Bolsonaro está vencendo – Por Rodrigo Perez

Sim, Bolsonaro está vencendo, por mais que todos os números e dados digam o contrário. Esses números e dados ajudam a avaliar governos normais. Esse governo não é normal

Pesquisas de opinião mostrando curva crescente de rejeição ao governo. Pesquisas eleitorais indicando que se as eleições fossem hoje, Lula estaria perto de vencer ainda no primeiro turno. A CPI do Genocídio transmite todos os dias, em rede nacional, o espetáculo da tragédia sanitária potencializada deliberadamente por Jair Bolsonaro. Ato de rua organizado pelas oposições, que mesmo na pandemia foram supreendentemente grandes.

Sob todos os parâmetros de eficiência e governança (desenvolvimento econômico, índices de segurança pública, combate à pandemia, política externa), a administração de Jair Bolsonaro é completo fracasso.

Como é possível dizer que Bolsonaro está vencendo? É obvio que ele está sendo derrotado.

É?

Seria óbvio se estivéssemos em tempos normais. Se o governo de Jair Bolsonaro fosse um governo normal. Nada aqui é normal. Nada está normal.

O governo de Jair Bolsonaro é sintoma do colapso estrutural da democracia liberal representativa. É consequência e não causa. Não fosse a crise democrática em curso desde 2013, Bolsonaro ainda estaria no baixo clero do parlamento, defendendo os interesses das pensionistas dos militares e elogiando a Ditadura.

Por quase 30 anos, Jair Bolsonaro usou a tribuna do parlamento para atacar a democracia. É coerente que na eleição presidencial marcada pela crise estrutural dessa mesma democracia, ele tenha se sagrado vitorioso. Vendo daqui, com algum distanciamento, era algo até previsível. Na época, poucos anteciparam que isso poderia acontecer. Não fui um deles.

Fato é que ao assumir a Presidência da República, Bolsonaro tinha duas opções:

1°) Agir como governante de direita normal, atuando por dentro das instituições, construindo base no Congresso para implementar suas agendas. Desregulamentar a economia, tocar as privatizações, respeitar acordos internacionais de defesa do meio ambiente e dos direitos humanos. Respeitar a constituição. Algo semelhante a outros governos de direita que vimos recentemente: FHC e Temer no Brasil, Macri na Argentina, Piñera no Chile e por aí vai.

2°) Aprofundar a atmosfera dentro da qual aconteceram as eleições e seguir a tendência da disruptividade, implodindo por dentro as instituições que formam o regime político fundado pela Constituição de 1988.

A essa altura do campeonato, está mais que claro que Jair Bolsonaro escolheu o segundo caminho. Talvez nem tenha sido escolha. Pela natureza de Bolsonaro, é provável que o caminho só pudesse ser esse mesmo.

Disruptividade: esse é o critério que devemos usar para analisar a eficiência/ineficiência deste governo, seu sucesso ou seu insucesso.

Bolsonaro e seus seguidores estão convencidos de que conduzem uma revolução contra a ordem sistêmica corrupta e corruptora. É a certeza e a paixão de um Robespierre.

Essa crença fez com que Bolsonaro jamais tenha tentado de fato ampliar sua popularidade para além da base orgânica, algo próximo a 25% da população. Alguns movimentos erráticos aqui e ali até aconteceram, mas a ampliação da base nunca foi prioridade.

Esses 25% são considerados o genuíno “povo brasileiro”, o “povo de bem”, os moralmente superiores. Aqueles que de fato devem ser representados, mas não pelas instituições mediadoras da democracia liberal. A representação aqui não é vista como direito coletivo e inalienável, mas sim como prerrogativa conquistada por certa conduta moral considerada superior.

O genuíno representante é o próprio chefe, o primeiro entre iguais, membro desse “povo de bem” e sobre quem recaiu a missão de regenerar a nação. O bolsonarista acredita nisso. Jair Bolsonaro acredita nisso. A crença é sincera. Por isso, são tão perigosos.

Se é assim, cabe ao governo disruptivo, pretensamente revolucionário, demolir tudo aquilo que é considerado racional, eficiente e bem sucedido pela ordem sistêmica, pelo “antigo regime”. Assim, o ENEM foi boicotado, junto com todas as políticas públicas desenvolvidas pelo MEC nos últimos anos. Medidas sanitárias são sabotadas à luz do dia. Universidades são atacadas. O sistema de justiça é aparelhado. Corporações armadas são instrumentalizadas.

O objetivo jamais foi governar de acordo com os padrões usuais de eficiência administrativa. Por isso, não faz o menor sentido taxar Bolsonaro e os seus como burros e incompetentes a partir de critérios que lhes são estranhos. Fazê-lo seria algo equivalente tentar encontrar abacate em pé de manga.

É óbvio que não nasce abacate em pé de manga.

As instituições nunca estiveram tão deterioradas. Segundo pesquisas especializadas, Bolsonaro, hoje, é apoiado por pelo menos a metade dos polícias militares. O apoio dentro da Polícia Federal, das polícias civis e das Forças Armadas também não é pequeno. O que aconteceu em Recife em 29 de maio não foi algo isolado. Em todos os estados brasileiros há indícios de insubordinação na tropa, de homens armados dispostos a perseguir opositores.

A base orgânica bolsonarista ainda está com o presidente, e não se moverá daí. Esse grupo social não é formado por militantes que se limitam a gritar “não vai ter golpe” em roda de samba. Em caso de derrota eleitoral não vão se contentar em mandar escrever “Fora Lula” no copo de chocolate quente do Starbucks. É gente com armas na mão, muitos militares da ativa, envolvidos com ações criminosas como organização de milícias.

Tudo aquilo que Bolsonaro planejou fazer ao assumir a Presidência da República está sendo feito.

Sim, Bolsonaro está vencendo, por mais que todos os números e dados digam o contrário. Esses números e dados ajudam a avaliar governos normais. Esse governo não é normal.

Nossos problemas políticos não são problemas políticos normais. Não é o tipo de coisa que se resolve com vitória eleitoral e substituição de governo.

Nada está normal.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Rodrigo Perez Oliveira

Nasceu no Rio de Janeiro em 30/01/1986, é historiador, tendo se formado na educação pública das primeiras letras ao doutorado. Vivendo em Salvador desde 2017, onde atua como professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia, o autor pesquisa a história do pensamento político brasileiro e os usos do passado no texto historiográfico e nas narrativas políticas, temas que foram explorados nos livros “As armas e as letras: a Guerra do Paraguai na memória oficial do Exército brasileiro”, publicado pela editora Multifoco em 2013, e “Conversas sobre o Brasil: ensaios de síntese histórica”, pela editora autografia em 2017.

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