quarta-feira, 30 set 2020
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Conservadores do Partido Democrata jogam sujo em Massachusetts, por Heloisa Villela

O partido democrata jogou sujo na disputa do primeiro distrito de Massachusetts. Ao que tudo indica, armou uma campanha difamatória contra o prefeito de Holyoke que é do partido… democrata. Pois é.

A briga, mais uma vez, é entre os conservadores, que mandam na legenda, e os progressistas, que estão comendo pelas beiradas. As primárias do dia 1 de setembro vão definir quem será o candidato do partido a deputado no distrito: Richard Neal, que ocupa o cargo há 31 anos, ou Alex Morse, o jovem político que tem, de vida, o mesmo tempo que o primeiro tem de atuação em Washington.

O golpe baixo veio na forma de uma carta publicada pela organização College Democrats, que representa universitários do estado. Nela, uma acusação vaga diz que o comportamento sexual de Morse com os estudantes não é apropriado. Mas não indica uma vítima de avanços indesejados ou cantadas grosseiras. Nada.

Alex Morse é gay assumido desde os 16 anos e foi o prefeito mais jovem da história do estado. Tomou posse a primeira vez com apenas 22 anos. Ele vem de uma família humilde, mas estudou em uma das melhores universidades do país. Há dois meses, perdeu um irmão que era viciado em heroína. Na última semana, passou horas discutindo a própria vida sexual ao invés de debater os temas que afligem o país. Tudo por causa da tal carta vaga vazada três semanas antes das primárias.

O jornal americano, TheIntercept, entretanto, descobriu de onde veio a tentativa de difamação. A diretora executiva do partido democrata, Veronica Martinez, e o presidente da legenda, Gus Bickford, colocaram os estudantes em contato com o advogado Jim Roosevelt para preparar a carta de forma que ela causasse estrago, mas não deixasse a garotada correr o risco de um processo de calúnia e difamação.

Alex Morse sabia que um golpe estava a caminho.

Jornalistas de três organizações diferentes ligaram para ele porque alguém andou tentando convencer a imprensa a fazer matéria sobre a vida sexual de Morse, mas ninguém topou por falta de informação. Não existe história alguma.

Morse quase desistiu da campanha, mas pensou bem. Consultou os amigos, a equipe e decidiu virar o jogo. Agora, quer acabar com a ideia de que políticos não têm vida pessoal ou sexual. Só se forem casados. Acontece que ele é jovem, solteiro e como tanta gente da mesma geração, usa os aplicativos de encontros para arrumar namorados. E vai levar essa discussão para a campanha também. Ele sabe que o ataque não é apenas um golpe à Alex Morse. O que está em jogo é a renovação do partido democrata.

Nas últimas semanas, os progressistas avançaram. O chamado “esquadrão” da câmara (Alexandra Ocasio-Cortez, Ilhan Omar e Rashida Tlaib) se reelegeu e já sabe que vai contar com o apoio de novos progressistas como Jamaal Bowman, de Nova York, e Cori Bush, do Missouri. Todos têm histórias semelhantes. Se atreveram a disputar com tubarões democratas o direito de representar o partido nas eleições para deputado federal e venceram.

Se derrubar Richard Neal, Alex Morse tem vaga garantida no Congresso porque os democratas sempre ganham dos republicanos no distrito onde ele mora. E se for para Washington, será mais um voto a favor de um sistema único de saúde, da defesa do meio ambiente e do fim da influência das corporações nas campanhas políticas.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.