Defender Paulo Galo de uma prisão arbitrária é defender o Estado de Direito

Defender e se solidarizar com Paulo Galo nada tem a ver com concordar ou não em chamuscar aquela aberração estética e histórica, a estátua de Borba Gato

No Fórum Onze e meia de hoje, professor Pedro Serrano definiu com uma precisão cirúrgica a ação do coletivo Revolução Periférica na estátua Borba Gato: intervenção artística.

Desde que a Revolução Periférica resolveu chamuscar 13 metros de concreto na Zona Sul de São Paulo, no último 24 de junho, mesmo dia em que 500 atos em todo território nacional pediam nas ruas #ForaBolsonaro, ainda não tinha visto nos debates da rede o argumento que traz a arte para a análise.

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Os pneus queimados no pedestal de Borba Gato dividiu a opinião pública não apenas entre a ala progressista da sociedade e a ala conservadora, mas entre aqueles que se colocam no mesmo campo de luta.

Vou desconsiderar os argumentos da direita, eles sempre são para criminalizar qualquer manifestação de revolta periférica.

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Para os do campo progressista que condenaram o ato (e isso não significa que defendem o monumento e o que ele simboliza), os jovens periféricos atropelaram uma coordenação coletiva que organizava os 500 atos do 24 de julho. Problematizam que tacar fogo no bloco de concreto do bandeirante sequestrou o debate, o foco do significado e as intencionalidades do #24J.

Para os que defenderam o ato, os movimentos organizados “precisam se reciclar” pois a velha forma do caminhão de som não dialoga com mais ninguém, outros que os “desfiles da Paulista” não convencem ninguém.

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A sensação que tive em algumas redes e grupos era que o debate se tornou inviável. Não pode escrever texto criticando o ato de queimar a maldita estátua sem combinar com lideranças de 500 atos, automaticamente os autores de tais posições são taxados de “homem branco”, “racista”, “esquerda classe média que desfila na Paulista”. Por outro lado, os defensores do ato foram denominados de “burros”, “militontos” e outros epítetos desqualificadores.

Nem tanto ao mar, nem tanto ao céu

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Um pouco de racionalidade no debate nos ajudaria a sair dos extremos (repito, dentro do campo progressista). Ouvi a pouco de uma liderança sindical “O sindicato é porta-voz, mas não é dono do saber” é uma fala muito expressiva. Trato aqui sindicatos e movimentos sociais organizados como os atores dos 500 atos do 24J. E não vi nenhuma liderança sindical, mesmo sendo diminuídas em seus esforços organizativos, engalfinhando-se na rede para lacrar e ganhar debates.

Poderíamos complementar no outro polo dos atores do 24J: jovens periféricos que atearam fogo na horripilante estátua do Borba Gato, eles não inventaram a roda da luta. Como o próprio Galo já repetiu inúmeras vezes: “A classe trabalhadora não é pé de coentro, é baobá“.

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Enfim, acredito e argumento que devemos sair do campo das paixões e das idealizações, especialmente quando vivemos em uma sociedade profundamente conservadora. Práticas conservadoras e pensamentos autoritários estão presentes em todas as instituições, territórios e grupos sociais.

Saindo deste flaXflu, qual deve ser a nossas lutas, agora que Galo e sua esposa foram presos arbitrariamente, enquanto mandantes do assassinato de Marielle estão soltos?

Além de lutar pela soltura imediata de Paulo Galo e sua esposa Géssica, precisamos debater os próximos passos. Para isso, recorro novamente ao argumento de Pedro Serrano: nossa luta deve ser a de o poder público não gastar mais dinheiro no restauro da estátua de Borba Gato. E complemento, não desperdiçar o nosso dinheiro restaurando aquele horror estético e histórico que foi erguido para perpetuar a memória da elite política e econômica paulistana, para reforçar a autoimagem que ela construiu de si.

Na arquitetura existem debates muito qualificados sobre as camadas de intervenção nos monumentos. Para Serrano, queimar a estátua foi uma intervenção artística. Portanto, que esse monte de concreto chamuscado seja removido pra um museu do extermínio colonial, porque vai informar dois tempos históricos: o do tempo em que foi erguido e o sentido estético que foi impresso pelos jovens do coletivo Revolução Periférica, em pleno século XXI.

A luta política contra o fascismo não tem proprietários, concordando ou não com a ação periférica não se pode criminalizar seus artistas. É dever de todo militante à esquerda ser solidário e defender esses meninos e meninas.

Podemos debater depois sobre a validade ou não (e pra quem) da queima de estátuas, mas não se cruza os braços na defesa de qualquer ativista que luta contra o fascismo.

Defender e se solidarizar com Paulo Galo e Géssica nada tem a ver com concordar ou não em chamuscar aquela aberração estética e histórica, a estátua de Borba Gato. Defender Paulo Galo de uma prisão arbitrária é defender o Estado de Direito.

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Maria Frô

Historiadora, pedagoga, educadora, formadora, blogueira, autora de coleções didáticas e séries para a televisão.

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