Vamos criar o “pior ainda” para vocês suportarem o pior – Por Raphael Fagundes

As nossas ações, de acordo com os filósofos alemães modernos, são movidas por meio de uma dialética entre o espaço de experiência e o horizonte de expectativa

O golpe judicial e parlamentar de 2016 deu início a uma era de trevas jamais vista na História da democracia brasileira. Mas esta articulação entre o Legislativo e o Judiciário para derrubar o Partido dos Trabalhadores (PT) precisava de uma estética, de discursos coloridos que pudessem seduzir a população a fazer parte deste projeto golpista. Essa missão foi atribuída à imprensa.

Não somente o conglomerado Globo serviu de algoz à democracia, mas também a Record, o SBT, enfim. Escusado dizer que todos estes canais tiveram apoio financeiro de empresários, que bancaram todo o teatro.

Há um projeto de controle da democracia. O objetivo é separar a política em dois lados, muito similar ao que acontece nos EUA. De um lado, os conservadores, reacionários, muito parecido com os valores das classes médias sulistas dos EUA. De outro, os democratas, figuras do PSDB, DEM, etc., que sustentam um discurso liberal-progressista, similar aos da classe média novaiorquina e californiana.

A ideia é fazer com que a esquerda se dilua entre os democratas de modo que quando estiver com seus 80 anos, Freixo será uma espécie de Bernie Sanders tupiniquim.

Para além disso, uma artimanha muito prática é criar o “pior ainda” para suportarmos o que é ruim. Após as manifestações de 2013, forjou-se um imenso ódio contra a esquerda, tendo o PT como o centro gravitacional. Após a derrota nas urnas em 2014, as elites não se conformaram e intensificaram a investida contra as esquerdas. Esse projeto acabou por parir Bolsonaro, uma extrema direita que nunca teve espaço na democracia brasileira, mas adequada ao cenário de ódio fabricado pela imprensa.

Bolsonaro caiu como uma luva para os interesses burgueses. Inventa-se então uma polaridade na qual o “centro” passa a ter um papel de equilíbrio, de coerência. Quem era antes direita, quem simbolizava o que era o pior para o povo, com projetos de privatização e enfraquecimento do Estado, foi substituído por um “pior ainda”. A direita tradicional deixou de ser o alvo de ódio, em seu lugar entrou o bolsonarismo.

Centro, centro-esquerda, centro-direita e esquerda, podem agora fundir-se em progressistas. Estes setores têm um inimigo em comum: o bolsonarismo.

As nossas ações, de acordo com os filósofos alemães modernos, são movidas por meio de uma dialética entre o espaço de experiência e o horizonte de expectativa. Deste modo, só é possível aceitar o que entendemos, pela própria experiência, como ruim, quando habita no horizonte de expectativa algo pior ainda.

Por sua vez, Bolsonaro também usa a mesma estratégia quando lhe é oportuno. Ela vem se tornando útil para todos os setores da política. Em suposta oposição ao que seria um absurdo proposto pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que aumenta o fundo eleitoral, o presidente diz que irá vetar a proposta. Seu discurso é de ajustar o fundo de acordo com a inflação e que o montante de quase R$ 6 bilhões é um absurdo. Mas e se a cifra for mais modesta? Talvez o presidente aprove. Deste modo, Bolsonaro sai, para os seus seguidores, com a imagem de quem impediu algo pior.

Mas a burguesia é como um feiticeiro que não consegue controlar as forças infernais que invoca. E no fim, o feitiço se virou contra o feiticeiro. Tirou o PT, sabendo que alguém do centro não venceria, o que levou à vitória de Bolsonaro. O objetivo era tornar o centro (a velha direita), a direita liberal suportável (Bolsonaro é acusado pela imprensa liberal de não ser liberal). Acabou que o povo preferiu ver Lula como “menos pior” que Bolsonaro. Bem feito para as elites. Mesmo com a destruição do petista pela imprensa, ele ainda é o referencial de algo melhor para o Brasil. Mas ainda há muita água para passar por debaixo da ponte até 2022. E uma aliança entre Lula e a direita liberal-progressista não está muito distante (já vemos indícios disto), o que, de certa forma, implantará na sociedade brasileira um sistema parecido com os EUA: democratas x conservadores.

Não aconteceu exatamente como a burguesia quis, mas poderá servir por enquanto. Cabe a esquerda saber se impor e não se fundir a ponto de desaparecer em meio aos liberais progressistas.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Raphael Silva Fagundes

Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

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