Bolsonaro usa o microempreendedor como massa de manobra – Por Raphael Fagundes

Abrir os olhos do pequeno comerciante é um caminho importante para pôr fim a esse governo tirânico. Apresentar projetos consistentes para esse setor resolveria muito dos problemas nacionais.

A aversão às medidas de isolamento social é empresarial. Bolsonaro é a máscara, o caminho político, a ficção que nos separa do empresariado. Ele se diz contrário às medidas restritivas para agradar esse setor e arrancar dele votos, já que sua política econômica, em si, é medíocre até mesmo para os mais interessados em vender o país.

Se quisermos chegar à raiz do problema, precisamos denunciar o capital. Precisamos deixar por um instante os elementos ideológicos e morais que turvam o cenário político atual.

Da classe empresarial, o pequeno empreendedor (maioria esmagadora neste setor) é o mais vulnerável. Dependendo de sua loja, do seu pequeno armazém, de sua pequena academia, para viver. Esse trabalhador se posiciona contra o lockdown porque sabe que irá perder dinheiro. O grande empresário até perde, mas nem tanto. O problema é que o pequeno acha que será grande um dia, desde que trabalhe. O lockdown o impediria de alcançar essa utopia.

Eles são a maioria da classe empresarial, embora estejam muito mais perto do proletariado do que do burguês. É essa massa, que endeusa a burguesia, que a tem como ídolo, que, enfim, será o grande eleitor de Jair Bolsonaro em 2022.

Eles não são os genocidas, pois agem movidos pela utopia, por uma ideologia da meritocracia que promete a ascensão e a riqueza. Os genocidas são as grandes corporações avessas ao isolamento. São os empresários que de suas mansões, sítios e fazendas, defendem a abertura do comércio, pondo em risco o povo que circula pela cidade em transportes superlotados.

O pequeno empreendedor é apenas massa de manobra. Ele mesmo, em muitos casos, é o trabalhador, é quem pega ônibus lotados. Muitos deles nem registram o próprio comércio devido às dificuldades judiciais e prejuízos decorrente de impostos. Nesta categoria também podemos incluir os autônomos, um empresário tão micro que sua empresa se resume a ele mesmo.

“Em 2019, a GEM apontou que o país atingiu 23,3% de taxa de empreendedorismo inicial, considerada a maior marca até agora e o segundo melhor patamar total de empreendedores (38,7% da população adulta, entre 18 e 64 anos) desde 2002, primeiro ano da série histórica desta variável”.[1] É provável que a maior parte destes adultos seja dona de uma pequena ou micro empresa, já que dificilmente abre-se uma empresa já no topo desta cadeia.

Grande parte dos apoiadores de Bolsonaro é proveniente do setor empresarial, o setor que se une como classe. Das grandes corporações que apoiaram Bolsonaro, como Havan, Riachuelo, Tecnisa, Centauro, Postos Ipiranga, Coco Bambu, Liserve, Habbib´s, entre outros, um apoio considerável de uma parcela de empresários que representa aproximadamente 30% do PIB brasileiro[2], passando pelos canais de TV (SBT e Record), pelas entidades religiosas evangélicas, onde muitos defendem a permanência das igrejas abertas, temos uma classe de apoio mais próxima da base social, isto é, o pequeno e o microempreendedor e os uberizados que têm a audácia de se intitularem empresários.

Bolsonaro acaba tendo uma boa imagem nestes grupos “proletarizados” mesmo sem nada fazer por eles. Não há nenhum investimento no pequeno empreendedor (nem na base da hierarquia militar, nem no fiel das igrejas), embora seja o setor que mais gera emprego no Brasil. Pelo contrário, legalmente montar uma empresa é extremamente dispendioso. Mas a necessidade de autopreservação mediante a uma burguesia que desaparece na invisibilidade (fruto do aumento da desigualdade), o pequeno empreendedor se prende a representação do mundo que forjaram para ele. Agarra-se ao que é possível, e no mundo atual, onde nada se fala para resolver o seu problema, agarra-se ao que chega mais próximo, mesmo que seja inconsequente.

Bolsonaro tem um grande poder de adesão por ser uma liderança que defende ideias que nenhuma outra defende. Que liderança política de peso se coloca contra a vacina, defende a ditadura, a facilidade de acesso a armas, bater em crianças, um Ministério da justiça habitado por um religioso, etc.? Bolsonaro é o único representante destas ideias.

Por outro lado, nós temos uma gama de políticos dos mais variados espectros que defende a liberdade sexual, que se posicionam contra o racismo, que defende a intervenção do Estado na economia ou a liberdade do mercado. Há uma dificuldade de escolher um líder progressista devido a essa variedade.

Este aspecto faz com que Bolsonaro tenha um público fiel. O pequeno empreendedor foi cooptado pelo político conservador por este ter adicionado ao seu repertório de ideias absurdas, a oposição ao lockdown (ideia igualmente absurda), por meio da hipócrita ideia de se intitular defensor do trabalho.

Muitas pessoas acabam aderindo às ideias absurdas que antes não concordavam, pois as necessidades econômicas, da manutenção da renda, e até a necessidade de não cair na miséria, levam muitos “desesperados” a adotarem medidas inconscientemente.

Bolsonaro quer se reeleger e para isso adota ideias singulares, mesmo que bizarras, para conseguir seguidores. É um procedimento maquiavélico, por isso, eficiente. Não quer saber se equipara os princípios do amor cristão com os desejos sádicos de tortura similares aos dos tiranos romanos. Atira-se para todos os lados.

É preciso alertar essas camadas médias para o fato de que o governo Bolsonaro quer a manutenção das grandes corporações. Que estes trabalhadores autônomos estão sendo usados para a proteção de um sistema que piora as suas condições e não o contrário. São convencidos pelo governo porque acreditam que assim estão salvando da ruína sua própria existência como camadas médias. Caem no engano ao cair na ambição efêmera do presente, sem pensar nos interesses futuros.

Abrir os olhos do pequeno empreendedor é um caminho importante para pôr fim ao governo tirânico de Jair Bolsonaro. Apresentar projetos consistentes para esse setor resolveria muito dos problemas nacionais, já que é o que gera mais empregos e também por ser o mais vulnerável da classe empresarial.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.


[1] https://www.google.com/amp/s/revistapegn.globo.com/amp/Noticias/noticia/2020/06/brasil-deve-atingir-marca-historica-de-empreendedorismo-em-2020.html

[2] https://www.justificando.com/2019/11/18/setores-empresariais-que-apoiam-governos-de-extrema-direita/

Avatar de Raphael Silva Fagundes

Raphael Silva Fagundes

Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.