imita o camponês – para que tudo permaneça como antes. Os lucros semestrais dos bancos brasileiros e a reação da Bovespa não negam. Estamos todos assustados – mas eles não, tudo está sob controle. O caos público é o controle. Nem mesmo a indústria e o agronegócio têm tanta influência sobre este novo modo de administração. A destruição da carteira assinada não beneficia tanto o industriário quanto os acionistas da Uber.

Por trás da paródia como plano de governo, o programa de governo de fato, anti-humano, bilionário. Na primeira página, o truque da vez do impostor. “Vamos acabar com a cadeirinha no carro, vamos fazer churrasco com a Amazônia”. Enquanto isso, descansando tranquilamente nas páginas do caderno Mercado, o programa de governo, a destruição de tudo. A característica principal do Anticristo, afinal, é sua desfaçatez, sua falsa aparência de que ele trará dias melhores. Para fechar a trinca com uma última citação de Walter Benjamin: “Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo”.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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