De branco para branco: Não seja canalha, o racismo está na nossa cara

Na coluna de Henrique Rodrigues: Um homem negro foi brutalmente morto por espancamento. Há quem negue o racismo por puro cinismo. E há também os que negam por uma ignorância soberba. Seja como for, entendam: nós, brancos, não sabemos nada sobre racismo. Isso nunca nos impactou.

Vamos direto ao ponto. Se você é branco, responda a essas perguntas: Você já foi espancado no supermercado? Já foi seguido por seguranças na loja de departamento? Todos já te olharam ao mesmo tempo quando você entrou pela porta da sala de aula na universidade? Já precisou evitar determinados horários e lugares para não ser abordado repetidamente pela polícia? Já foi inferiorizado sem qualquer razão, exclusivamente pela cor da sua pele?

Todo ano é a mesma coisa. No Dia da Consciência Negra um caminhão de impropérios e idiotices inunda a internet. É uma verdadeira disputa para ver qual branco fala a maior bobagem sobre o racismo. O tal ditado do Morgan Freeman já é um clássico. Todo incauto que se preze corre para o tal simplismo reducionista da frase do ator norte-americano.

Este texto não é um tratado sobre o pensamento social brasileiro, nem sobre a formação e constituição étnico-antropológica do nosso povo. Seria uma estupidez gastar saliva com quem não consegue observar coisas tão óbvias, que podem ser notadas por qualquer um no cotidiano.

Um homem negro, dentro de um supermercado, foi espancado até a morte por dois seguranças brancos. Este é um fato concreto.

A intuito aqui é bem claro e objetivo. Se você não quer tomar conhecimento do que se passa ao seu redor, se escolhe ser cego para todas as relações raciais conflituosas que vivemos, ok! Apenas perceba que nós, brancos, não temos a menor ideia do que são essas vivências e idiossincrasias. Isso nunca fez parte intrinsecamente de nossa condição como cidadãos.

Alberto Silveira Freitas tinha 40 anos. Estava acompanhado da esposa, comprando algumas coisas numa unidade do Carrefour, em Porto Alegre. Após uma discussão banal foi imobilizado por dois seguranças brancos e recebeu uma sessão de socos na cabeça. Na sequência teve o tórax pisado e comprimido.

Nego Beto, como era conhecido, foi morto por espancamento e asfixia, enquanto uma empolgada funcionária branca do supermercado filmava tudo de pertinho, procurando o melhor ângulo. Um de seus assassinos é um PM.

Se você observar, o único negro ali era Beto.

Repito. Um homem negro foi brutalmente morto por espancamento, em meio a um cenário onde só havia atores brancos. Há quem negue o racismo por puro cinismo. E há também os que negam por uma ignorância soberba.  Seja como for, entendam: nós, brancos, não sabemos nada sobre racismo. Isso nunca nos impactou.

Se você permanece sem perceber isso, seu caso não é o da ignorância soberba que mencionei lá no início. Sua postura de negar o racismo numa das sociedades mais vergonhosamente racistas do mundo é realmente um lance de cinismo, sabe?

Você o faz por opção.

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Henrique Rodrigues

Jornalista e professor de Literatura Brasileira.