Borba “Gado”: Bolsonaristas descobrem que bandeirante era assassino e já o apoiam

O substrato de toxina social que segue o presidente ficou sabendo que o cara da estátua matava índios e negros e isso foi o suficiente para venerá-lo. Eles já falam em “bolsonarismo colonial” – Por Henrique Rodrigues

Era hora do almoço de um sábado ensolarado quando um grupo de manifestantes ateou fogo, com pneus, na horrenda estátua (em todos os sentidos) do bandeirante Borba Gato, que fica no distrito de Santo Amaro, em São Paulo.

A notícia, e os vídeos com enormes labaredas, correram o Brasil e despertaram as mais distintas reações. Os setores mais progressistas, que empreendem uma árdua luta pelo resgate da história de indígenas e negros que foram vítimas do genocídio perpetrado durante a Colônia e o Império (que segue na República) foram majoritariamente a favor da queima do monumento, enquanto outros, não necessariamente reacionários, tentavam argumentar que não se deveria destruir o patrimônio histórico, mas sim discuti-lo com as novas gerações.

Em meio a esse carrossel de opiniões e abordagens, é óbvio, surgiram as hostes do bolsonarismo, os prelados da ignorância e da estupidez, que correram para o Google para descobrir quem foi Manuel de Borba Gato (1649-1718).

Ao tilintar do primeiro clique descobriram que se tratava de um bandeirante, nome dado aos “corajosos desbravadores” que rumavam os sertões do Brasil Colônia adentro, para “conquistar” novas terras para a Coroa Portuguesa e explorá-las. Só que eles não eram exatamente aventureiros da National Geographic, com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão, filmando veredas e passarinhos de cores exóticas.

Os chamados bandeirantes, que comandavam expedições em nome do Reino para expandir os territórios fisicamente sob controle de Portugal, as tais “bandeiras”, iam pelo caminho matando barbaramente indígenas e extinguindo populações inteiras desses povos originários, pegando alguns para escravização, juntamente com os negros que já eram seus cativos.

Meus caros, foi só o substrato de toxina social que ampara ideologicamente Jair Bolsonaro descobrir que o homem da estátua era um facínora assassino que o apoio à sua memória brotou como água da mina. Se o sujeito é um genocida que elimina outras etnias não brancas para dominar áreas de mata e floresta e explorá-las economicamente, ele só pode ser uma espécie de precursor da política do presidente entupido.

Eureka! Já se fala em “bolsonarismo colonial”.

A partir daí, todo tipo de defesa apaixonada, travestidas de conhecimento histórico (adquirido nos últimos 15 minutos na Wikipédia), passou a pipocar pelas timelines do ciberespaço, pois afinal, o bolsonarismo é isso mesmo: a proteção e o resguardo de todo tipo de concepção canalha, abusiva, violenta e resultante do mau-caratismo desavergonhado.

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A identificação com o cara da estátua foi tão grande que mudar seu nome para Borba “Gado” não está descartado pelos fiéis seguidores da seita verde-amarela.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Henrique Rodrigues

Jornalista e professor de Literatura Brasileira.

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