domingo, 20 set 2020
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Bolsonaro, obrigado por ser o nosso presidente

“A reportagem de hoje do Jornal Nacional falando do ‘gasto’ com os servidores públicos no Brasil, com repórter, entrevistadas e fonte de dados todos alinhados com o discurso neoliberal, fica evidente porque o governo não vai cair: basta entregarem a reforma administrativa”,[1] critica a socióloga Maíra Kubík Mano.

Essas reportagens não deixam claro se o problema é o professor que entra no Estado do Rio de Janeiro recebendo cerca de R$ 1,6 mil reais mensais ou se é um Ministro do STF, que com os chamados “penduricalhos”, vê seus rendimentos ultrapassarem os R$ 100 mil.[2] É uma reportagem que tem o objetivo de depreciar o serviço público.

O estudo do Instituto Millenium (que tem como um dos fundadores o ministro Paulo Guedes) assegura que o Brasil é o 7° colocado entre os países que mais oneram o Estado, “praticamente empatado” com a França, perdendo apenas para Lituânia, Finlândia, Dinamarca, Suécia e Noruega.[3] Coincidentemente, estes países estão no topo dos menos desiguais do mundo. O Brasil, por sua vez, já é considerado um dos mais desiguais. Ou seja, o problema não é a oneração do Estado, mas sim a posição do país no sistema mundo. Um Estado competente sabe canalizar bem os recursos e cobrar mais dos ricos.

A reforma tributária seria muito mais significativa que uma reforma administrativa. Esta última seria viável se equilibrasse mais os salários e não apenas desencadear na privatização de diversos setores públicos. Já somos incompetentes para lidar com a pandemia, imagine sem o SUS? Os servidores não devem pagar pela incompetência de quem administra o Estado.

Mas se trata de um projeto de poder traçado em 2014 (que tem suas origens nos finais da ditadura civil-militar) que só poderia ser alcançado se Bolsonaro fosse eleito. Após perder as eleições, a mídia fez uma campanha fortíssima para demonizar a esquerda. Das diversas notícias sobre corrupção, 95% citavam o PT, e apenas 5% o PSDB.[4] O projeto de poder do PT não se mostrava muito eficiente para promover um Estado fraco, por isso foi necessário o golpe.

Não havia outra forma de enfraquecer o PT a não ser por essa forte dramatização do poder judiciário, um conluio entre juízes e jornalistas, financiado por empresários, para destruir o partido.

Do ódio criado pela mídia, surgiu Bolsonaro. A Globo e a Lava Jato o pariram. Guedes, o economista da Globo, e Moro, o juiz da Lava-Jato fazem/fizeram parte do governo.  Bolsonaro acabou se tornando útil pelo fato de ter conseguido concentrar em sua imagem o anverso petista, permitindo (e esse é o ponto nevrálgico da questão) que as corporações Globo também pudessem criticá-lo.

Vende-se a imagem da imparcialidade em meio à uma polarização que o próprio conglomerado midiático ajudou a fabricar. Vende-se hipocrisia.

A emissora agora mobiliza todos os seus tentáculos para demonizar a imagem de Bolsonaro. O presidente, que ela contribuiu diretamente para eleger, vem sendo alvo de severas críticas no Jornal Nacional principalmente pela forma trágica que o governante vem conduzindo a pandemia.

Montou-se, finalmente, um cenário perfeito para que o projeto de poder defendido pelas corporações midiáticas, poder judiciário e empresários vencesse. O ódio que se forjou contra o PT pode enfraquecê-lo nas urnas em 2022. Bolsonaro também pode ter sua imagem bastante desgastada no momento do pleito presidencial. A única opção viável seriam os velhos caciques da direita neoliberal que hoje tem seus representantes em Doria, Rodrigo Maia, Luciano Huck etc..

Entre o ruim (PT) e o mais ruim ainda (Bolsonaro), a opção seria um indivíduo que representasse esse projeto de poder que visa enfraquecer o Estado e entregar o país ao comando do mercado financeiro de uma vez por todas.

Talvez, se um representante direto do neoliberalismo vencesse logo após o golpe, um cenário para 2022, que pudesse continuar este projeto, não seria possível, desgastar-se-ia prematuramente, principalmente após a pandemia que mostrou a falta que um Estado competente faz.

A Globo portanto agradece a Bolsonaro toda vez que o critica. E entre uma crítica e outra revela seu projeto de poder como solução para o país. Porque será que uma pesquisa como esta veio à tona em plena crise desencadeada pela pandemia mundial?


[1] https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/jornal-nacional-da-materia-desonesta-sobre-gastos-de-servidores-publicos-com-dados-do-instituto-millenium/

[2] https://www.google.com/amp/s/noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2018/12/02/ministros-do-stf-ganharao-18-vezes-mais-que-brasileiro-medio-em-2019.amp.htm

[3] https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/economia/noticia/2020/08/10/brasil-e-o-7o-pais-que-mais-gasta-com-servidor-valor-e-35-vezes-despesas-com-saude-diz-instituto.ghtml

[4] https://diplomatique.org.br/dar-um-sermao-para-o-mundo-ou-transforma-lo/

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

Raphael Silva Fagundes
Raphael Silva Fagundes
Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.