Yuri Martins Fontes

19 de março de 2019, 06h00

Décadas neoliberais e ascensão fascista: duas faces do mesmo erro (I)

Yuri Martins Fontes diz que a “burguesia interna brasileira fez vista grossa ao degenerado processo que obviamente se aprofundava, propiciando que nossa ferida nacional autoritária, ainda aberta, infeccionasse”

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

No fim do século XX, a “periferia” do capitalismo viveu duas décadas socioeconomicamente “perdidas”, sob a desordem das políticas neoliberais impostas pelo “centro” do sistema (Estados Unidos, Europa Ocidental).

Especialmente daninho para a realidade latino-americana, esse fenômeno pode ser assim resumido: uma primeira etapa na década de 1980 (iniciada nos 1970), período de implantação dos famigerados “ajustes estruturais” (liberalização alfandegaria e abertura ao predadorismo externo, precarização de políticas sociais e de incentivo à produção nacional, etc); e a etapa de 1990 (de consolidação hegemônica destas políticas antinacionais, a partir da força então imbatível que os EUA dispunham ao derrotar a URSS na dita Guerra Fria).

Tal processo, que derruba o mito keynesiano do capitalismo “domesticado” e revive a face “agressiva” deste sistema, teve por disparador a crise econômica de meados dos anos 1960 – crise que regressa ao cenário global após o superaquecimento capitalista ilusório do pós-Guerra.

Crise capitalista estrutural e cíclica

Contudo, essa nova “crise capitalista” difere substancialmente de outras anteriores. Como a analisam os mais profundos pensadores críticos da contemporaneidade – desde o húngaro István Mészáros, grande marxista do fim de século, até os heterodoxos “críticos do valor”, e passando por teóricos da “dependência” (como Theotonio dos Santos) e por economistas com estudos empíricos, como Eleutério Prado –, esta nova “crise” tem agora características “estruturais”, ao lado das “cíclicas”. Trata-se, portanto, de um problema não mais só de ordem conjuntural, mas especialmente se relaciona com o funcionamento “estrutural” do sistema (ou de sua própria “lógica”).

O neoliberalismo surge assim como uma estratégia política visando atenuar os sintomas desta crise lógica. Tal processo reativo do capital geraria, com o tempo, recorrentes e violentas crises econômicas regionais: “Tequila” no México em 1994; desvalorização do Real no Brasil tucano em 1999; quebra geral argentina em fins de 2000, etc.

Fadiga neoliberal e flerte com fascismo

Com o início do novo século porém, ganham protagonismo social as movimentações populares de recusa ao neoliberalismo, dado o crescente desgaste, junto à opinião pública, das políticas sanguessugas ditadas pelos “Chicago boys” (escola ultraliberal que, aliás, é a do ministro da economia bolsonazi) e impostas por organizações gestoras do capital (FMI, Banco Mundial).

Assim como ocorreu há cerca de um século no entre-Guerras (com a aliança velada entre capitalistas liberais e capitalistas nazifascistas contra o projeto socialista soviético recém-começado em 1917), o capitalismo contemporâneo, em seu regime “linha-dura” (neoliberal), que vigora desde meados dos 1970, voltou há algumas décadas a flertar com o fascismo. Isto, tanto nas nações centrais, como nas periféricas.

Nos países ricos, essa ideologia totalitária surge como resposta xenófoba aos movimentos migratórios – de viés socioeconômico, o que é fruto da miséria que guerras e políticas depredadoras imperialistas semearam.

Já por entre os países pobres, contudo, essa tendência social fascistizante tem sido uma reação motivada por sistemáticas derrotas eleitorais das classes dominantes, sofridas no embate com projetos reformistas – consistindo em uma forma desesperada das elites se contraporem às reformas sociais (mínimas) promovidas por governos de centro-esquerda, mantendo à força seus níveis de lucro.

Esses vários governos progressistas, que dominam a cena na América Latina do novo século, não chegaram a construir efetivamente experiências “socialistas”, mas foram nitidamente mais racionais, “humanizantes”, do que a anterior agressão neoliberal.

Por conseguinte, tais governos se tornaram muito mais populares de que os conservadores a que sucederam.

O golpe que nunca acaba: essa infeccionada ferida brasileira

No caso brasileiro, há mais de uma década (precisamente desde 2004, com a encenação do espetáculo intitulado pela mídia fisiológica de “mensalão”), a prática das elites internas vem sendo tentar reerguer a fórceps o projeto neoliberal – já decadente desde o início da era FHC, há 25 anos.

Com isso, a face totalitária desse antiprojeto de nação fica a cada dia mais exposta.

É o que se vê na aliança entre os setores mais arcaicos do país: a hegemônica mídia corporativa das seis “famiglias”; o judiciário medievo (explicitamente privilegiado e corrompido – vide o caso da fundação bilionária dos Moro-Dallagnol); o parlamento maiormente BBB (“Boi-bíblia-bala”, que dispensa apresentações quanto a seu baixo nível); e a ala hoje predominante dos militares reacionários, de viés antinacional (entreguistas, defensores da tortura de seu povo), que a partir de leitura subalterna da questão da “dependência, dominam nossas Forças Armadas (que outrora teve nomes dignos como Luís Carlos Prestes, vale recordar).

Esses militares, ligados à alta crápula da elite civil, foram os que nos anos 1960 impuseram a atual estrutura rígida (social, política, jurídica), que ainda atravanca nosso projeto de nação, modelo autoritário que nunca conseguimos nem minimamente superar.

É este cenário, como observa o filósofo Paulo Arantes, que vivemos até agora: um golpe-de-novo-tipo, ou seja, um golpismo (ainda) sem armas, que se insere como parte integrante do golpe de 1964; um golpe que nunca acabou, mas que entre transformismos de fachada ainda “vem sendo”.

Quando o discurso democrático já não serve ao capital

Como bem sabem aqueles que questionam a história, atentos às relações íntimas entre fatos aparentemente diversos, não se prendendo ao cipoal de detalhes secundários com que a ideologia de cima tenta desviar o olhar incauto, e buscando assim compreender o “todo” do problema: o nosso espetáculo antidemocrático, que degenerou na recente eleição de um fantoche fascista (utilizado como gestor da reação neoliberal), se deu porque as decaídas elites brasileiras sabiam não ter nenhuma chance de vitória política através do mecanismo eleitoral “legal” que elas mesmas instituíram, e que funcionara tão bem até o fim do século.

Quando a democracia não lhes foi mais favorável, no intuito de obter algum apoio popular para concretizar o golpe de Estado de 2016, as classes dominantes deixaram então pra trás qualquer aparência democrática.

Dançando alegre ao lado de uma intelectualmente vazia classe média amarelo-consumo (convocada às ruas pelo sistema Globo-Estado-Folha, no dia mágico que teve até metrô tucano grátis em São Paulo, centro do poder nacional), a burguesia interna brasileira fez vista grossa ao degenerado processo que obviamente se aprofundava, propiciando que nossa ferida nacional autoritária, ainda aberta, infeccionasse.

[*continua na próxima coluna]

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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