Desemprego e fome: resultado do desgoverno Bolsonaro

Leia na coluna de Raimundo Bonfim: Em quase dois anos de desgoverno Bolsonaro os índices do Brasil não poderiam ser piores, e devem se agravar

A luz amarela para a fome no Brasil foi acesa quando o golpe de 2016 levou Michel Temer a tomar o poder. A partir dali já sabíamos que o alimento da mesa do trabalhador e da trabalhadora deixaria de ser prioridade. Em 2018, quando Bolsonaro assumiu a Presidência da República, deu seguimento ao desmonte das políticas públicas e uma das suas primeiras ações foi extinguir o Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea). Resultado: a fome começou a crescer no país.

Com o fim das políticas voltadas para a segurança alimentar, a consequência não poderia ser outra: depois de sair em 2014 do Mapa Mundial da Fome da ONU, infelizmente, estamos de novo na triste e vergonhosa linha da miséria. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2018 são uma verdadeira denúncia: 10 milhões de pessoas passam fome no Brasil, sem falar nos 74 milhões que estão em situação de insegurança alimentar. Note-se que são resultados de 2018, com pesquisa feita antes da pandemia, o que nos faz estimar que esse número seja ainda mais alarmante.

Em quase dois anos de desgoverno Bolsonaro os índices do Brasil não poderiam ser piores, e devem se agravar. Somados aos dois anos anteriores do desastre que foi o governo de Temer à frente da Presidência, são quatro anos de liberalismo e ataque aos direitos, à assistência social e às políticas públicas, como o maior programa de distribuição de renda do mundo (o Bolsa Família), a valorização do salário mínimo e a criação de milhões de empregos com carteira assinada, nos governos Lula/Dilma. Tudo destruído!

A cada semana aumenta o número de desempregados, isso significa menos dinheiro para comprar alimentos, menos ou nenhuma comida na mesa das pessoas e mais gente passando fome. Na última semana, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid (Pnad Covid-19) registrou 14,4% de desemprego no país, o que corresponde a 14 milhões de pessoas desempregadas. São números reais, que denunciam a difícil situação a que foi levado o Brasil neste momento em que atravessamos uma pandemia que já deixou quase 155 mil mortos e mais de 5 milhões de contaminados. Mas é preciso que se destaque que o país não está nesta situação assustadora exclusivamente por causa da covid-19, mas devido ao projeto ultra neoliberal de desmonte do Estado. Quem levou o país aos índices negativos assustadores foram esses governos que desprezam a classe trabalhadora para garantir o lucro ao setor financeiro.

O movimentos populares têm promovido ações de solidariedade para abrandar o sofrimento do povo que é privado do direito básico de ter alimento. Estamos vivenciando o mais profundo abandono das pessoas em situação de vulnerabilidade pelo Estado, que deveria assumir sua responsabilidade em cuidar delas e garantir sua dignidade. Não é o que temos visto.

No Dia Mundial da Alimentação, em 16 de outubro, uma data criada para a conscientização mundial para a tragédia da fome, no Brasil foi mais um dia de luta para os movimentos populares e para a classe trabalhadora. Não tivemos nada a comemorar, em especial neste ano de 2020, que nos remeteu ao passado sombrio da falta do que comer, da miséria e do abandono.

Ao não construir políticas públicas e não garantir o direito básico do alimento, o governo expõe claramente sua desumanidade. O alimento é pressuposto básico para a vida humana, sem comida as pessoas ficam sujeitas a doenças como desnutrição, anemia e muitas outras, e podem vir a óbito. Para dar continuidade ao sofrimento, o governo Bolsonaro tem se especializado em sua crueldade e já decidiu que o auxílio emergencial será reduzido pela metade e que será pago apenas até dezembro próximo, mesmo que a pandemia não tenha chegado ao fim. O auxílio de 600 tem ajudado as famílias a enfrentarem a pandemia, o desemprego e a perda acentuada da renda.

Apesar do auxilio emergencial de 600 reais ser insuficiente para cobrir as necessidades básicas das famílias, foi ele quem garantiu até agora, minimamente, a comida na mesa de milhões de trabalhadores e trabalhadoras. Tirar do povo um valor que já é pouco, é condená-lo a morrer de fome. Os movimentos populares, centrais sindicais, partidos do campo da esquerda lutam e pressionam, sem trégua, para que seja votada na Câmara dos Deputados, com urgência, a medida pela manutenção dos 600 reais. Nenhum real a menos!

De todas as formas o povo empobrecido é o mais prejudicado nas ações de Bolsonaro, que sacrifica os mais necessitados com a proposta de redução do auxílio para 300 reais, lembrando que nem todos os que já recebem os 600 reais vão receber o novo valor, já que as regras foram cruelmente endurecidas para excluir cerca de 6 milhões de beneficiários, dos quase 68 milhões cadastrados. Reduzir o que já é pouco é levar a população mais vulnerável a uma miséria ainda mais grave.

Em substituição ao Bolsa Família, que ajudou a tirar 40 milhões de pessoas da pobreza extrema e acabar com a fome no Brasil, Bolsonaro propôs o programa Renda Cidadã, que ele nem conseguiu colocar de pé e já pretende excluir mais de três milhões de famílias de algo que ainda nem existe. Com o fim do auxílio emergencial, previsto para dezembro, a estimativa é que 40 milhões de pessoas voltem a passar a fome no nosso país. Desemprego e fome são o resultado do desgoverno Bolsonaro.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Raimundo Bonfim

Raimundo Bonfim é advogado, coordenador nacional da Central de Movimentos Populares (CMP) e membro da coordenação nacional da Frente Brasil Popular (FBP). Iniciou a militância nos movimentos populares em 1986, na Favela Heliópolis, a maior de São Paulo

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