Bolsonaro lança continuação da franquia ‘A Facada’ na tela mais próxima de você! – Por Wilson Ferreira

É o modus operandi da guerra criptografada: ocupação da midiosfera através do choque, afirmações e desmentidos, provocações, apropriação de discursos, invenções de crises – na essência, dar pernas a não-acontecimentos para administrar um quadro de dissonância cognitiva

Reverendo, cabo da PM, parlamentares, coronéis, mesa de chope onde são oferecidas milhões de vacinas, um verdadeiro conto sem pé nem cabeça. A CPI da Pandemia “descobriu” um bizarro submundo, passando a competir com Bolsonaro nas tarjas “Urgente” e “Breaking News” dos canais de notícias. Em resposta o presidente lança mais uma continuação da franquia “A Facada”, cujo piloto foi exibido nas eleições de 2018 – mais uma vez o presidente foi internado numa urgência médica para lá de ambígua e com timing. A gravidade da saúde de Bolsonaro é fato ou fake? Numa guerra semiótica criptografada de informações essa distinção pouco importa, já que, desde o início, o governo Bolsonaro foi eleito para não governar. Apenas manter o Estado no piloto automático à espera das privatizações e reformas, enquanto as psyOps do Partido Militar criam uma realidade paralela imersiva para a patuleia atordoada. 

Desde março de 2019 este humilde blogueiro começou a alertar que Bolsonaro e seus ministros não governam: deixam a máquina do Estado funcionar no piloto automático à espera de que a boiada neoliberal passe pelo Congresso. Ao invés de governar, ocupam-se da estratégia semiótica de ocupação da pauta midiática de todo o espectro político – clique aqui.

Eleito e empossado, as coisas começaram com o presidente postando “Xvideos”,  “Golden Showers” no carnaval e declarações (que a grande mídia qualifica como “polêmicas”) de que a Democracia só existe no Brasil por uma benesse das Forças Armadas. 

A mídia, seja corporativa ou progressista, desde o início foram engolfadas por essa simulação: “temos um presidente que governa através do Twitter!”, exclamavam. Não! Desde o início, esse governo foi empossado com um único propósito: não governar, apenas deixar a máquina pública deteriorar por si mesma (enquanto aguarda as privatizações) enquanto cria uma realidade paralela de “polêmicas”. 

É o modus operandi da guerra criptografada: ocupação da midiosfera através do choque, afirmações e desmentidos, provocações, apropriação de discursos, invenções de crises – na essência, dar pernas a não-acontecimentos para administrar um quadro de dissonância cognitiva. Manter a opinião pública ansiosa e confusa com tantas tarjas de “Urgente” e “Breaking News” – jogam com uma linguagem telejornalística que começou nos noticiosos sensacionalistas e passou a ser adotado por canais como Fox News, GloboNews e CNN: enquanto o apresentador está dando uma notícia, outras manchetes aparecem no canto inferior da tela. 

Guerra criptografada é mais uma faceta do “caos administrado”, essência da guerra híbrida: manter essa realidade paralela tão difícil de entender quanto a série alemã Dark, enquanto os códigos de compreensão são fragmentados, embaralhados, como numa mensagem criptografada.

Como o propósito desse governo eleito nunca foi o de governar (mas pôr em prática uma estratégia de ocupação militar no Estado sob a moeda de troca das “reformas” neoliberais esperadas pelo chamado “mercado”), Bolsonaro e seus ministros nada têm de relevante para dizer: projetos, programas, políticas públicas, planejamento ou coisa que o valha. 

Escatologias e palavrões

Por isso, Bolsonaro faz de tudo para conseguir manchetes nos jornais. Mas como ganhar espaço sem dizer nada relevante? Sua primeira estratégia são escatologias e palavrões, como lembra Carlos Wagner no “Observatório de Imprensa”: usando uma brecha para criar polêmicas que não levam a nada, Bolsonaro disparou “caguei para a CPI”. Como Wagner salienta, o presidente sabe que os grandes jornais e os noticiários de TV aberta e fechada não vão publicar os palavrões. Mas justamente por não publicar, ficarão muito tempo repercutindo a notícia, como indício de uma suposta “tensão entre poderes” – clique aqui.

Em todo esse caos da guerra criptografada de informações há método e planejamento. Além dos palavrões e escatologias do presidente (interpretado como “polêmica” ou “espontaneidade”) há, por assim dizer, produções de franquias, séries e até, arrisco dizer, spin-offs que acabam sempre bombando nas breaking news. Análogo às estratégias mercadológicas das produções da indústria de entretenimento.

Por exemplo, tem a franquia “A ameaça do golpe militar” com o spin-off “Legalistas das Forças Armadas abandonam Bolsonaro”; ou ainda a série “Gêmeos, Mórbida Obsessão” do recorrente disse-me-disse entre Bolsonaro e o vice general Mourão; e também a que, no momento ,é um sucesso de audiência: “Tensão entre Poderes” com o inefável Ministro Fux com suas abotoaduras e golas engomadas “passando um sabão” nos chamados “arroubos autoritários” de Bolsonaro – como, por exemplo, chamar Barroso do STE de “idiota”.

Porém, a franquia mais longeva é “A Facada”, cuja produção piloto nas eleições presidenciais de 2018 levou o protagonista Bolsonaro à presidência pela sua narrativa controversa e nebulosa. E que rendeu alguns spin-offs como cirurgias em 2020 para vasectomia e depois pedra na bexiga. E cada uma dessas internações, rendendo manchetes, coberturas ao vivo e especulações.

Mussolini e Berlusconi ocupavam as manchetes com suas conquistas amorosas. Bolsonaro com facadas e cirurgias.

Franquias “A Facada” e “O Impeachment”

Como bem observou Jeferson Miola, em se tratando de Bolsonaro e do governo militar, é difícil acreditar em qualquer coisa – clique aqui. Principalmente quando sabemos que a expertise desse governo é o domínio total do espectro através do controle e logística das informações. 

Mas a franquia “A Facada” rendeu mais uma continuação com uma nova estrondosa produção: cobertura ao vivo com helicóptero acompanhando a saída do Hospital Militar de Brasília até aeroporto, embarque e pouso em Congonhas. Com a comitiva de mais de dez carros pretos reluzentes acompanhando até o hospital a ambulância com o enfermiço presidente.

Para Miola, a urgente internação possui o timing de um momento em que o Governo se encontra flanqueado pela CPI e “desmoralizado pelas descobertas de esquemas de corrupção e gangsterismo”.

Porém, para esse Cinegnose, o timing é outro: o problema é que a produção da  série “A CPI” está ocupando muito espaço nas tarjas “urgente” e “breaking news” da grande mídia – para esse humilde blogueiro, o show da CPI é uma subsérie que está oportunisticamente pegando carona na produção mainstream “A Ameaça do Golpe Militar”. 

Sua ambição é lançar uma nova série: “O Impeachment” que, finalmente, seria incorporada às produções mainstream dos estúdios do Partido Militar – nos EUA Trump conviveu confortavelmente com a ameaça do impeachment, até mesmo depois que saiu da Casa Branca. Seja impeachment ou atentados a facada, o princípio é o mesmo: espicaçar a tropa e a polarização para gerir o caos. 

Enquanto a patuleia está sendo entretida com essa narrativa, Câmara e Senado estão passando os bois das privatizações, na surdina, com pouquíssimo espaço até na mídia progressista. Até mesmo para a maior patranha do século: a privatização da Eletrobrás.

Uma CPI que “descobre” um submundo tão bizarro que lembra alguma coisa de David Lynch entre Veludo Azul e a série Twin Peaks: uma mistura de reverendo, cabo da PM, parlamentares, coronéis, mesa de chope onde são oferecidas milhões de vacinas, uma narrativa tão sem pé nem cabeça que nessa sexta-feira (16/07) CNN e GloboNews estão tentando fazer uma espécie de “melhores momentos” ou “anteriormente na série “CPI” para tentar ligar os pontos – com indefectíveis trilhas sonoras de suspense e thriller. 

Com essa ameaça de roubo da cena pela oposição (um amálgama viscoso que vai da presidenta nacional do PCdoB Luciana Santos ao golpista Kim Kataguiri – DEM-SP, que subscreveram o “superpedido” de impeachment), Bolsonaro lança mão da sua franquia predileta, com muito barulho, pompa e circunstância. 

Fato ou fake?

A gravidade de saúde de Bolsonaro é fato ou fake? 

Numa guerra criptografada pouco importa essa diferença. O importante é que a continuação da franquia tenha a ambiguidade necessária – desde o clássico “The Psychology of Rumor” de Gordon Allport e Leo Postman, sabemos que a ambiguidade é o fator que impulsiona rumores, boatos e, modernamente, os memes – clique aqui.

Se não, vejamos:

(a) Apesar da urgência da internação de Bolsonaro e sem data para receber alta, o vice Mourão embarcou para Angola para participar da Cúpula da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Se ele embarcou mesmo sabendo do estado de saúde do presidente, será que saberia ser tudo uma armação? Não há relevância médica? Ou tudo é apenas a confirmação de que pouco importa a vacância no Palácio do Planalto: nunca houve mesmo governo desde 2019.

(b) Em vez de dar informações sobre seu estado, Bolsonaro partiu para o tom belicoso para atiçar a tropa: “Mais um desafio, consequência da tentativa de assassinato promovida por antigo filiado ao PSOL, braço esquerdo do PT, para impedir a vitória de milhões de brasileiros que queriam mudanças para o Brasil. Um atentado cruel não só contra mim, mas contra a nossa democracia”. Bolsonaro tentar reeditar a mesma comoção daquele nebuloso 6 de setembro de 2018… nada mal para alguém que inclusive teria sido entubado para a retirada de líquido do abdômen… Claro que foi o filho Carlos Bolsonaro que digitou a mensagem. Porém, lembre-se bem: o que importa é a ambiguidade, e não mais a diferença entre fato/fake. 
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**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Wilson Ferreira

Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som). Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Linguagem Audiovisual. Pesquisador e escritor, co-autor do "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na produção cinematográfica" pela Editora Livrus.

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