Conhecendo os Evangélicos Progressistas: Valéria Vilhena – Por pastor Zé Barbosa Jr

A entrevistada de hoje é uma das mais atuantes feministas cristãs no Brasil. Valéria Vilhena, teóloga, mestre em Ciências das Religiões, doutora em Educação e História Cultural e fundadora da Mulheres EIG – Evangélicas pela Igualdade de Gênero

Olá querido leitor da Fórum, a nossa entrevistada de hoje é uma das mais atuantes feministas cristãs no Brasil. Eu converso hoje com Valéria Vilhena, teóloga feminista, mestre em Ciências das Religiões, doutora em Educação/História Cultural. Atualmente pós-doc pelo programa de pós-graduação em Ciências das Religiões da Universidade Metodista de São Paulo/UMESP. Fundadora da Mulheres EIG – Evangélicas pela Igualdade de Gênero. E o melhor de tudo é que esse currículo acontece na prática e não apenas nos espaços acadêmicos. Valéria é mulher de luta, do chão da vida, da prática de todos os seus saberes.

Para Valéria, apesar de estudar a questão da violência contra a mulher dentro dos espaços religiosos, essa violência independe da religião: “nascer mulher dentro de uma sociedade forjada a partir de muitas violências contra as mulheres não é nada fácil, independentemente de qual religião professemos ou não professamos.” E que precisamos romper com esse ciclo perverso de negação da realidade: “Normalmente um machista vai sempre negar que é machista, assim como um racista está sempre a negar que é racista.”

Para a teóloga, o seu trabalho sobre violência contra a mulher acabou demonstrando um fato chocante: “falando como mulher evangélica e de tradição pentecostal que sou, foi pessoalmente impactante.(…) nós muitas vezes, temos dificuldade em compreender ou admitir que violência e religião, historicamente sempre caminharam aliadas e alinhadas para a regulação dos corpos, especialmente dos corpos, das vidas, das mulheres.” Portanto, é de muita importância que a teologia feminista cresça no Brasil contra esse e outros tipos de violência contra a mulher.

Valéria também denuncia a opressão às mulheres na história do Brasil: “Uma das normas da “fundação” do Brasil foi o direito concedido ao marido de matar sua esposa caso fosse pega em adultério, ou mesmo se ele tivesse uma simples suposição do adultério-, porque o marido tinha direito de propriedade sobre sua mulher e, o corpo dela, tinha que garantir a honra dele.” E continua ampliando esse leque de opressões a outros grupos minoritários e que são feitas de forma legitimada pela religião: “Nessas bases legais, sacralizadas pela religião cristã, que nasce o Brasil neurótico, violento, racistas, misógino, sexista, lgbtfóbico, que nega ou põe nas costas de Deus ou da bíblia, sua crueldade. Justificando o injustificável.”

Valéria criou em 2015, o coletivo EIG – Evangélicas pela Igualdade de Gênero, que atua em vários Estados brasileiros na luta contra a opressão e violência em relação às mulheres: “Nos reconhecemos, especialmente por nossas próprias vivências, experiências atravessadas por sexismo, misoginia, gênero, classe social e raça/etnia. Resumindo: EIG é a construção coletiva de um feminismo cristão de resistência ao patriarcado que é capitalista e racista.  A partir de nossa fé propagamos justiça social e de gênero, sob um feminismo entendido, tanto como um pensamento crítico sobre a situação histórica das mulheres, bem como estamos em um movimento, desde dentro das nossas comunidades de fé, com atuações para mudar a situação das mulheres evangélicas também em suas próprias casas e igrejas.”

Valéria é voz importante e necessária na igreja brasileira e no evangelho de resistência. Que a sua voz ecoe muito por todo o território nacional e até mesmo fora dele (o machismo e o patriarcado não são “privilégios” somente do Brasil).  E o feminismo cristão ainda tem muito a fazer na luta de todas as mulheres por igualdade, justiça e equidade, lutas que fazem parte da essência do Evangelho de Cristo, o pobre de Nazaré.

Leia a entrevista na íntegra:

Valéria, vou “chegar chegando”. Como é ser mulher e feminista dentro da igreja evangélica brasileira hoje?

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Boa tarde Zé, querido. Eu deslocaria ou somaria à sua pergunta para “Como é ser mulher e feminista dentro da igreja e da sociedade brasileira hoje? ”. Porque nascer mulher dentro de uma sociedade forjada a partir de muitas violências contra as mulheres não é nada fácil, independentemente de qual religião professemos ou não professamos. E ser mulher indígena ou afro indígena, negra se torna ainda mais difícil, mais violento. Porque somos todas-todes e todos fruto de uma sociedade da colonização-exploratória-escravocrata-patriarcal-racista-cristã.

Lembremos, invasão das terras de Abya Ayala (América), genocídio indígena, escravização dos povos africanos, o Brasil foi formado ou, lembrando aqui o grande Darcy Ribeiro, o povo brasileiro foi forjado como fruto de muitos estupros. O Brasil foi constituído, do ponto de vista legal, tendo como base, conteúdos dos textos da “Santa Inquisição”. Desde sua “fundação”, o Brasil Colônia desenvolve uma cultura sexista e racista, que Lélia Gonzales (1984) vai denominar de “neurose cultural brasileira”, porque está sempre tentando negar, isto é, negar o fenômeno social do racismo e, obviamente do sexismo, enquanto o vivenciamos profundamente.

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 A Lélia Gonzales (1984) questiona: “Por que será que o racismo brasileiro tem vergonha de si mesmo? Por que será que se tem “o preconceito de se ter preconceito” e ao mesmo tempo se acha natural que o lugar do negro seja nas favelas, cortiços e alagados?”. (GONZALES,1984:16). Achamos “natural, ou naturalizamos o fato das cadeias estarem lotadas de jovens negros? Ou ser da mulher o lugar doméstico, à medida que o desvalorizamos o consideramos improdutivo. Normalmente um machista vai sempre negar que é machista, assim como um racista está sempre a negar que é racista: – “É brincadeira, piada, não se tem mais humor?” Alguns dizem: “- Não se pode mais brincar, vocês levam tudo muito a sério”. “- Aqui em casa quem manda sou eu”. Ou “ – não sou eu quem diz, é a palavra de Deus”. Ocultam assim o recalque, que explica Lélia Gonzales, a partir de Freud, que nada mais é do que um mecanismo mental de defesa para justificar o injustificável.

Por isso disse ‘deslocar sua pergunta’, porque tendemos, especialmente, nos últimos tempos, colocar um peso demasiado desproporcional na religião. Mas tudo, absolutamente tudo é forjado a partir do nosso sistema econômico, que organiza nossas vidas. Sim, organiza. E organiza material-objetivamente e, também, subjetivamente. Organiza não somente se temos ou não dinheiro, mas se temos ou não dinheiro, desejamos isso ou aquilo; então organiza nossas necessidades, nossos desejos, nossas percepções. Aliás turva nossas sensações e nossas crenças. A partir dele o cristianismo vem, historicamente, dogmatizando, pensando, refletindo, teologizando, ensinando, exigindo, culpando e etc. Um sistema econômico que é estrutura estruturante (lembrando Pierre Bourdieu (1992)), porque estrutura-nos objetiva e subjetivamente. Pensamos o que pensamos, cremos no que cremos porque tudo isso foi forjado.  Walter Benjamin afirmou em um dos seus textos, que o capitalismo é uma religião de mero culto, sem dogma, que esse sistema econômico sacrificial se desenvolveu no Ocidente como um parasita no cristianismo, logo quando nos deparamos com a história do cristianismo é essencialmente a história de seu parasita, o capitalismo. Forte não? Mas fechando aqui com sua pergunta: Como é ser mulher e feminista dentro da igreja evangélica brasileira hoje? É ser e estar num desafio, desafio de nos mantermos desobedientes, insurgentes, não subalternizadas a esse modelo forjado e dado como “vontade de Deus”, especialmente para as mulheres. Existe um mito que muitas pessoas acreditam, que violências contra as mulheres não acontecem em determinados contextos, porém a gente sabe que violência doméstica acontece sim, em todos os contextos, inclusive, infelizmente, está muito presente no contexto cristão.

Você é autora de um estudo que roda o Brasil até hoje, falando da violência contra a mulher nos espaços religiosos. Como foi pra você constatar empiricamente aquilo que, de certa forma, muitos já sabiam, mas sempre foi jogado para debaixo do tapete?

Uma alegria isso, trabalho de rede, rede de conhecimento, de construção de saberes. Porque na minha pesquisa já estava tantas outras pesquisadoras e pesquisadores comigo e eu pude contribuir de alguma forma e tantas outras pesquisas vieram depois e em tantas outras áreas. Mas falando como mulher evangélica e de tradição pentecostal que sou, foi pessoalmente impactante. Quando estamos em uma pesquisa acadêmica temos a questão dos prazos, e, como eu já havia feito o recorte da pesquisa na violência doméstica, precisava definir o campo de pesquisa e quando eu cheguei na Casa Sofia, eu já fui surpreendida com a fala da Assistente Social que me disse: “- nós temos mais dificuldades em atender as mulheres evangélicas”. Eu levei um susto. Eu sou de tradição evangélica pentecostal e já não imaginava encontrar ali mulheres evangélicas, porque a Casa Sofia é um dos projetos da Igreja Católica Santos Mártires, na zona sul de SP; e também, porque, nós muitas vezes, temos dificuldade em compreender ou admitir que violência e religião, historicamente sempre caminharam aliadas e alinhadas para a regulação dos corpos, especialmente dos corpos, das vidas, das mulheres. Quando pensamos em religião, pensamos em amor, paz, empatia, solidariedade (e isso é também verdade). E mesmo há um ano cumprindo as disciplinas do mestrado nas questões de gênero, dentro de um programa em Ciências das Religiões, portanto estudando sociologia da religião, antropologia da religião, história da religião e etc, ainda assim fiquei surpresa e perguntei à profissional. Por que? E ela respondeu não sei, o que sabemos é que elas têm mais resistências, são as que mais abandonam os serviços oferecidos de assistência jurídica-psicológica e de assistência social. Então fiz alí, no campo de pesquisa, mais um recorte para pesquisas. Pesquisaria violência doméstica, mas entre mulheres evangélicas, isso foi em meados de 2007.

Passei buscar entender porque desistiam mais dos serviços oferecidos e até que ponto essas desistências estavam imbricadas com as questões religiosas. E foi surpreendente, porque muitas desistiam porque foram procurar o pastor e ele a aconselhava a orar mais, a começar uma nova campanha na igreja, a acreditar mais no milagre de Deus, ou até culpabilizá-las por estarem em um relacionamento abusivo, por falta de sabedoria de Deus, por falta de fé. E assim, eu fui compreendendo como os discursos religiosos eram dúbios, paradoxais para aquelas mulheres. E por quê? Porquê ao mesmo tempo que eu ouvia delas: “Se não fosse Deus na minha vida eu já teria me matado, se não fosse a igreja, os cultos as orações eu não teria forças para continuar a viver”, muitas estavam sob risco de morte por insistirem nos relacionamentos abusivos, violentos. 

Ao mesmo tempo que a igreja era essa rede de apoio, de socorro para muitas necessidades, força pra viver, para encarar as dificuldades da vida e até as violências, era também o que fazia com que elas permanecessem em relações violentas e ficassem assujeitadas, subalternizadas, e em alguns casos, em risco de vida. Então era preciso compreender melhor aquele fenômeno social o da violência contra as mulheres, que é um fenômeno social mundial.

Foi preciso compreender e dividir a religião, ou o exercício espiritual daquelas mulheres, e os discursos que estas mulheres recebiam dos pastores, nos aconselhamentos pastorais e de seus líderes espirituais para distinguir que não era a religião em si, o mal, mas interpretações feitas dos textos bíblicos… mas, sobretudo que aquelas mulheres já estavam à margem do poder público, mulheres empobrecidas, maioria negras e pardas, lutando para sobreviver em um sistema duplamente e cruelmente excludente para elas.

Então o problema era “o” como a religião estava sendo instrumentalizada por seus pastores, líderes que ensinam outros líderes, que ensinam outros líderes e que chega, de alguma forma, lá na igrejinha, no quintal de uma casa, com algumas cadeiras ou em grandes igrejas e de suntuosos templos -, mas como?  Perpetuando e sacralizando o discurso patriarcal – pelo sistema econômico que é patriarcal e racista e que atravessa a vida das mulheres, permeada em toda a sociedade e também pela igreja, ou pelo religioso.

Não são somente as mulheres evangélicas que sofrem violências, as mulheres, religiosas ou não sofrem.  Mas estou falando a partir da nossa realidade brasileira. Porque ao mesmo tempo que estamos no 5º lugar no ranking de países mais violentos contra as mulheres, temos 87% da população declarando-se cristã. Alguma coisa não bate entre esse imaginário social de que religião está ligada a paz, amor e etc., e estarmos entre os países mais violentos do mundo para as mulheres.

Mas, devo dizer Zé, que passamos também a estar em um desafio, digamos assim, também do lado de lá. Por exemplo, brinco que nós feministas cristãs muitas vezes nos sentimos em um limbo, à margem, na borda (rsrsrs) com questionamentos tanto de feministas, quanto dos cristãos, tais como: – “como assim vocês são feministas e continuam cristãs, a religião dos opressores? ” Ou, como assim vocês são cristãs e feministas, feminismo é pecado, não é de Deus?!” Nesses anos todos também nos sentimos desafiadas a fazer parcerias com os equipamentos públicos, das redes públicas de atendimento e enfrentamento às violências contra as mulheres para que seja compreendido a importância de, no atendimento profissional, a dimensão de fé das mulheres em condição de violências, não sejam desprezados, porque elas encontram em suas igrejas, mesmo de maneira limitada, um vínculo comunitário, uma rede de apoio que traz força, dignidade de vida. Muitas não buscam primeiro esses serviços públicos e sim uma irmã da igreja, o pastor, a pastora, a esposa do pastor e etc.

Logo é fundamental que entre as diversas portas de entrada para esses serviços seja considerada também as igrejas, os terreiros, os salões, os templos e etc., ou seja, as diversas espiritualidade presentes em nossa sociedade como parte da rede de acolhimento, apoio, denúncia e o encerramento do ciclo da violência doméstica. Claro com formação, treinamento, etc. A EIG entra muito nesse “vácuo” social, das subnotificações, com as campanhas de formação de escuta ativa, acolhimento, com essa pastoral pública de mulheres pastoreando mulheres, pelas teologias feministas e agora também tendo os Homens EIG apoiando nossas ações e expandindo o diálogo entre outros homens cristãos sobre essas estruturas da colonialidade que se perpetuam e continuam a se multiplicar em nossa sociedade e que as nossas igrejas não estão isentas, ao contrário, historicamente tem sido instrumentalizadas para essa nefasta, dolorosa perpetuação. EIG está, dia-a-dia, ano-a-ano, pelas margens pressionando os centros de poder, com nossas lutas, resistências e espiritualidade forjada em uma teologia feminista comunitária, compreendendo poder como serviço, dizendo: – olha só, o que vocês homens brancos fizeram não deu certo, em diferentes camadas e instâncias dessa sociedade e, inclusive do nosso planeta como um todo. 

A seu ver, quais as principais dificuldades na igreja brasileira em relação as questões de gênero?

Historicamente o que temos é uma elite religiosa, desde a oficialização do cristianismo como religião oficial do Império Romano opressor, que se alinhou e se aliou a uma elite econômica-política-militar, que fez com que os espaços religiosos sejam locais de conformação da realidade social que é desigual, opressora, patriarcal, racista e, portanto, violenta. Esse dado histórico atravessa séculos e séculos. Fruto do eurocentrismo, que foi forjado por homens brancos heteronormativos, como sendo superiores, os civilizados, modelos a seguir, mas, sobretudo, a comandar. No início da Legislação brasileira, como nos documentos da Santa Inquisição, uma falta, era sempre apontada como uma falta também religiosa, portanto infringir a Lei era pecado contra o Estado, contra a sociedade e contra o soberano; logo, o sexismo (discriminação com base em sexo e/ou gênero), a misoginia (ódio, asco, desejo de humilhar uma mulher) e o racismo (discriminação por raça/etnia-cor da pele) vão pautar tais faltas. Mas vão pautar de forma sempre mais rígida para as mulheres. As punições destinadas às mulheres eram sempre mais rígidas. Logo qualquer pessoa que se identificasse com o gênero diferente do que seu corpo biológico determinava, ou sua orientação sexual fosse diferente daquela socialmente determinada para o corpo biológico foi, por séculos, renegado, criminalizado e demonizado.   

Assim como já foi preciso punir com mais veemência as mulheres para que fosse pedagógico, ou seja, para que toda mulher apreendesse e obedecesse, sem questionar, toda pessoa fora desse padrão patriarcal (sexista- misógino-machista-lgbtfóbico) passa a também ser punido e marginalizado. Claro, que não sem hipocrisia. Até hoje nosso país é um dos maiores consumidores de pornografia lgbtqia+, ao mesmo tempo que é o país que mais mata pessoas lgbtqia+ e, lembremos, 87% cristão.

Uma das normas da “fundação” do Brasil foi o direito concedido ao marido de matar sua esposa caso fosse pega em adultério, ou mesmo se ele tivesse uma simples suposição do adultério-, porque o marido tinha direito de propriedade sobre sua mulher e, o corpo dela, tinha que garantir a honra dele.

Nessas bases legais, sacralizadas pela religião cristã, que nasce o Brasil neurótico, violento, racistas, misógino, sexista, lgbtfóbico, que nega ou põe nas costas de Deus ou da bíblia, sua crueldade. Justificando o injustificável.

Prestem atenção em alguns de nossos imaginários sociais que são certificados por valores religiosos, como esses ainda funcionam para retirar direitos das mulheres! O conservadorismo moral ou a rigidez de costumes muito mais fortes para as mulheres colaboram até hoje para o aumento das violências, são bases para retiradas de direitos para as mulheres e não precisa ser crente ou católico praticante para a nossa sociedade questionar: foi estuprada? Por que? Que roupa estava? Que horas eram? Estava sozinha? Deixou o filho com a mãe para se divertir? Que roupas usava?  

Zé, não consigo responder apontando somente uma resposta, mas chamo a atenção para as variadas dificuldades históricas que temos que enfrentar, por isso volto sempre para questões mais estruturais, porque compreendo que não podemos enfrentar somente as consequências -, violências, mortes, assassinatos baseadas nas questões de gênero, sexo, sexualidade, precisamos de fato encarar nossas mazelas sociais, culturais e, do ponto de vista da religião cristã, sermos honestos e responsáveis o suficientes para assumirmos que desde a seleção, canonização, interpretação, construção de dogmas, teologias foram intencionalmente construídos para o poder-controle-dominação e, em meio a essas disputas de poder, seguiu historicamente na resistência e luta profética os cristãos marginalizados, insubmissos, os profetas e profetisas da mensagem de Jesus de Nazaré, o preto periférico, que não somente andou, foi sustentado, mas também  ouviu e aprendeu com mulheres, com outras culturas, com outros e outras e outres escravizados pelo Império Romano, a multidão que o seguia era de pobres, adoentados, desprezados, famintos, todos, todas e todes aqueles que os sistema não acolhia.   Nosso desafio é grande, trabalho não falta, a luta não cessa, a resistência continua, mas essa força espiritual libertadora é potente e nos sustenta.

Você criou há alguns anos o coletivo EIG – Evangélicas pela Igualdade de Gênero. Como tem sido essa experiência e quais os maiores desafios para esse momento histórico?

Sim, foi em 2015, no Fórum Pentecostal Latino Caribenho, na cidade de São Paulo. O desafio foi criar esse movimento de mulheres evangélicas e esperançar, ou seja, nos organizarmos, termos formações continuadas, nos envolvermos e acompanharmos os serviços públicos, as políticas públicas, a legislação, educação e tudo que diz respeito aos direitos das mulheres. Portanto, somos mulheres de fé e luta, que fundamentalmente fazemos parte de um tipo de feminismo que se associa às mulheres das classes populares e, sobretudo, nos compreendemos como sujeitas políticas de dimensão de fé.

Nos reconhecemos, especialmente por nossas próprias vivências, experiências atravessadas por sexismo, misoginia, gênero, classe social e raça/etnia. Resumindo: EIG é a construção coletiva de um feminismo cristão de resistência ao patriarcado que é capitalista e racista.  A partir de nossa fé propagamos justiça social e de gênero, sob um feminismo entendido, tanto como um pensamento crítico sobre a situação histórica das mulheres, bem como estamos em um movimento, desde dentro das nossas comunidades de fé, com atuações para mudar a situação das mulheres evangélicas também em suas próprias casas e igrejas. Fazemos baseadas numa ética cristã feminista, que promove direitos humanos fundamentais para a manutenção da própria vida. Direitos humanos que, em sua base, têm a percepção para reconhecer o outro/a/outre a partir de sua história, de seu contexto social, de sua cultura, de suas diferenças, que não coloca ninguém como sub-humano, ilegal, anormal, de segunda classe, ou satanizado, etc.

Então você já percebeu que nosso desafio é enorme, especialmente diante de um governo que podemos declarar de maneira muito convicta que é de retrocessos aos direitos das mulheres e de nosso país como um todo. É desafiador também porque buscamos práxis cristã, emaranhada aos processos sociais, nutridos das experiências, vivências, lutas – lutas do mundo, resistências indígenas, luta contra o racismo, luta das mulheres, das pessoas lgbtqia+, lutas não descoladas dos Direitos Humanos e pelo fortalecimento do Estado laico e do aprofundamento da democracia.

Estamos na rede para potencializar a nossa luta. Somos também ativistas digitais. Nas redes articulamos o mesmo feminismo que também levamos para as ruas (8M, Marcha das Margaridas, Marcha das Mulheres Negras, Marcha das Mulheres Indígenas), eventos acadêmicos ou não, movimentos sociais-políticos e também em nossas comunidades de fé; entendendo que o virtual pode ser também uma expressão do real. Mas veja, está tudo em construção! E construção coletiva.

Penso que a EIG oferece para a sociedade, como um todo, o diferencial de ter a pastoral do cuidado, da escuta ativa e empática, portanto o reconhecimento da dimensão religiosa das mulheres evangélicas, o que as Redes de Serviços Públicos, em geral, reconhecem, mas na maioria das vezes não sabem e/ou também não podem atuar. Estamos em algumas regiões do Brasil crescendo e nos fortalecendo, buscando o respeito para compreender os passos de cada uma: EIG PR; EIG SP; EIG RJ;  EIG GO; EIG ES; EIG BA; EIG PE e EIG NORTE. 

Teologia feminista para nós é instrumental de luta e prática de fé. Buscamos uma espiritualidade feminista, cúltica, celebrativa e formativa. Assim, EIG presencialmente e nas redes tem a clara intencionalidade de ser um instrumento que une mulheres evangélicas e faz suas vozes ecoarem, pelos caminhos da fé, organização para acompanhar e promover políticas públicas para as mulheres, em favor da Vida de todas as mulheres.

Entendemos a importância de projetos coletivos para não valorarmos “empoderamento” individual; valorizar o comunitário é base do evangelho de Jesus. Mudar a nós mesmas, nossos olhares, para mudarmos a nossa comunidade, que atua em/na sociedade, porque assim compreenderemos melhor nossas estruturas sociais-culturais. Esperançamos, portanto, nos organizamos.

Quais os próximos projetos da EIG? E seus projetos pessoais?

Cada vez mais organizadas e fortalecidas, desejamos continuar nesse processo de construção coletiva, para reconhecer as raízes do sistema econômico patriarcal e racista; temos consciência de que o capitalismo- patriarcal-sexista-racista-misogino-lgbtfóbico não tem aval de Deus. São grandes os desafios! Precisamos desde novas epistemologias, nova antropoética, novos olhares e novas atitudes pessoais e políticas para enfrentarmos e erradicarmos as violências contra as mulheres e outros grupos sociais marginalizados. 

E continuaremos a fazer isso reconhecendo o caráter libertador do movimento de Jesus, que foi, em parte, derrotado pela linha hermenêutica dominante daqueles grupos, daquela elite religiosa que se alinhou e se aliou à elite política-militar do Império Romano e que atravessou todo o sistema feudal-medieval que moldou toda a marginalização e criminalização de pessoas e aprofundou todo tipo de opressão e violência no sistema capitalista.

Que a EIG possa envolver cada vez mais mulheres, dentro dela, mas também para além dela. É preciso mulheres em todos os espaços sociais, inclusive na teologia, retornando aos textos bíblicos e desvelando o modelo de Jesus, contundente, como novo modelo de vida -, Jesus é a própria linha libertadora dessa memória subversiva que atua na hermenêutica feminista.

Por fim, que mensagem você deixa para os leitores da Fórum, nesses sombrios tempos bolsonaristas?

Precisamos continuar a enfrentar o pecado sexista, o pecado do machismo e do racismo que atingiu tanto a matriz formadora da Bíblia quanto suas traduções, usos e interpretações na história da tradição cristã e, assim forjou todo o Ocidente, mas, sobretudo, é importante compreender as diversas opressões como estruturais que estruturam nossas vidas, nosso modo de ver e viver o mundo. Bolsonaro e o bolsonarismo passarão e nós passarinho. Continuemos a fazer, a enfrentar, a lutar, a refletir, a atuar cada qual em seus diferentes locais sociais de atuação, mas não estanques, devemos cada vez mais nos organizar em redes, de variadas fontes de saberes que nutram a resistência, a luta, nos fazendo cada vez mais esperançar na vida e pela vida. Reconheçamos que está também com as mulheres a força crítica da mudança, da transformação. Esse fato relembra o óbvio: que há humanidade plena nas mulheres e essa primavera-se como um caminho sem volta.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Zé Barbosa Junior

Teólogo, escritor, pastor da Comunidade Batista do Caminho em Campina Grande - PB