Convivendo com o diabo – Por Henrique Rodrigues

A desgastante rotina de um povo que atura um demônio imoral, sádico e sem limites, cuja única preocupação é tornar tudo pior e doloroso. Ele quer que a vida seja o inferno, assim como sua infeliz existência

“O diabo na rua, no meio do redemoinho” é a frase-síntese de ‘Grande Sertão: Veredas’, o maior romance da Literatura Brasileira, obra-prima de João Guimarães Rosa.

Na vida real do Brasil pós-2018, o diabo está não só no meio da rua, mas também é figura presente nas motocadas, aglomerações, cercadinhos, nas redes sociais e no cerne dos problemas mais assustadores de cada cidadão do país.

Agora o diabo quer tirar o mínimo de proteção que a cidadania tem contra o inimigo mortal invisível. Pois é, a besta descontrolada quer marchar contra o óbvio.

Nosso diabo é tinhoso. Vejam bem, ele não só é o Tinhoso, com letra maiúscula. É digno de receber o predicativo em si.

Sujeito irritante, repetitivo, compulsivo em ser repulsivo. Nosso diabo é, acima de tudo, a maldade antropomórfica.

O diabo é o pai da mentira. Tá lá, nas Sagradas Escrituras. E não é que ela está coberta de razão? O diabo mente o dia inteiro. Institucionalizou a mentira e criou até a mentira-verdade. Para mentir, o diabo nomeou um rapazote que inventa teorias e dados e os coloca oficialmente nos registros dos órgãos de controle.

Acreditem, senhoras e senhores. O diabo grita, berra, mente e regurgita o ódio confinado há décadas em sua cabecinha doente e maligna, e tudo isso enquanto fala de Deus.

O diabo tem ego e não é pequeno. Quer ser o imperador. Se regozija com a gritaria das criaturas umbralinas que se derretem na sua presença. É a guarda pretoriana do belzebu.

Ele veio pra matar, torturar e destruir. Quando sobra um tempo, vai à praia gastar milhões, incitar a ira dos devotos-malignos. Vai aos estádios derramar e demarcar seu rastro de morte.

O diabo é o pai da mentira, já disse. Mas ele é o pai da vadiagem também. É tanto filho do coisa-ruim desocupado e ocioso que o erário sofre pra bancar tanto luxo pra carniça. O diabo é o mal, mas a prole é pior.

O Evangelho de São João diz que “o mundo jaz no maligno”. O problema é quando o maligno, num mundão desse tamanho, vem viver do seu lado.

A convivência com o diabo tem tornado todos nós pessoas piores. O mal sempre deixa marcas. São os sinais do diabo.

Um dia, quando o inferno se instalar noutro canto, todos vamos olhar as cicatrizes desses tempos satânicos e pensar:

Que inferno era aquilo. Ainda bem que acabou.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Henrique Rodrigues

Jornalista e professor de Literatura Brasileira.

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