Conhecendo os Evangélicos Progressistas: Magali Cunha – Por pastor Zé Barbosa Jr

Uma das maiores ações contra a disseminação de fake News entre a comunidade evangélica no Brasil, foi idealizada e coordenada por Magali

Foto: Arquivo pessoal
Escrito en OPINIÃO el

Continuando nossa série de entrevistas com evangélicos progressistas, tenho a honra de entrevistar agora a queridíssima Magali do Nascimento Cunha, com certeza a maior pesquisadora evangélica sobre a tríade Religião-Política-Mídia. Magali é jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. Além disso, é pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. E também escritora, palestrante, idealizadora e uma das coordenadoras do Coletivo Bereia, um coletivo formado por evangélicos para a denúncia e reparação de fake News, principalmente as que envolvem questões religiosas.

Magali avalia, como pesquisadora sobre “religião e política” há muitos anos, que “não é difícil observar que lendo, assistindo e ouvindo o que se torna público, em espaços acadêmicos, jornalísticos e populares, ainda há muita incompreensão e equívocos. Em parte, estes são provocados pelo desconhecimento da história e das dinâmicas que envolvem religiões no país, por outro lado são movidos por imaginários e preconceitos.” E esse é um dos dados mais importantes apontados pela nossa entrevistada. Para ela, “grupos religiosos no espaço público precisam ser vistos como indício do próprio avanço da democracia (...) O que deve ser questionado e enfrentado como ameaça ao Estado laico, é que um único grupo religioso imponha sua teologia e ética religiosa como regra para todos, sejam religiosos (com toda pluralidade que vivenciam) e não-religiosos.

Para a doutora em Comunicação, segundo uma pesquisa realizada por ela em quatro países da América Latina, existe “a necessidade de uma autocrítica dos grupos progressistas de terem subestimado a capacidade de alcance dos fundamentalismos e da falta de diálogo e articulação entre eles próprios” e é necessário “ouvir as pessoas que estão nas bases, nas comunidades e aprender com elas sobre suas necessidades e suas afinidades. A partir daí desenvolver projetos de comunicação dos conteúdos que representam as pautas progressistas para que possam ser assimilados de acordo com a vida dessas pessoas”, principalmente na questão da linguagem, coisa que os fundamentalistas fazem muito bem.

Uma das maiores ações contra a disseminação de fake News entre a comunidade evangélica no Brasil, foi idealizada e coordenada por Magali: é o COLETIVO BERÉIA, uma iniciativa que completa dois anos agora em 2021 e parte da necessidade de se combater esse que é um dos piores males dos nossos tempos: a enxurrada de notícias falsas, e é a única iniciativa de “fast-cheking” especializada em religiões. O Coletivo BERÉIA leva esse nome numa referência à cidade homônima, na Macedônia, citada no livro dos Atos dos Apóstolos. Os moradores da cidade são elogiados por “conferirem com as Escrituras” tudo que era ensinado pelo apóstolo Paulo.

Desde então é importantíssimo que muita gente tenha acesso e seja cada vez mais divulgada a ação desse coletivo, ainda mais em tempos de campanha política onde a esquerda é sempre alvo das mais absurdas invenções e acusações, fruto de institutos e instituições que têm como único objetivo a perpetuação e ampliação de sistemas opressores, ditaduras e governos que dilacerem os Direitos Humanos. Ações como o COLETIVO BEREIA merecem toda a nossa consideração e apoio.

Para Magali, a mídia erra ao tratar os evangélicos como uma massa homogênea. “há muita ignorância e ideologização ao mesmo tempo. (...) Não há formação nas escolas de jornalismo sobre o tema, muitos profissionais não se interessam em pesquisar e aprender e acabam cometendo equívocos frequentes. A resistência ao aprendizado pode advir, boa parte das vezes, do próprio imaginário. Jornalistas são pessoas que têm visões de mundo, formação cultural, histórias de vida, nas quais está ou não a religião. Sua forma de cobrir um tema referente a religião terá a interferência deste imaginário sobre grupos religiosos podendo ser embasado em uma visão positiva, negativa, profunda, rasa, apoiadora, resistente.” É importante, para nossa entrevistada, portanto, que essa multiplicidade evangélica seja cada vez mais exposta em jornais, revistas, blogs e tantos meios de comunicação de massa em nosso país.

Por fim, Magali deixa aos leitores da Fórum a esperança de que “tomemos este tempo como um momento de aprendizado e preparação. Vivê-lo como uma oportunidade de mudança. Parafraseando o poeta, um novo tempo apesar dos castigos, dos perigos, da força bruta, em que estejamos crescidos, atentos, mais vivos para nos socorrer, a fim de que nossa esperança seja mais que vingança. Afinal, estamos na luta para sobreviver aos desertos!”

É isso, Magali, estamos mais vivos, pra nos socorrer, pra sobreviver!

Quem quiser seguir Magali Cunha nas redes sociais, basta acessar:

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E para quem quiser (e eu recomendo muito!) conhecer o trabalho do Coletivo Beréia:

https://coletivobereia.com.br/

LEIA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA

Magali, você é hoje um dos nomes mais citados e respeitados por conta de sua pesquisa ininterrupta sobre mídia, política e evangelho. Como você enxerga (e eu sei que essa é uma pergunta ampla) essa trilogia na realidade brasileira?

A relação entre religião e política, presente no Brasil desde 1500, quando a Igreja Católica aportou nestas terras com os colonizadores portugueses, deixou de ser unicamente objeto de estudos acadêmicos e ganhou as páginas de jornais e revistas e discussões populares em mídias sociais e outros espaços.

Fala-se muito do que alguns chamam de “ameaça” evangélica, outros, ao contrário, de “bênção de Deus”. As avaliações díspares respondem à intensificação da presença de cristãos na política, estimulada pela aliança do governo Bolsonaro com lideranças deste segmento religioso. Este processo tomou a forma da ocupação de cargos no Poder Executivo, rearticulação de alianças o Poder Legislativo, e a emersão de personagens do Poder Judiciário identificados com a fé cristã que interferem em políticas e realizam ações públicas (vide a controversa Operação Lava Jato).

Esta ênfase no poder alcançado pela parcela ultraconservadora do segmento evangélico, é, de fato, necessária nesta discussão sobre religião e política. Há uma trajetória de quase 35 anos da existência de uma “bancada evangélica” no Congresso Nacional. Ela foi potencializada durante a presidência de Eduardo Cunha (MDB/RJ) na Câmara dos Deputados, por conta da ênfase em pautas da moralidade sexual e defesa da “família tradicional”. E foi esta potência da religião no Congresso, que uniu forças com uma direita ressentida, nada religiosa, para tirar Dilma Rousseff da Presidência, no já consagrado, historicamente, golpe contra a democracia de 2016.

Não é surpresa que candidatos e profissionais de marketing tenham detectado há algum tempo a tendência, e, a cada eleição, seja frequente a prática de "pedir a bênção" a líderes evangélicos identificados tanto com a direita como com a esquerda política. Também são recorrentes as pressões sobre candidatos e partidos, que nada têm de religiosos, a assumirem compromissos com a defesa de pautas da moralidade religiosa, em clara instrumentalização da religião cristã para conquista de corações e mentes de fiéis.

Porém, quando quem discute se fixa apenas neste protagonismo evangélico, esconde o debate necessário sobre o lugar do Catolicismo e sua influência nas pautas públicas por séculos. Oculta também a presença das religiões de matriz africana no espaço público e sua demanda por liberdade religiosa, por superação da intolerância e por direitos da população afrodescendente. E ainda se menospreza o espaço ocupado por pessoas e grupos vinculados ao Espiritismo e ao Judaísmo, com a eleição de pares para cargos públicos e busca de influência em temas de interesse.

Como pesquisadora sobre “religião e política” há muitos anos, não é difícil observar que lendo, assistindo e ouvindo o que se torna público, em espaços acadêmicos, jornalísticos e populares, ainda há muita incompreensão e equívocos. Em parte, estes são provocados pelo desconhecimento da história e das dinâmicas que envolvem religiões no país, por outro lado são movidos por imaginários e preconceitos.

Grupos religiosos no espaço público precisam ser vistos como indício do próprio avanço da democracia (com ambiguidades, é claro) e da pluralidade religiosa relacionada ao direito humano da liberdade de crença. O que deve ser questionado e enfrentado como ameaça ao Estado laico, é que um único grupo religioso imponha sua teologia e ética religiosa como regra para todos, sejam religiosos (com toda pluralidade que vivenciam) e não-religiosos. Da mesma forma, o Estado laico também está em perigo quando princípios religiosos são instrumentalizados por líderes e grupos políticos com vistas à busca de votos ou de apoio a implementação de necropolíticas. Neste caso é a laicidade do Estado e a democracia que de fato, estariam colocados em risco. 

O que falta, a seu ver, para que o campo cristão progressista avance nessa disputa de mentes e narrativas frente ao avanço quase incontrolável do pensamento fundamentalista nas igrejas brasileiras?

Fiz uma pesquisa em 2020 sobre o avanço dos fundamentalismos político-religiosos em quatro países da América Latina – Brasil, Argentina, Colômbia e Peru. Entrevistei 21 especialistas, que estudam o tema, e reuni mais de 40 ativistas de direitos humanos, a maioria relacionada às igrejas. Eu fiz esta mesma pergunta e reuni a respostas, acrescentando o meu olhar. A síntese que quero compartilhar aqui indica três pontos muito importantes: 1) a necessidade de uma autocrítica dos grupos progressistas de terem subestimado a capacidade de alcance dos fundamentalismos e da falta de diálogo e articulação entre eles próprios. Nesta autocrítica, as igrejas e organizações cristãs precisam reconhecer que não adotam políticas de justiça de gênero como deveriam, e, por vezes concordam com visões de mundo conservadoras sobre o papel da mulher, reforçando assim as desigualdades de gênero. 2) a necessidade de retomar a formação da consciência crítica, com programas de educação popular e de comunicação alternativa. Nesse sentido, importa aprender a ouvir pessoas nas suas bases e trabalhar a memória e a história de grupos religiosos e movimentos sociais e seus efeitos no presente. Nessa formação, é preciso dar visibilidade à economia refletida a partir da visão feminista e das comunidades tradicionais, a economia solidária, e desnudar o campo conservador e fundamentalismos: o que são e o que fazem como funciona sua máquina: sua história, seus grupos desenvolvidos, suas alianças e financiamentos. Identificar com quem se pode dialogar para construir um campo alternativo e com quem não há diálogo. 3) Ouvir as pessoas que estão nas bases, nas comunidades e aprender com elas sobre suas necessidades e suas afinidades. A partir daí desenvolver projetos de comunicação dos conteúdos que representam as pautas progressistas para que possam ser assimilados de acordo com a vida dessas pessoas. Isto inclui lidar com a emoção (coisa que fundamentalistas fazem muito bem) e com uma linguagem acessível e coerente com o cotidiano das comunidades. Implica também um uso adequado das tecnologias digitais, humanizando-as.

Você acha que a mídia brasileira ainda trata os evangélicos como “uma só massa”? Como furar esse bloqueio (se ele existe) e levar à sociedade brasileira, não só os evangélicos, a conhecer o trabalho dos progressistas?

Sim, há muita ignorância e ideologização ao mesmo tempo. Escrevi recentemente sobre isto. A defasagem de jornalistas na cobertura de religião é significativa. Não há formação nas escolas de jornalismo sobre o tema, muitos profissionais não se interessam em pesquisar e aprender e acabam cometendo equívocos frequentes. A resistência ao aprendizado pode advir, boa parte das vezes, do próprio imaginário. Jornalistas são pessoas que têm visões de mundo, formação cultural, histórias de vida, nas quais está ou não a religião. Sua forma de cobrir um tema referente a religião terá a interferência deste imaginário sobre grupos religiosos podendo ser embasado em uma visão positiva, negativa, profunda, rasa, apoiadora, resistente.

Muita gente é formada no imaginário da religião dominante do Brasil, a Católica. A colonização religiosa é forte nestas terras e muita gente imagina qualquer outra religião a partir do que conhece do Catolicismo no qual foi formado direta ou indiretamente. Afinal, o Brasil parou ontem para celebrar uma santa, católica, e mesmo quem tem outra religião é obrigado a ter feriado. Portanto, muitos jornalistas imaginam evangélicos a partir da formação católica direta ou indireta que recebem. Não admitem uma religião que não tenha um Papa, um líder que hierarquicamente a conduz. Por isso, credenciam o pastor Malafaia.

Por fim, há o elemento da afinidade ideológica. Se Bolsonaro, Feliciano, Damares, Malafaia representam uma parcela conservadora da sociedade brasileira, é possível reconhecer uma afinidade entre estes líderes e quem produz e emite conteúdo nas mídias. Isto explicaria a indiferença do noticiário às controvérsias em torno de Silas Malafaia entre os próprios evangélicos. Malafaia fala sozinho nas notícias.

Se o conservadorismo evangélico tem suas marcas na política com as reações aos avanços no campo dos direitos sexuais e reprodutivos e das comunidades tradicionais, o conservadorismo midiático se revela na forma como o noticiário despreza avanços nas relações políticas com os movimentos sociais e reage à concessão de direitos às classes desprivilegiadas, atuando pela manutenção do status quo. Identificam-se, portanto, afinidades eletivas entre o jornalismo veiculado pelas grandes mídias e as lideranças evangélicas em destaque na política. O destaque midiático a Silas Malafaia e o silenciamento da dissonância entre evangélicos podem ser compreendidos por este viés.

Evangélicos não têm representantes, diferentemente dos católicos que têm uma igreja centralizada. Evangélicos são fragmentados e plurais. Dado o contexto de força política deste grupo hoje, muitos líderes falam em nome do segmento e os beneficiados politicamente com esta fala, como é o caso do mandatário brasileiro, reverberam isto. Fica-se, então, com o discurso hegemônico, neste caso o conservador.

Duas urgências emergem destes elementos apontados aqui: 1) os evangélicos que têm uma visão crítica do uso político da fé cristã precisam assumir suas raízes protestantes e erguer sua voz; 2) que os produtores de notícias superem o engano da apresentação dos evangélicos como um grupo homogêneo e rechacem tendências unificantes de um segmento formado por uma expressiva variedade de grupos, tornando nítidas e notórias as diferentes posturas e projetos deste segmento no espaço público. 

Você, como eu, tem uma coluna em uma revista de viés democrático “de esquerda”. Ainda Assim são poucos os espaços de opinião dados a cristãos evangélicos ditos progressistas em veículos de comunicação de massa. Como furar essa bolha?

Creio que o melhor caminho seja insistir com a exposição pública das pessoas e grupos progressistas para chamar a atenção dos veículos de comunicação sobre a defasagem deles mesmos. Nossos textos que já buscam fazer isto devem continuar ecoando e toda e qualquer oportunidade de entrevistas, participação em eventos de qualquer natureza e publicações em mídias sociais. Ocupar todo e qualquer espaço. Recebi críticas quando o Jornal O Globo deu espaço em uma coluna na editoria Sociedade para tratar sobre religião uma vez por mês. A crítica era: “mas, O Globo? São conservadores, apoiaram a ditadura, jogam contra a esquerda!”. É fato, mas é um órgão jornalístico credenciado, e se o espaço está dado e vai alcançar pessoas, ele tem que ser ocupado. Só devemos recusar oportunidades que são armadilhas de grupos que transformam o conteúdo em desinformação, como a programação da Jovem Pan, por exemplo. Não é um veículo credenciado. Usa as pessoas progressistas que são ali convidadas em exposições constrangedoras. Ali não vale a pena. É preciso sabedoria para ocupar os espaços que valham a pena.

Você foi uma das idealizadoras do Coletivo Beréia, que é uma iniciativa pra lá de importante no confronto das fake News criadas, principalmente, pelo e para o povo evangélico. Fale mais desse projeto tão essencial nesse momento:

O projeto celebra dois anos de atuação em 2021 e é a única iniciativa de fact-cheking especializada em religiões. O Coletivo Bereia – Informação e Checagem de Notícias foi criado em 2019 por jornalistas e pesquisadoras/es para fazer checagem de conteúdos publicados em espaços cristãos. O nome Bereia é simbólico para quem lê a Bíblia. Faz referência a uma cidade grega, localizada na região da Macedônia, citada no livro dos Atos dos Apóstolos, capítulo 17. O texto registra um elogio aos judeus de Bereia, que participavam das reuniões promovidas por cristãos, não apenas por sua abertura para ouvir os novos ensinamentos. Os bereanos foram reconhecidos porque, eles mesmos, examinavam as Escrituras, diariamente, para verificar se o que o apóstolo Paulo e seus companheiros diziam estava correto.

O Coletivo afirma ter consciência de que são muitas as várias iniciativas de agências, sites e coletivos que prestam serviços de verificação diante da realidade tão desafiadora da propagação intensa de desinformação. No entanto, Bereia oferece uma especialidade ainda não desenvolvida por outro grupo: a checagem de notícias veiculadas nos espaços de mídias e lideranças religiosas, que têm o público cristão como alvo. O Coletivo atua ainda na verificação dos pronunciamentos dos políticos que se identificam como religiosos e que estão tão em evidência no cenário político hoje.

A equipe do Bereia, formada por jornalistas, estudantes de comunicação e outros voluntários interessados na busca de superação da desinformação. É verificado se os conteúdos propagados são informativos (verdadeiros) ou desinformativos (imprecisos, enganosos, inconclusivos ou falsos).

Além da verificação de conteúdo, o Coletivo Bereia tem a seção “Areópago”, que oferece a leitores/as textos para estudo e reflexão que tratam de informação e desinformação e, também, de temas da conjuntura presentes nas seções “Checamos” e “Torre de Vigia”. A formação ou trabalho educativo é uma das frentes de atuação do Bereia. Temos oferecido palestras, cursos e participado em eventos para propagar nossas reflexões sobre desinformação e método de suspeita e verificação que pode ser realizado pelas pessoas em geral.

A iniciativa é apoiada pelas organizações Agência Latino Americana e Caribenha de Comunicação (ALC); Associação Católica de Comunicação - Brasil (SIGNIS); Associação Mundial para a Comunicação Cristã - América Latina (WACC-AL, na sigla em inglês); Grupo de Pesquisa Comunicação e Religião da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (GP Comunicação e Religião - Intercom); Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e Paz e Esperança Brasil. O Bereia integra ainda Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD). O Coletivo tem, ainda, parceria com a Rede Católica de Rádio, por meio da veiculação do quadro semanal “Joio ou Trigo?” no jornal Brasil Hoje da rede, e com o Projeto Comprova, por meio do Comprova + Comunidades, no acompanhamento do processo das eleições municipais de 2020.

O Bereia começou já muito bem sucedido pelo ineditismo do projeto e a qualidade do que conseguimos desenvolver. Isto nos deixa muito animados, mas conscientes da responsabilidade com a nossa fidelidade à proposta.

Quais são as ações propostas e projetos futuros do Coletivo Bereia?

Estamos trabalhando, com o apoio da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), no aperfeiçoamento do nosso site. Nele publicamos as verificações de conteúdo que fazemos e reflexões e estudos que alimentem práticas de superação da desinformação. Este site foi criado de forma bastante básica para que o Bereia pudesse iniciar sua atuação, dois anos se passaram e já ampliamos bastante a forma de trabalho e aperfeiçoamos a metodologia de verificações: isto precisa ser refletido no espaço digital. Como somos um Coletivo de voluntários – apenas o editor executivo recebe uma bolsa para fazer o trabalho fundamental de atualização do site e articulação das equipes de monitoramento e verificação e o atendimento das parcerias – o apoio financeiro da CESE para o refinamento do site é importantíssimo. Esperamos concluí-lo neste novembro.

Queremos investir também na ampliação da nossa presença em mídias sociais, chegando mais perto do público-alvo, as pessoas religiosas. A CESE também está apoiando nossa reorganização neste sentido. Com isso também esperamos estender o oferecimento de palestras e cursos, dinamizando, inclusive o nosso canal do Youtube, para ter ali uma biblioteca de conteúdo tornado disponível ao público em geral.

Como evangélica e progressista, que mensagem você deixa para os leitores da Fórum?

O quadro que temos do Brasil no presente é dramático, especialmente pelo contexto de morte e destruição. Testemunhamos, em um ano e meio, a morte de mais de 600 mil pessoas, entre elas muitos queridos, e vemos a destruição da democracia e de tantas conquistas desde o fim da ditadura. Por vezes nos sentimos desanimados, inseguros e desesperançados. É como se estivéssemos por atravessar um deserto, ou a vivência de um tempo de seca, esterilidade e muito medo do que se vai encontrar.

Porém, na tradição cristã a figura do deserto é tudo isto e mais. As narrativas da Bíblia mencionam várias vezes o deserto como um lugar difícil de se experimentar, mas também espaço de passagem para um novo tempo. O deserto é ali um lugar de passagem, de refúgio, de autoexame, de escuta, de vivência de crises, de aprendizado e preparação. As narrativas falam de escravos que passaram pelo deserto, sob a liderança de Moisés, para fugir da opressão dos egípcios, em busca de uma vida nova com liberdade e terra para sobreviver.

Os textos da Bíblia também se referem ao deserto como espaço de refúgio para profetas perseguidos por autoridades políticas depois de denunciarem injustiças e iniquidades. Foi lugar de onde emergiu a voz de João Batista, em oposição à opulência, à arrogância e à exploração do rei Herodes e da religião que o sustentava. O deserto foi, de igual modo, ambiente onde Jesus se preparou para atuar no seu tempo e lugar, e onde superou as tentações que o impediriam de andar na contramão da lógica dominante de sua época.

Os textos sagrados para os cristãos não deixam de falar do deserto como espaço de sequidão, insegurança e medo, mas reconhecem que, muitas vezes, é preciso passar por ele para se alcançar um tempo novo. É um lugar simbólico, o qual todos nós experimentamos. Significa reconhecer a vida como uma caminhada composta de crises, individuais e coletivas, que são passagens, oportunidades de transformação.

Portanto, eu me apego a esta compreensão e a compartilho com quem lê esta entrevista: tomemos este tempo como um momento de aprendizado e preparação. Vivê-lo como uma oportunidade de mudança. Parafraseando o poeta, um novo tempo apesar dos castigos, dos perigos, da força bruta, em que estejamos crescidos, atentos, mais vivos para nos socorrer, a fim de que nossa esperança seja mais que vingança. Afinal, estamos na luta para sobreviver aos desertos!

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Instagram: https://www.instagram.com/magalincunha/

E para quem quiser (e eu recomendo muito!) conhecer o trabalho do Coletivo Beréia:

https://coletivobereia.com.br/

Até semana que vem, com mais um evangélico progressista!

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.