Potência Política

por Adriana Mendes

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14 de janeiro de 2020, 14h54

Críticas à Petra e a nossa democracia que já vertiginou

Que pessoas e partidos mostrados como arquitetos do Golpe estejam mordendo os cotovelos já era de se esperar. O que me surpreendeu hoje foram comentários que li em grupos de whatsapp de esquerda e suprapartidários, dos quais participo

Foto: Divulgação

Na sua tradicional saída do Palácio da Alvorada de hoje (terça-feira, 14), Bolsonaro chamou o documentário Democracia em Vertigem, indicado ontem ao Oscar 2020, de ficção e porcaria. “Ah, não, pera. Ficção… para quem gosta do que o urubu come, é um bom filme”, disse. “Eu vou perder tempo com uma porcaria dessas?”, completou Bolsonaro. Criticar sem ver ou ler a obra é algo corriqueiro nesses tempos bolsonaristas.

Ontem mesmo, a conta oficial do PSDB no Twitter, ironizou a produção, chamando-a de “melhor filme de ficção e fantasia.” Que as pessoas e partidos mostrados como arquitetos do Golpe estejam mordendo os cotovelos, esbravejando contrariados ou desdenhando de uma produção nacional indicada ao Oscar já era de se esperar. O que me surpreendeu hoje foram comentários que li em grupos de whatsapp de esquerda e suprapartidários, dos quais participo:

“O Supremo, no meu ver, fez acordo com o PT pra preservar a Dilma. Eu testemunhei. Também não vi a Petra filmar a cara de perplexidade que todos nós parlamentares ficamos, depois de perceber que essa trama tinha sido urdida nas nossas “barbas”, sem que tivéssemos conhecimento, ou concordássemos com aquilo. As expressões eram dignas de um documentário à parte”.

“O mais triste é reforçar pro resto do mundo o mito (ou o mantra) do “golpe” rebaixando o Parlamento brasileiro (eleito pelo voto popular num sistema democrático) a um mero “golpista” e tratando a Suprema Corte e a Imprensa como parceira do tal golpe”.

“Mas não me conformo de a nossa luta amorosa ser calada, amordaçada neste filme, como foi a escravidão no Brasil, que toda a elite corrupta e gananciosa escondia e adiava a libertação por pura ganância. Do mesmo modo que a Petra fez com a nossa luta de resistência agora. Não me conformo de a misoginia ser camuflada no filme por meio das lentes de ” Dilma incompetente que não sabia governar”. Não me conformo de não ver na tela o Requião participando em Curitiba daquele enorme salão –acho que de lona– onde vários cidadãos e cidadãs brasileiros defendiam Dilma! Não me conformo de não ver no filme a passeata “Dilma Fica” fazer um tapete vermelho do MASP até a Praça da República”.

Ou seja, o filme que mostra o crescimento da polarização e falta de diálogo político no Brasil, não agradou nem gregos, nem troianos, aumentando assim a polarização. Mas agradou a Academia, que é absolutamente técnica. Eu sou cinéfila e já fiz vários cursos livres de cinema, o que mais assisto são documentários e ficção (sim, gosto dos extremos). Quando Democracia em Vertigem estreou vários amigos recomendaram, dizendo que choraram, que é emocionante, que é um tapa na cara, que desenha o Golpe de 2016. Assisti com olhos técnicos e ao lado da filha de 10 anos, me enchendo de perguntas e lembrando de vários momentos mostrados no filme e que participamos, juntas. Então precisei explicar também sobre as cenas da construção de Brasília, lugar que ela conhece muito bem. Acabei vendo com olhos de professora de história também (coisa que não sou).

Assim que o filme terminou e sem derramar uma lágrima, pensei que era digno de Oscar, “que sorte tem essa Petra Costa de estar lá o tempo todo para filmar, ser filha dos pais dela, ser de família de elite financeira e mostrar isso”, de falar que a família participou do primeiro Golpe (o militar). E ainda há os que criticam o fato dela ser rica. Já tivemos cineasta homem rico indicado ao Oscar, não lembro de ter lido qualquer “crítica” ao fato. Pode ter uma certa misoginia envolvida também. E olha, que bom seria se mais pessoas ricas produzissem bons filmes, indicados ao Oscar, nos colocando ao lado dos melhores na história do cinema.

Muita gente também está dizendo que o documentário mostra apenas “um lado da história”. Se essas pessoas fossem um pouco mais atentas ao que está escrito naquele resumo da Netflix, que tem quando aparece o filme, talvez entendessem: “Documentário político e memórias pessoais se misturam nesta análise sobre a ascensão e queda de Lula e Dilma Rousseff e a polarização da nação”. Ora, é a análise da cineasta, onde as memórias pessoais se misturam. Talvez o maior problema do Brasil, que polariza tudo, é a falta de interpretação de texto. Nesse caso específico, falta a interpretação literal.

Seguem abaixo algumas críticas quando o filme foi lançado, por pessoas que podem opinar, ao contrário do presidente Bolsonaro, pois assistiram ao documentário:

O The New York Times chamou de “uma crônica de traição cívica e abuso de poder, e também de desgosto”. O jornalista Leslie Felperin, do The Guardian, deu ao filme 4 de 5 estrelas: “Petra Costa consegue elaborar uma cartilha íntima sobre a queda do Estado no populismo e o desgaste do tecido democrático do país”. David Ehrlich, do IndiWire, deu nota B ao filme, que é “um retrato zangado, íntimo e assombroso do recente deslize do Brasil de volta às garras abertas da ditadura”.

O crítico Lawrence Garcia, do The A.V. Club elogiou a cobertura dos temas, mas criticou a falta de abrangência “ao investigar o processo de impeachment, por exemplo, [Petra] Costa enfatiza sistematicamente as maquinações políticas injustas da Câmara dos Deputados do Brasil, mas também encobre as falhas do governo de Dilma e sua manipulação incontestável do orçamento federal”.

O que não se pode negar é o arquivo pessoal impressionante (sempre com dois s) da cineasta e os depoimentos históricos que Petra Costa conseguiu registrar. E para quem ainda tivesse alguma dúvida sobre ter ou não ter sido Golpe, Petra repete à exaustão a gravação de Romero Jucá, onde diz que precisa tirar a Dilma para acabar com a sangria “num grande acordo nacional, com o Supremo com tudo”. Democracia em Vertigem pode até não levar a estatueta (embora tenha grandes chances e torcida), mas mostra ao mundo como a democracia é frágil e como ela está em risco de extinção em todos os Continentes.


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