Como fazer com que as pessoas gostem de mim – Por Ingrid Gerolimich

Não pretendo trazer algo na linha dos “10 truques infalíveis para fazer com que gostem de você”, mas sim promover uma reflexão sobre como anda o equilíbrio entre o que estamos dispostos a doar de nós e aquilo que desejamos receber em troca.

Para que perguntas as pessoas andam querendo respostas quando fazem suas buscas no Google? O ano é 2020 e eu fiquei me perguntando, em um período tão emblemático, quais questões estariam no ranking de pesquisas mais procuradas da plataforma? Para quais temas estaríamos dando maior atenção?

Era só uma curiosidade, mas ao olhar o último levantamento referente ao ano passado sobre o Brasil, uma busca em particular me chamou bastante a atenção. Entre perguntas do tipo “como fazer álcool gel?”, ou “como fazer live no Instagram?”, estava lá ela, ao mesmo tempo tímida e escancarada, a pergunta que me despertou sentimentos tão profundos e antagônicos: “COMO FAZER COM QUE AS PESSOAS GOSTEM DE MIM?”

E como se não bastasse o impacto da pergunta entre as mais procuradas, me aprofundo nos resultados: páginas e mais páginas repletas de truques, receitas e até mesmo simpatias dispostas a nos ensinar a como nos tornarmos atraentes ao olhar de aceitação e afeto do outro.

Fiquei pensando que, se em meio a um cenário social caótico provocado por uma pandemia de proporções incalculáveis, uma das perguntas mais realizadas pelos brasileiros no Google foi “como fazer com que as pessoas gostem de mim?”, penso que isso deve estar querendo nos dizer alguma coisa sobre como estamos nos relacionando, vocês não acham? Mas, o que seria?

É verdade que parte do processo de identificação a respeito de quem somos tem a ver com o nosso espelhamento diante do alguém. Isso significa que toda personalidade se constitui a partir de um processo permanente de elaboração das interações entre o eu e o Outro. Mas até onde temos permitido que a nossa autovalidação se dê a partir do olhar que alguém imprime sobre nós?

Somos animais políticos, como dizia Aristóteles, que buscou dizer com isso que é intrínseco à natureza humana viver em sociedade, sugerindo, inclusive, que a felicidade está atrelada ao cultivo de certas virtudes ético-políticas capazes de promover a boa convivência humana, como os laços de amizade, por exemplo. Sob este aspecto, a busca pela aceitação do outro tem a ver com a valorização e o desejo de uma vida em comunidade e tudo aquilo que representa um modo de viver comunitário.

Será este o nosso caso atualmente?

Nos dias de hoje, a solidão tem sido um tema cada vez mais presente nas rodas psicanalíticas e, inclusive, tem sido tratada como um problema de saúde pública em inúmeros países, já considerada por muitos uma espécie de epidemia.

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Aqui deixo minha provocação diante daquilo que entendo como uma contradição: se somos seres sociais e estamos sempre buscando a aceitação do outro para validar a nossa existência, como podemos nos preocupar tanto em conquistar o afeto do outro, ao passo que caminhamos para um mundo cada vez mais solitário e menos comunitário?

Tem uma frase do Renato Russo que diz que “o mal do século é a solidão. Cada um de nós imerso em sua própria arrogância esperando por um pouco de afeição” e ela me leva novamente ao animal social proposto por Aristóteles, onde busco uma comparação com os animais sociais que somos na atualidade, e penso que boa parte dessa diferença está no fato de que, apesar de seguirmos dependentes da aceitação do outro, esta carência tem muito menos a ver com o desejo da vida comunitária e da construção de laços como os de companheirismo e amizade e mais a ver com a necessidade de nos sentirmos especiais, “únicos” diante da maioria.

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Essa é a idéia do que é ser aceito em uma sociedade marcada por traços cada vez mais narcísicos e individualistas. Quero dizer que não há nada de errado em cultivar um ego saudável, mas o que temos visto é o efeito oposto, pessoas cada vez mais doentes e desamparadas emocionalmente por sentirem na maior parte do tempo que não são bonitas o suficiente, ricas o suficiente, inteligentes o suficiente, etc.

Por isso, duvido muito que receitas e simpatias milagrosas possam dar conta de resolver um problema que não é de ordem individual, mas coletiva. Afinal, quem procura se sentir aceita ou aceito talvez não se dê conta de que não há necessariamente algo de errado em si, mas sim na forma como estamos buscando algo que pressupõe troca, entrega, comprometimento para suprir uma falta que é de ordem da egolatria, do culto ao EU, do humano como produto para consumo e não como esse animal social que deve estar sempre em busca do autodesenvolvimento, o que lhe trará a atenção e o afeto do Outro como consequência.

Não pretendo, portanto, trazer aqui algo na linha dos “10 truques infalíveis para fazer com que gostem de você”, mas quero promover uma reflexão sobre como anda esse equilíbrio entre o que estamos dispostos a doar de nós e aquilo que desejamos receber em troca e, não menos importante, sobre se estamos de fato buscando laços reais de interação ou apenas preenchendo uma necessidade culturalmente construída de nos sentirmos “vendáveis” frente a uma sociedade que transforma todas as relações em trocas comerciais.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Ingrid Gerolimich

Socióloga, antropóloga, pesquisadora na área de políticas públicas pela UFRJ e fundadora do Instituto Motriz.

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