Raphael Silva Fagundes

04 de abril de 2019, 21h31

De volta à caverna: elogio à ignorância

É certo que Bolsonaro é cria da ignorância, mas, ao mesmo tempo, ele atua como um arauto, dando voz aos próprios ignorantes

O sociólogo Zygmunt Bauman - Foto: Divulgação

Por Raphael Fagundes e Wendel Barbosa*

Qual é o perigo da situação atual? A ignorância. A ignorância, muito mais que a miséria… É num momento semelhante, diante de um perigo como esse, que se pensa em atacar, em mutilar, em sucatear todas essas instituições que têm como objetivo específico perseguir, combater e destruir a ignorância!”.

(Discurso de Victor Hugo na Assembleia Constituinte de 10 de novembro de 1848)

A aversão ao conhecimento se dá pelo fato de ele estar associado à esquerda, de modo que ser contra a erudição é uma forma de ser contrário à esquerda, ser antissocialista. Não se reivindica o conhecimento para si, mas a necessidade de não tê-lo para viver.

A vontade de saber desvinculou-se do poder, algo inédito na história ocidental. As pessoas querem ter poder sem saber. Os líderes mostram-se incapazes, ineptos, e assim adquirem legitimidade. É possível até mesmo ser contra as evidências. Poder sem saber, uma aporia foucaultiana.

É lógico que o poder se aproveitou desse movimento que ignora o saber. Ou seja, fez da vontade de não saber um saber político. Contudo, cabe ressaltar que isso é fruto da modernidade líquida, onde o tempo longo é desprezado. As pessoas querem falar inglês em uma semana, fazer faculdade em menos tempo possível. Elas preferem ver um vídeo no YouTube a ler um livro. Assim, ou não se aprende nada, ou adquire-se um saber distorcido. O conhecimento exige tempo, arrisco a dizer que é eterno, e a modernidade tem nojo da eternidade.

É como diz Bauman, “comprar a crédito é a única forma de compromisso a longo prazo que os habitantes do líquido mundo moderno não apenas toleram e defendem, mas assumem com satisfação”. A dívida é a única forma de eternidade aceita, tornou-se, por assim dizer, o extremo oposto do conhecimento.

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Pela liturgia bíblica, no livro de Gêneses, Deus – no processo de criação da vida na Terra – no jardim da região de Éden, fez com que crescesse uma árvore que dava o conhecimento do bem e do mal. As bases desse lugar e da felicidade que ele promovia eram pautadas por uma obediência que não dava margem a questionamentos. O homem foi proibido de comer do fruto dessa árvore. O final dessa passagem das Sagradas Escrituras, porém, todos nós conhecemos: a segurança do paraíso idealizado por Deus foi subvertida pela curiosidade humana.

Há alguns anos, certas visões eram normalizadas por uma sociedade que ridicularizava o diferente. O desrespeito ante ao mesmo era tolerado. Nesse sentido, preconceitos mascarados de “brincadeiras” eram desferidos contra negros, obesos, homossexuais, mulheres etc. Até mesmo aqueles que se destacavam intelectualmente padeciam desse mal.

Os órfãos desses tempos vivem do saudosismo de uma época onde o “diferente” não era suportado. Muito pelo contrário. Ele era diminuído e marginalizado socialmente. Essas pessoas defendem uma noção torta de moralidade que rejeita o respeito ao próximo. Por não saberem utilizar suas capacidades racionais, enganam-se quanto à qualidade de seus próprios “conhecimentos”. Tomam como certos e verdadeiros postulados que nada mais são que um amontoado de juízos de valor, opiniões falsas e incertas que acabam por induzi-los ao erro.

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O limite do “tolerável” havia se alterado com o passar do tempo, influenciado por movimentos sociais e pautas progressistas. O movimento feminista, a luta pelos direitos civis, os movimentos LGBTS são só alguns exemplos. Dessa forma, aqueles que antes eram ridicularizados passaram a ter um maior protagonismo em nossa sociedade. Isso, obviamente, não fez com que os ataques fossem cessados. Mas, a voz dos ignorantes passou a ecoar bem menos, personificada naquele vizinho ou parente que profere impropérios desnecessários numa conversa de domingo.

Reconhecer-se como ignorante, segundo o princípio filosófico socrático, abre o caminho para o conhecimento. Existem forças reacionárias – em especial no nosso país – que fazem de tudo para manter a luz do “saber” bem longe de nosso alcance. E é dentro desse contexto que a voz dos ignorantes passou a figurar novamente, com força, em nossa sociedade. Assim, contrariando postulados cientificamente aceitos, coisas simples passaram a ser questionadas: o aquecimento global, a esfericidade da Terra, o alinhamento político-ideológico de certos regimes etc.

Em tempos onde vemos pessoas dizerem que Simon Bolívar lia Marx e Lênin; que Stálin havia recebido, não uma, mas duas vezes o Nobel da Paz; que Marx havia percebido que seus postulados teóricos estariam errados após a Primeira Grande Guerra; nada mais comum a gente ter, presidindo o nosso país, indivíduos que defendam a tese de que a pedagogia de Paulo Freire é a responsável pelo nosso colapso educacional por incentivar uma doutrinação comunista nas escolas; de que a ditadura não existiu e deve ser celebrada; de que – contrariando o embaixador alemão Georg Witschel, os curadores do Museu do Holocausto e pesquisadores e historiadores de todo o mundo – o Nazismo é de esquerda. A lista, na verdade, é extensa. E deve se alongar ainda mais com o passar do tempo. Afinal de contas, estamos apenas no quarto mês do retorno “triunfal” dessa tendência.

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O presidente, sua equipe e seu eleitorado liberaram um conjunto de traços e modos de comportamento que haviam sido abafados. Somados ao “desengajamento moral” – termo usado por Albert Bandura para explicar como as pessoas se liberam de seus padrões morais para infligir ações danosas a outros, sem que se sintam culpadas por sua conduta moral – passaram a atacar o conhecimento acadêmico e científico. Se em Gêneses, Adão e Eva, movidos pela curiosidade e gana pelo conhecimento, desobedeceram a vontade do Pai, e comeram o fruto proibido, atualmente estamos vivenciando o retrocesso de todo esse processo.

Podemos fazer um paralelo com uma passagem clássica da história da Filosofia. Onde no livro VII de “A República”, Platão, ao discutir a teoria do conhecimento, linguagem e educação na formação do Estado ideal, narra a prisão intelectual dos indivíduos, mantidos numa caverna escura. A exploração e a fuga da caverna representam a rejeição à ignorância na medida em que alcançam o conhecimento. Hoje, no entanto, presenciamos o retorno à caverna. Há uma simbiose entre pobreza intelectual e vazio moral. É certo que Bolsonaro é cria da ignorância, mas, ao mesmo tempo, ele atua como um arauto, dando voz aos próprios ignorantes.

*Wendel Barbosa é pós-graduado em História social e cultural do Brasil pela FEUC e professor da rede estadual de ensino

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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