Crise militar de Bolsonaro é a bomba semiótica do não acontecimento – Por Wilson Ferreira

É absolutamente ridícula a narrativa que a grande mídia criou sobre a “crise” (estratégia de dissonância cognitiva da guerra semiótica militar) provocada pela “queda” do ministro da Defesa e dos comandantes das três Forças Armadas.

Desde que a Inteligência militar brasileira emulou a teoria da Guerra Híbrida dos think tanks dos EUA, traduzindo como “guerra cultural” e “operações psicológicas” (ironicamente citando pensadores como Jean Baudrillard e Umberto Eco em artigos de revistas do meio militar) acabou criando o principal protagonista político nesse século: o Partido Militar. Por isso, é absolutamente ridícula a narrativa que a grande mídia criou sobre a “crise” (na verdade, estratégia de dissonância cognitiva da guerra semiótica militar, um não-acontecimento) provocada pela “queda” do ministro da Defesa e dos comandantes das três Forças Armadas. A grande mídia liberta fantasmas e espantalhos que saem de buracos e armários numa espécie de nostalgia vintage (64’s style) da suposta ameaça de golpes ou quarteladas provocadas pelo suposto conflito entre Forças Armadas legalistas versus Bolsonaro golpista. Alguém tem que avisar aos analistas que vivem de notícias plantadas e “vazamentos” que o golpe militar já ocorreu, e não foi televisionado. Por quê?  Porque foi um golpe híbrido.

Os proprietários de um hotel consultam um conselho de relações públicas. Eles perguntam como melhorar o prestígio do hotel e incrementar os seus negócios. Em tempos menos sofisticados, a resposta poderia ser contratar um novo chefe de cozinha, melhorar o encanamento, pintar os quartos, ou instalar um lustre cristalino no saguão de entrada. A técnica do conselho de relações públicas é mais indireta. Ele propõe a supervisão de uma celebração do trigésimo aniversário do hotel. Um comitê é formado, incluindo proeminentes banqueiros, a matrona líder da alta sociedade, um advogado famoso, um pastor influente e um ‘evento’ é planejado (digo, um banquete) para chamar a atenção dos distintos serviços oferecidos pelo hotel à comunidade. A celebração é realizada, são tiradas fotos, a ocasião é amplamente informada e o objetivo é alcançado. Esta ocasião é um pseudoevento e ilustra todas as suas características. (…) É óbvio, também, que o valor de tal celebração para os proprietários está em ser fotografado e reportado em jornais diários, magazines, cinejornais, rádio e televisão. É esta cobertura da mídia que dá ao evento o impacto nas mentes de clientes potenciais” (BOORSTIN, Daniel, “The Image: The guide to pseudo-events in America”, New York: Vintage Books, 1992, p.10).

Podemos considerar esta passagem do livro “The Image” (1961), do historiador e crítico social norte-americano Daniel Boorstin (antes dos pós-modernos, um dos primeiros a compreender os impactos das simulações e das imagens na sociedade), a quintessência da natureza das relações da mídia com os acontecimentos – para Boorstin, o momento em que os acontecimentos e o seus produto midiático, as notícias, viram pseudoeventos.

Nas décadas posteriores, Jean Baudrillard falou em “não-acontecimentos”, Umberto Eco em “eventos-encenação”, Neil Gabler em “efeito Heisenberg”, configurando a abordagem pós-moderna dos fenômenos sociais, marcados por simulações e simulacros.

Para Boorstin eram “estratégias indiretas” (não resolver problemas reais, mas parecer que está resolvendo); para Baudrillard, eventos-simulações para as mídias venderem como simulacros de realidade; em Umberto Eco, eventos simulados com a assessoria da própria mídia; e em Gabler, a mídia mostrando na mais do que o esforço que as pessoas fazem para atrair a atenção da própria mídia.

Curiosamente, em veículos de notícias do meio militar que divulgam análises sobre defesa, estratégia e inteligência (como o DefesaNet ou próprio site do Exército Brasileiro) tornou-se comum na última década encontrar artigos com referências teóricas a esses pensadores pós-modernos – basta o leitor “dar um Google” e encontrará muitos desses artigos.

O fato é que, ironicamente, todos esses conceitos de crítica cultural e política foram operacionalizados como táticas e estratégias nas operações psicológicas de guerra híbrida: pinça, domínio total de espectro, guerra criptografada, limited hangout, abordagem indireta etc.

Estado Profundo Caboclo

Claro que essa operacionalização não foi feita por eles: foi importada dos think tanks da geopolítica norte-americana como, por exemplo, a Foreign Affairs, Council Foreign Relations ou Atlantic Council. Por quê? Para o Brasil não “ficar fragilizado em eventual conflito híbrido” contra nações, ONGs ou o comunismo, que se desintegrou e se tornou viral… – Leia CEL. Paulo Cesar Leal, “A Guerra Híbrida: reflexos para o sistema de defesa do Brasil” In: Doutrina Militar Terrestre em Revista, Janeiro/Junho 2016.

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O análogo militar nacional da teoria da guerra híbrida foi chamado de “guerras culturais” ou “operações psicológicas” operadas a partir do “Estado Profundo Caboclo”: STF, TCU, CGU, MPF, PF etc. Cujo resultado, já discutido por este Cinegnose, foi um golpe militar brasileiro que não foi televisionado – o golpe militar híbrido, clique aqui.

Por isso, é absolutamente ridícula a narrativa que a grande mídia criou sobre a “crise” (na verdade, estratégia de dissonância cognitiva da guerra semiótica militar) provocada pela “queda” do ministro da Defesa e dos comandantes das três Forças Armadas. Bolsonaro estaria cada vez mais “isolado” e “desgastado” em seu louco projeto de poder ditatorial.

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Analistas como Lauro Jardim, Eliane Catanhêde, Andréia Sadi, Thaís Oyama (sempre orgulhosos das suas “fontes”, na verdade especialistas em “agro jornalismo” com expertise em plantar “notinhas” para a imprensa) se apressam em dizer que as Forças Armadas vão se “pautar pela legalidade”, de que “rejeitam o assédio político” e enaltecem o “profissionalismo militar”. As Forças Armadas “resistem ao uso político” que Bolsonaro pretende operar. Militares teriam saído do governo para “se alinhar ao Judiciário e Legislativo para dizer não ao golpismo Bolsonaro”.

Bolsonaro seria o responsável pela devastação econômica e a catástrofe sanitária e humana da Covid-19, enquanto figuras como o general Paulo Sérgio Noronha (diretor de Pessoal do Exército) seria o contraponto, ao descrever, em entrevista à grande mídia, o suposto êxito do Exército intramuros em combater a Covid-19 ao adotar postura científica, contrapondo-se à visão negacionista do Governo.

Engenharia do caos

Ora, principalmente desde 2002 quando o Exército criou o 1BTI Op Psic – 1o Batalhão de Operações Psicológicas, a única organização militar dessa modalidade de operação na América Latina (influenciado pela doutrina de segurança da Atlantic Council, de grande penetração no Departamento de Estado dos EUA), as Forças Armadas abandonaram o espírito positivista de “Ordem e Progresso”. 

Desde então, para eles, a arena política virou um teatro de operações (o chamado “terreno humano” nos seus textos sobre guerra psicológica) com o objetivo de confundir o “adversário” ao criar cenários propositalmente caóticos, dissonantes, criptografados.  Um cenário de criação incessante de não acontecimentos através de eventos simulados ao melhor estilo daquele que Daniel Boorstin descreve sobre a festa no hotel.

É necessário criar fantasmas, espantalhos, para incutir medo e desinformação, mas sempre com contrainformações “plantadas” pelas fontes regulares da grande mídia que sempre soltarão notas tranquilizadoras em torno de expressões como “legalismo”, “profissionalismo”, “respeito às instituições e à Constituição”.

Se não, vejamos:

(a) Perceba, caro leitor, o timing preciso dessa simulação de crise da troca acelerada de ministros: a proximidade do 31 de Março, aniversário da “revolução” de 1964. Com o general Braga Netto, novo ministro da Defesa, aumentando a temperatura da crise ao afirmar que o dia “deve ser compreendido e comemorado”. Fantasmas e espantalhos saem de seus buracos para assombrar tanto a grande mídia quanto a progressista: vai ter quartelada? Bolsonaro vai dar o golpe? Tática diversionista para: (1) encobrir o fato que, atualmente, o Partido Militar é o principal agente político; (2) fazer o Exército se livrar da catástrofe sanitária provocada pelo general Pazuello, um militar “alinhado a Bolsonaro”.

(b) Sincronicamente, alguns dias antes do gatilho da simulação ser disparado, a grande mídia repercutiu a notícia de que mais de 500 civis foram mortos no golpe militar em Mianmar. Imagens do caos nas ruas e grupos rebeldes enfrentando soldados ganharam destaque no jornalismo corporativo. Alerta subliminar: o distante país asiático Mianmar seria nós amanhã?

(c) Nenhum bombeiro chega ao local do incêndio e grita para as vítimas presas no prédio em chamas: “Fudeu! Vai todo mundo morrer!”. Não, ele tenta acalmar, assim como a grande mídia, peça ativa nesse jogo de dissonância cognitiva: após os analistas terem sido “pegos de surpresa” com a reforma ministerial generalizada e a imediata saída do comando das Forças Armadas, vozes gaguejantes e expressões do tipo “fudeu! Corram para as montanhas!”, vem o calmante… “Mas as Forças Armadas são legalistas, profissionais e preservam suas funções constitucionais…”.

(d) Para aumentar ainda mais a temperatura do caos e reforçar o seu personagem golpista, Bolsonaro toma duas iniciativas propositalmente apressadas e toscas. E, como sempre, o jornalismo corporativo deu o habitual verniz da verossimilhança: (1) Bolsonaro entra com ação de inconstitucionalidade no STF contra as restrições de governadores na pandemia. Tão tosco e apressado que foi enviado sem a assinatura do advogado-geral da União, José Levi, sendo prontamente rejeitado pelo ministro Marco Aurélio; (2) o inexperiente deputado bolsonarista Major Vitor Hugo (PSL) propôs um projeto de lei que previa o uso do instituto da “Mobilização Nacional” em casos de pandemia e desastres naturais, aos moldes do que é previsto atualmente na legislação em caso de guerra. O que daria plenos poderes de guerra ao presidente. 

O projeto sequer entrou na relação de temas a serem debatidos no plenário. Mas foi o suficiente para a grande mídia levantar mais um espantalho, criando o pavor vintage (64’s style) da “quartelada”…  Afinal, não tá acontecendo o mesmo em Mianmar?…

(e) De repente, e estranhamente, os analistas da grande mídia citados acima se tornaram especialistas em Forças Armadas (aparentemente conhecem todos os seus rituais, critérios promocionais das carreiras, a têmpera legalista e patriótica das casernas etc.). Tão especialistas que são capazes de ter informantes que “vazam” a atmosfera de reuniões fechadas; “Comandantes foram surpreendidos com demissão em reunião com tapa na mesa e falas ríspidas”, dão a manchete Catanhêde e Roberto Godoy no Estadão (clique aqui)… O texto diz que o Estadão “apurou”… Com quem? Com o copeiro? É o paroxismo do jornalismo de notas e plantações (“agro jornalismo”).

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**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Wilson Ferreira

Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som). Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Linguagem Audiovisual. Pesquisador e escritor, co-autor do "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na produção cinematográfica" pela Editora Livrus.

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